Galp aponta paz como condição para investir em Moçambique

  • Lusa
  • 23 Novembro 2021

A Galp faz parte do consórcio de exploração de gás natural em Cabo Delgado. Andy Brown diz que só com "paz duradoura" pode continuar a investir. FMI defende o gás moçambicano é "razoavelmente limpo".

O presidente executivo da petrolífera Galp defendeu esta terça-feira, em Maputo, que a paz duradoura e sustentável em Cabo Delgado é fundamental para o investimento nos projetos de gás no norte de Moçambique e para o desenvolvimento do país.

A Galp realmente sente que precisamos de uma paz sustentável e duradoura, primeiro para ajudar as pessoas, que precisam de segurança e educação“, disse Andy Brown aos jornalistas. “Também precisamos disso [paz] para podermos investir biliões de dólares nos empreendimentos do gás”, acrescentou.

Aquele responsável falava após a assinatura de entendimentos com a organização não-governamental Helpo e a plataforma Makobo que preveem que a petrolífera portuguesa continue a apoiar as duas entidades em projetos humanitários em Cabo Delgado.

Andy Brown frisou que a manutenção da paz em Cabo Delgado, província que enfrenta uma insurgência armada desde 2017, é fundamental para o desenvolvimento daquela região, na medida em que os investimentos nos projetos de gás vão gerar empregos.

“É realmente importante que tenhamos uma paz duradoura e bem-estar. Se tivermos isto, eu acho que poderemos continuar a investir muito dinheiro, o que vai promover emprego e benefícios para Moçambique”, frisou.

Os memorandos assinados esta terça-feira entre a Galp, a Helpo e a Makobo preveem que a petrolífera continue a apoiar as duas entidades na assistência às populações deslocadas devido ao conflito em Cabo Delgado, com destaque para o apoio a projetos de educação e luta contra desnutrição de menores.

O valor do apoio às duas entidades não foi anunciado, mas segundo dados avançados pelo presidente da empresa, a petrolífera disponibilizou perto de um milhão de euros nos últimos três anos para projetos humanitários em Cabo Delgado.

A província de Cabo Delgado é rica em gás natural, mas aterrorizada há quatro anos por rebeldes armados, sendo alguns ataques reclamados pelo grupo extremista Estado Islâmico.

O conflito já provocou mais de 3.100 mortes, segundo o projeto de registo de conflitos ACLED, e mais de 817 mil deslocados, de acordo com as autoridades moçambicanas.

Desde julho, uma ofensiva das tropas governamentais com o apoio do Ruanda a que se juntou depois a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) permitiu aumentar a segurança, recuperando várias zonas onde havia presença de rebeldes, nomeadamente a vila de Mocímboa da Praia, que estava ocupada desde agosto de 2020.

A Galp, com 10%, faz parte do consórcio da área 4 de exploração de gás natural. O consórcio é liderado pela Mozambique Rovuma Venture (MRV), uma joint venture da Exxon Mobil, Eni e CNPC (China) que detém 70% de interesse participativo no contrato de concessão. Além da Galp, a KOGAS (Coreia do Sul) e a Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (Moçambique) detém também, cada uma, participações de 10%.

A exploração da área 4 arranca em 2022 com uma plataforma flutuante de liquefação de gás extraído a cerca de 50 quilómetros da costa de Cabo Delgado, enquanto o arranque do projeto mais vultuoso, para exploração das restantes reservas e liquefação em terra, continuam por anunciar.

É pouco sensato limitar projetos de gás em Moçambique, defende FMI

O representante do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Moçambique, Alexis Meyer-Cirkel, considerou esta terça-feira pouco sensato pensar em limitar o desenvolvimento dos projetos de gás do país.

“Não me parece muito sensato esse movimento” oposto àqueles investimentos, referiu Meyer-Cirkel, em resposta a questões do público, após uma apresentação feita na Internet sobre as perspetivas económicas regionais e da nação lusófona.

O representante do FMI reconheceu que “as alterações climáticas têm efeitos negativos óbvios”, mas a sua ligação ao consumo de combustíveis fósseis “é um problema para ser resolvido a nível global” e não à custa um ou outro país.

Moçambique é um país que emite muito pouco” carbono, proporcionalmente à população (30 milhões de habitantes) e em comparação com os restantes países no mundo, disse.

Por outro lado, “a transição para fontes renováveis vai levar algum tempo e essa transição só pode ser feita com fontes não renováveis, pelo menos por um certo tempo”.

Alexis Meyer-Cirkel considerou que “o gás de Moçambique é um gás razoavelmente limpo” comparado com outras fontes não renováveis.

“Acho que essa discussão, o impedimento de Moçambique desenvolver essa riqueza, penaliza desproporcionalmente um país que não tem contribuído” como outros “para a criação do problema e que é um país mais pobre”, sublinhou.

Moçambique começa a exportar a partir de 2022 gás natural liquefeito a partir da bacia do Rovuma, onde foram descobertas algumas das maiores reservas do mundo. O gás deverá desempenhar um papel fundamental na economia moçambicana na próxima década.

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