Produtores de leite portugueses estão no limite e pedem preços iguais aos da UE

  • Lusa
  • 19 Novembro 2021

Uma centena de produtores de leite concentraram-se esta sexta, frente à Agros, para pedir a “subida urgente” do preço do leite.

Mais de uma centena de produtores de leite reivindicou esta sexta-feira, na Póvoa de Varzim (Porto), a “subida urgente” do preço pago à produção do leite, avisando que estão no “fim da linha” e ser “imoral” 30 cêntimos por litro.

Pela sobrevivência do setor 0,38 € /litro”, “Exigimos um preço do leite justo pago à produção”, “Anunciamos a morte do setor”, “É urgente justiça no setor”, “Lutaremos até ao fim”, “É imoral, uma vergonha”, “Quem fica com o nosso dinheiro?”, “Antes tínhamos um teto, agora não temos nenhum”. Estas eram algumas das frases que se podiam ler nos cartazes que os produtores de leite portugueses mostravam esta sexta na manifestação marcada para a entrada da cooperativa de leite Agros.

O custo do litro de leite pago ao produtor em outubro transato em Portugal foi de 30 cêntimos, enquanto que a média paga na União Europeia é 38 cêntimos, um preço que os produtores de leite exigem que lhes seja pago já este mês de novembro, sob a pena de terem de fechar dezenas de vacarias em Portugal.

“Os custos de produção têm vindo a subir de uma forma brutal. Nós suportámos algum tempo com algum esforço a nossa parte, mas chegámos a um ponto que não dá mais. Estamos no limite. Isto é o fim da linha”, declarou à Lusa António Araújo, produtor de leite há cerca de 15 anos, e um dos mais de cem produtores de leite do Norte de Portugal que se concentrou em frente da Agros, criada em 11 de abril de 1949 e que agrega mais de 40 cooperativas de leite nacional.

Dezenas de tratores estacionados junto à cooperativa de leite Agros serviam como uma espécie de escudo protetor aos produtores de leite portugueses que se concentraram em frente àquela estrutura para entregar aos responsáveis da Agros uma carta aberta, assinada pelos Produtores de leite Unidos, onde é pedido que seja pago à produção no “mínimo 38 cêntimos por litro de leite produzido” o preço médio praticado pelos países da União Europeia.

Patrícia Sousa, segunda da uma geração de produtores de leite com 150 animais, também quer que seja aumentado o preço do leite pago à produção, para que consigam sustentar os negócios da família.

“O meu pai sujeitou-se a comprar uma sociedade para nós [Patrícia e o irmão], continuarmos lá a trabalhar, somos jovens agricultores, e não vemos futuro nisto, caso isto continue assim”, lamenta a jovem agricultora, lembrando que Portugal é o “país da Europa mais mal pago em relação ao leite” e que as despesas que teve para a certificação do bem-estar do animal foram pagas sem qualquer ajuda da cooperativa.

Manuel Januário, produtor de leite há mais de 10 anos, tem 120 cabeças de gado, afirma que o preço do leite pago à produção em Portugal é uma “injustiça”.

Como é que um litro de leite pode custar menos do que um café”, questiona, afirmando que “ninguém sonha” os custos de produção que tem o leite.

Segundo Manuel Januário, o dinheiro que está a ser pago à produção nem sequer dá para pagar as rações, que “estão a aumentar todas as semanas”, nem para pagar o gasóleo.

“Estamos todos cheios de dívidas. A Agros não faz nada por nós (…) A ministra da Agricultura ninguém a vê, ninguém sabe dela. Não faz nada por nós, não faz nada pela agricultura, não faz nada pelo leite”, acusa o produtor Manuel Januário, pedindo que seja efetivamente aumentado o preço de leite pago à produção.

“Se esse aumento for feito nas grandes superfícies, as pessoas não sentem e para nós era muito bom. Agora estarem a dar-nos esmolas de um cêntimo não vale a pena. Senão isto vai tudo para o galheiro”, defende Manuel Araújo, acrescentando que está previsto fecharem até ao final de 2021 100 vacarias.

António Martins, da cooperativa de Barcelos que tem cerca de 100 funcionários, também criticou a indiferença da ministra da Agricultura ao setor do leite.

“Acho que a ministra da Agricultura demonstrou ao longo do seu percurso que nunca deu importância a um setor tão vital [leiteiro]. Porque as políticas agrícolas do país é que definem se realmente esta atividade é ou não é rentável. As ajudas que existiram, os projetos que ficaram na gaveta, a indefinição que existe a nível de futuro, tudo isso complica-nos e muito”.

António Martins, antes de entrar para uma reunião com responsáveis da Agros, disse aos jornalistas que se está a destruir uma atividade que “era e pode ser sustentável”.

“Sabemos que de há cinco anos para cá, a diminuição de explorações é drástica e isso é preocupante. É preocupante para mim como agricultor, porque a minha exploração pode acabar dentro de meses, como também é preocupante para as organizações que vivem da agricultura”, defendeu.

O leite está a ser pago ao produtor em média a 32 cêntimos por litro de leite, mas há promoções nos hipermercados a 39 cêntimos, explicou António Martins, referindo que desse valor tem de se feita a transformação, recolha e a margem dos hipermercados.

“Tudo isso é gozar um bocado com o nosso trabalho. A culpa pode não ser dos supermercados. A culpa se calhar foi do comodismo ao longo dos anos”, concluiu.

Os produtores de leite conseguiram entregar a carta aberta aos responsáveis da Agros.

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