Como se explica a escassez de leite em pó infantil na maior economia do mundo

  • Joana Abrantes Gomes
  • 28 Maio 2022

O encerramento da maior fábrica de leite em pó nos EUA está a agravar uma escassez deste produto no país. Teve de ser a Casa Branca a tomar as rédeas da crise e a facilitar as importações.

Os Estados Unidos enfrentam há meses uma grave carência de leite em pó infantil. Começou por ter origem na pandemia de Covid-19, com os bloqueios nas cadeias de abastecimento e a falta de mão-de-obra, sendo exacerbada desde o início deste ano devido à retirada do mercado das marcas de leite em pó produzidas por uma das maiores fabricantes norte-americanas. Mas o que explica esta escassez na maior economia do mundo? E como é que a Casa Branca teve de tomar as rédeas para resolver esta crise?

Em meados de fevereiro, a Agência de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA, na sigla em inglês) encerrou uma fábrica da Abbott Laboratories no Michigan, após ter feito uma inspeção que concluiu que existia uma fraca cultura de segurança nas instalações. Desde água em equipamento chave a fugas no telhado e falta de instalações básicas de higiene, “os resultados da inspeção foram chocantes”, disse o diretor da FDA, Robert Califf.

A investigação à unidade de uma das maiores fabricantes norte-americanas de leite em pó, no Michigan, ocorreu na sequência da infeção de quatro bebés com a bactéria Cronobacter sakazakii, depois de terem consumido uma das fórmulas infantis produzidas pela Abbott. Dois deles acabaram por morrer, o que levou à retirada do leite em pó da empresa dos supermercados.

De acordo com a Abbott, não há provas conclusivas que liguem os seus produtos às infeções. Embora o organismo tenha sido encontrado em certas áreas da fábrica do Michigan, as amostras foram retiradas de áreas que “não entram em contacto direto” com a fórmula, disse Christopher Calamari, vice-presidente sénior da área da nutrição da Abbott.

Face à retirada de leite em pó e à interrupção na produção das fórmulas da Abbott, houve um açambarcamento do produto que esvaziou as prateleiras dos supermercados norte-americanos, criando uma situação de carência que se estendeu a todo o país. Mais de 21% das prateleiras das lojas que vendem leite em pó estão vazias desde 15 de maio, segundo a empresa de análise do mercado IRI.

Além disso, é de notar que, nos Estados Unidos, as mães veem-se obrigadas a dar leite em pó aos filhos bebés porque não têm direito a baixa de licença de maternidade. Na verdade, 60% das mães nos EUA são obrigadas a deixar de amamentar antes do previsto, apenas um em cada quatro bebés é amamentado exclusivamente até aos seis meses e menos de metade até aos três meses, segundo os dados de 2020 do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças.

No entanto, há pelo menos mais um motivo que pode explicar a atual escassez de leite em pó. Quatro empresas – Abbott, Perrigo, Nestlé USA e Mead Johnson Nutrition – controlam 90% do fornecimento de leite em pó dos EUA, pelo que a cadeia de abastecimento norte-americana é facilmente perturbada quando uma fábrica deixa de produzir.

Esta concentração deve-se, em grande parte, ao Programa Especial de Nutrição Suplementar para Mulheres, Bebés e Crianças (WIC, na sigla em inglês), que o Departamento de Agricultura dos EUA estima que seja responsável por mais de metade do mercado de leite em pó do país. De acordo com os dados mais recentes, citados pela Bloomberg, cerca de 45% dos bebés norte-americanos eram elegíveis para o WIC a partir de 2018, sendo que quase todos os que são elegíveis utilizam o programa.

A forma como está estruturado o WIC, criado em 1972, tem levado à criação de monopólios do setor do leite em pó na maioria dos Estados norte-americanos. A Abbott, por exemplo, tornou-se um fabricante crucial através deste programa, com a empresa a fornecer leite em pó para quase metade dos bebés cobertos pelo WIC a nível nacional.

Os riscos desta concentração tornaram-se de tal forma evidentes que, esta semana, a Comissão Federal do Comércio (FTC, na sigla em inglês) iniciou uma investigação sobre os fabricantes de leite em pó infantil para descobrir se as fusões de empresas contribuíram para a escassez nacional. Segundo a presidente da entidade, Lina Khan, será também investigada a possibilidade de concertação de preços ou outra situação de discriminação económica ilegal entre fabricantes e distribuidores, que possa ter limitado a disponibilidade de leite em pó para mercearias, farmácias e outras lojas.

Fornecimento estrangeiro, reforço da produção e uma lei de guerra para combater a escassez

Com o agravamento da crise no setor, a Casa Branca anunciou na semana passada o transporte em avião de dois carregamentos de leite em pó provenientes de fábricas no estrangeiro. A primeira carga, de quase 35 mil quilogramas de leite em pó, aterrou no passado domingo no Indiana, vinda da base aérea norte-americana em Ramstein, na Alemanha, e cobrirá cerca de 15% das necessidades imediatas, de acordo com o conselheiro económico presidencial Brian Deese.

“A nossa equipa está a trabalhar 24 horas por dia para levar fórmula infantil segura a todos os que dela necessitam”, escreveu Biden na sua conta no Twitter nesse dia, acrescentando que foi assegurado “um segundo carregamento para transportar leite em pó da Nestlé para a Pensilvânia”.

Para ajudar a aumentar a oferta, a Administração norte-americana invocou também a Lei de Produção de Defesa, aprovada em 1950 em plena Guerra Fria. Por enquanto, Biden deu o estatuto de prioridade para o fornecimento de leite em pó à Abbott e à Reckitt Benckiser, dona da Mead Johnson Nutrition.

Além disso, a Reckitt aumentou em 30% a sua produção de leite em pó. A dona da Mead Johnson, que nos EUA produz em três fábricas no Michigan, Indiana e Minnesota, concedeu “horas extraordinárias ilimitadas” para os trabalhadores fazerem turnos extra, disse à Reuters Robert Cleveland, vice-presidente sénior da Reckitt para a Nutrição na América do Norte e na Europa.

A Nestlé também intensificou a sua produção e está a levar para os Estados Unidos leite em pó proveniente dos Países Baixos e da Suíça. O Governo norte-americano permitirá ainda a importação de leite em pó de fabricantes estrangeiros que normalmente não vendem os seus produtos nos EUA.

Quanto à fábrica da Abbott no Michigan, a fabricante norte-americana anunciou no dia 16 de maio que tinha chegado a um acordo com a FDA para retomar a produção de leite em pó nessa unidade, a partir de 4 de junho, no que constitui igualmente um passo importante para resolver a escassez nacional.

Já esta quinta-feira, o diretor da FDA disse que demorará até julho para que as prateleiras dos supermercados do país estejam novamente preenchidas com leite em pó. “Vai ser uma melhoria gradual de provavelmente cerca de dois meses até às prateleiras estarem novamente cheias”, afirmou Robert Califf perante a Comissão de Saúde, Educação, Trabalho e Pensões do Senado dos EUA, citado pela CNBC.

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