BRANDS' ECO Qual o panorama do uso da Inteligência Artificial na saúde em Portugal?

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  • 22 Dezembro 2020

O EIT Health Portugal promoveu uma conferência internacional que colocou a saúde digital e o desenvolvimento da Inteligência Artificial no centro do debate. Qual é o panorama português nestas áreas?

A conferência “Inteligência Artificial em Saúde: uma perspetiva de Portugal”, organizada pelo EIT Health Portugal, reuniu vários especialistas, inovadores e empreendedores que estão a participar ativamente no desenvolvimento da tecnologia na área da saúde em Portugal, com principal foco na Inteligência Artificial (IA).

O evento digital, que decorreu no dia 17 de dezembro, arrancou com o exemplo da Polónia, com a intervenção de Ligia Kornowska, presidente da Federação Polaca de Hospitais. A keynote speaker explicou que, neste momento, existe “uma política de regulamentação do desenvolvimento da IA a aguardar aprovação final” na Polónia, um documento que, apesar de não ser dirigido especificamente para a área da saúde, deverá ser “o primeiro passo para se criar um ambiente apropriado para o desenvolvimento e implementação da IA” naquele país, esclareceu.

Ligia Kornowska elencou ainda alguns dos principais desafios na implementação da IA no setor da saúde polaco, nomeadamente o fraco acesso a dados médicos e falta de qualidade dos mesmos, a falta de esquemas de dados de doadores, a deficiência ou ausência da responsabilização legal destas questões e a falta de coordenação entre os diferentes intervenientes.

Os desafios que as startups de IA na área da saúde enfrentam foi precisamente o tema central do primeiro painel de debate da conferência, logo após um showcase dos mais inovadores projetos nesta área em Portugal. Ana Rita Londral, da Value for Health CoLAB, Ricardo Gil Santos, da Glintt, Cátia Pinto, da SPMS – Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, João Pedro Ribeiro, da Peekmed, Maria Vasconcelos, da Fraunhofer Portugal, Luís Valente, da iLof, e João Diogo Ramos, da Retmarker tiveram oportunidade de explicar como é que os seus projetos e empresas estão a contribuir para o desenvolvimento da IA e da saúde digital dentro e fora de portas.

Durante o debate, moderado por David Magboulé, da Labtomarket, falou-se do “fator humano” como um dos principais desafios no desenvolvimento da tecnologia nesta área, como indicou João Diogo Ramos. Além disso, Portugal pode não ser um mercado suficientemente grande se o objetivo é “fazer dinheiro com o negócio”, mas é o ideal para “testar tecnologias” e “ter feedback e insights rápidos”, na opinião de João Pedro Ribeiro. “Se queremos construir algo massivo e influenciar a vida de milhões de pessoas em todo o mundo, isto não é tarefa para uma só pessoa nem um só país”, confirmou Luís Valente.

Estará o sistema de saúde português preparado para escalar a adoção da Inteligência Artificial?

Este foi o mote de discussão do segundo painel, com Filipa Fixe, da Glintt, Alexandre Lourenço, do Centro Hospitalar de Coimbra, e António Murta, da Pathena, moderado por Mariana de Araújo Barbosa, do ECO.

"Precisamos de criar uma abordagem colaborativa para testar soluções e levar os serviços de saúde para outro nível”

Alexandre Lourenço

Centro Hospitalar de Coimbra

Filipa Fixe contextualizou o momento: “precisamos de usar esta tecnologia antes de ficarmos doentes e garantir que nos ajuda a ser mais ativos e a cuidar melhor do nosso bem-estar antes de adoecermos. Mas se adoecermos, também precisamos de ser tratados”. A IA é útil não apenas nos hospitais, mas também quando estamos em casa, por exemplo, na monitorização de doenças à distância. Um dos projetos que a Glintt está a desenvolver é, precisamente, um dispositivo eletrónico que se cola à pele e faz a recolha de dados para que o médico possa monitorizar o doente em casa.

Mas como é que este tipo de tecnologia está a ser incorporado nos hospitais? “Ainda temos muitas barreiras”, explica Alexandre Lourenço, a começar pela falta de cientistas de dados, a falta de infraestrutura da tecnologia e, claro, constrangimentos de financiamento. “Não temos um processo de plena digitalização onde poderíamos construir projetos de Big Data e onde a IA poderia usar esses dados para fornecer resultados”, referiu.

Já existem hospitais que disponibilizam uma espécie de “escritório de inovação”, um ponto de contacto para as startups poderem testar tecnologias. Para Alexandre Lourenço, o que está em falta é a profissionalização destas equipas. “Precisamos de gestores de inovação que apoiem esta cooperação entre hospitais e a indústria. Depois, precisamos do pensamento estratégico onde hospitais, cuidados primários e serviços sociais municipais consigam trabalhar juntos neste tipo de projetos”, explicou. “Precisamos de criar uma abordagem colaborativa para testar soluções e levar os serviços de saúde para outro nível”, adiantou.

Para Antonio Murta, Portugal já está a ficar para trás quando comparado com congéneres europeus como a Suíça ou a Alemanha. “A Deep Tech vai mudar literalmente a prática da medicina nos próximos anos, e ainda só estamos no início”, referiu. Nesta fase, “há uma grande oportunidade na área da saúde na Europa”, acrescentou.

O último painel da conferência foi dedicado ao papel que as redes e as comunidades desempenham no apoio à inovação da Inteligência Artificial em saúde. No debate participaram Joana Feijó, do Health Cluster Portugal, Miguel Amador, da EIT Health, Paulo Nunes de Abreu, da Digital Health Portugal, e Ana Rita Londral, da Value for Health CoLAB.

O Health Cluster Portugal é o maior cluster da área em Portugal e Joana Feijó explicou como funciona. A ideia é juntar empresas, startups, organizações de Investigação & Desenvolvimento e universidades para discutirem “algumas estratégias em áreas específicas”, com o objetivo de “criar produtos e serviços inovadores”, contribuir para o “crescimento de negócios e para a qualificação dos empregos nesta área”.

"Sem uma transformação da saúde, os serviços de saúde não são sustentáveis.”

Paulo Nunes de Abreu

Digital Health Portugal

O grande desafio em Portugal é mesmo “criar esta cooperação entre instituições para trabalharem em conjunto”, explicou Miguel Amador. E é precisamente nesta linha que o EIT Health atua: “ligar parceiros e instituições em Portugal com uma rede cada vez maior na Europa”. Mas há barreiras difíceis de transpor: “não é apenas uma questão de compreender a tecnologia, mas como a dirigimos, como gerimos a mudança e como trabalhamos com pessoas que começaram a trabalhar na área da saúde antes de o computador fazer parte da sua vida”, explicou o responsável do EIT Health Portugal.

Paulo Nunes de Abreu confirma. O mais importante é “criar espaço para que as conversas certas aconteçam, conversas enzimáticas com os players relevantes” do setor. Uma coisa é certa, neste momento, e com o impacto que a pandemia da COVID-19 teve em todo o mundo, os governos dos países europeus “já têm uma noção clara de que, sem uma transformação da saúde, os serviços de saúde não são sustentáveis”, afirmou.

A mesma ideia foi defendida por Ana Rita Londral, que referiu que “a saúde precisa de metodologias e ferramentas digitais para ser sustentável”.

Para criar um ecossistema de desenvolvimento da IA é muito importante “trabalhar numa rede onde temos tecnologia, médicos e pacientes”, elucidou Joana Feijó. Só assim teremos “soluções finais de alta qualidade e com altas evidências clínicas”, adiantou. Outra questão crucial é a da escala. “Para ter IA, todos sabemos que precisamos de escala, de ter uma enorme quantidade de dados e, para isso, precisamos de digitalização na saúde, de diferentes players a fornecer dados” e a trabalhar em estreita cooperação, avançou Joana Feijó.

Qual é, então a grande resistência? Para Miguel, é a “falta de confiança” e o facto de se ser “adverso ao risco”. É necessário criar confiança entre a indústria (tecnologia) e a comunidade médica e as “redes de cooperação são boas maneiras de construir este tipo de relações”, explicou.

Health Tech Report Portugal 2021

Durante a conferência, o EIT Health revelou ainda que está a construir um “Mapa da Inovação nos Cuidados de Saúde em Portugal”. Trata-se de um relatório completo que pretende dar uma visão dos principais agentes e inovadores do país na área da saúde e que será lançado em fevereiro de 2021.

Os dados preliminares já apurados dão conta de 56 startups a trabalhar ativamente para lançar inovações na área da saúde digital, tecnologia médica e biotecnologia em Portugal e 307 organizações de investigação.

Mas em que estágio estarão os projetos destas startups? E quantas destas organizações trabalham realmente em tecnologia com impacto direto na área da saúde? Estas são algumas das questões que o relatório pretende responder.

Exposição de projetos

O dia ainda contou com um workshop da parte da manhã, dinamizado pelo Instituto Pedro Nunes, parceiro do EIT Health, dedicado ao tópico de IA e da Internet das Coisas (IoT), onde foi apresentado o projeto COGNIVITRA.

Desenvolvido com parceiros em Espanha e Luxemburgo, o projeto permite um treino cognitivo e físico em casa, através de sistemas automáticos, ajudando a prevenir o declínio cognitivo sem aumentar a necessidade de recursos humanos, num sistema de saúde já tão pressionado neste aspeto.

Este foi um dos projetos apresentados na Exposição Digital da conferência, que contou com 26 outros projetos aplicados de IA em saúde de diversas empresas e instituições nacionais.

Se não teve oportunidade de assistir à conferência, reveja-a aqui:

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