“Não há saída para o protecionismo”. Da China ao Canadá, potências mundiais reagem às tarifas dos EUA
Da União Europeia à China, passando pelo Reino Unido e pela Austrália, sucedem-se as reações às novas taxas anunciadas por Trump, entre novos apelos à negociação e ao recuo por parte da Casa Branca.
Da União Europeia à China, passando pelo Reino Unido e pela Austrália, vários países e blocos políticos já reagiram em tom crítico às novas taxas alfandegárias anunciadas pelo Presidente Donald Trump, deixando novos apelos à negociação e ao recuo por parte da Administração norte-americana.
Logo de madrugada, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, avisou que o bloco está “pronto para responder” à imposição de tarifas por parte dos Estados Unidos e está a trabalhar em novas medidas de retaliação.
A China instou os EUA a “cancelarem imediatamente as taxas unilaterais e a resolverem adequadamente as disputas com os seus parceiros comerciais através de um diálogo justo”. Em comunicado, o Ministério do Comércio chinês frisa que esta ofensiva protecionista da Casa Branca, sem precedentes desde os anos 1930, “põe em risco o desenvolvimento económico global” e ameaça as cadeias de abastecimento internacionais, afetando também os interesses norte-americanos.
Pequim opõe-se “de forma firme” às novas taxas alfandegárias, que são particularmente pesadas para os seus produtos, e prometeu lutar para defender os “direitos e interesses” da China. “Não há vencedores numa guerra comercial e não há saída para o protecionismo”, declarou o ministério.
As taxas de 34% impostas pelos Estados Unidos sobre as importações da China “não respeitam as regras do comércio internacional e prejudicam gravemente os direitos e interesses das partes envolvidas”, declarou na mesma nota.
Canadá vai lutar contra tarifas sobre aço, alumínio e automóveis
O primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, garantiu logo na quarta-feira que o seu país vai lutar contra as tarifas nos setores do aço, alumínio e automóvel anunciadas por Trump e que terão impacto direto em “milhões de canadianos”, isto apesar de quererem preservar “elementos importantes” da relação bilateral.
O governante garantiu que o Canadá vai “combater estas tarifas com contramedidas”. “Vamos proteger os nossos trabalhadores e construir a economia mais forte do G7”, frisou.
O Canadá e o México, os dois países que juntamente com os EUA formam o acordo de comércio livre USMCA, evitaram a nova vaga de tarifas. No entanto, as tarifas de 25% que Trump impôs anteriormente sobre o aço, o alumínio e os automóveis canadianos continuam em vigor.
A Administração Trump justificou estes impostos citando o fluxo de migrantes e fentanil do Canadá, embora as quantidades em ambos os casos sejam quase insignificantes. Carney disse que as tarifas globais anunciadas na quarta-feira são “uma série de medidas que vão mudar fundamentalmente o sistema de comércio internacional”.
O líder canadiano acrescentou que a manutenção das “tarifas sobre o fentanil” no Canadá e no México terá um impacto negativo na economia dos EUA, o que, por sua vez, afetará a sociedade canadiana.
Austrália fala em tarifas “totalmente injustificadas”
Já o primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, defendeu serem “totalmente injustificadas” as tarifas anunciadas pelos Estados Unidos sobre importações dos principais parceiros comerciais, considerando-as negativas para as relações bilaterais.
“Estas tarifas não são inesperadas, mas sejamos claros: são totalmente injustificadas”, afirmou Albanese numa conferência de imprensa após o anúncio das tarifas de 10%. “Isto terá um impacto na perceção que os australianos têm desta relação”, acrescentou.
Reino Unido descarta retaliação e procura acordo
Em Londres, o secretário britânico do Comércio, Jonathan Reynolds, rejeitou retaliar imediatamente, afirmando pretender um acordo. “Como os Estados Unidos são o nosso aliado mais próximo, a nossa abordagem é mantermo-nos calmos e empenhados em chegar a este acordo, que esperamos que mitigue o impacto do que foi anunciado”, afirmou.
O Reino Unido foi relativamente poupado por Donald Trump, com tarifas de 10%, o nível mínimo anunciado. Contudo, Reynolds destacou o impacto potencial sobre o setor automóvel. “A nossa principal preocupação é o impacto no setor automóvel. Pelo que entendo, os 10% de tarifas não se somam aos 25% já impostos sobre os carros”, referiu o governante britânico.
Meloni fala numa “má medida” que enfraquece o Ocidente
Uma das líderes europeias mais próximas de Trump, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, sublinhou que as novas tarifas dos EUA sobre as importações da União Europeia (UE) são uma “má jogada” que apenas enfraquece o Ocidente.
“A introdução de tarifas por parte dos Estados Unidos contra a UE é uma medida que considero errada e que não convém a nenhum dos lados. Faremos tudo o que for possível para chegar a um acordo com os Estados Unidos para evitar uma guerra comercial que inevitavelmente enfraqueceria o Ocidente em benefício de outros atores globais”, destacou, citada num comunicado.
Irlanda pede “resposta proporcional”
Também o primeiro-ministro irlandês, Michael Martin, “lamentou profundamente” as tarifas de 20% impostas à UE pelos Estados Unidos, pedindo aos 27 Estados-membros da UE que respondam de forma proporcional.
“Qualquer ação deve ser proporcional e visar defender os interesses das nossas empresas, dos nossos trabalhadores e dos nossos cidadãos”, destacou, citado num comunicado.
A Irlanda, que alberga as sedes europeias de grandes empresas farmacêuticas e tecnológicas norte-americanas, tem o maior excedente com os Estados Unidos entre os membros da UE.
França fala em “catástrofe para o mundo económico
O primeiro-ministro francês, François Bayrou, referiu já esta manhã que o aumento dos direitos aduaneiros anunciado pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, representa uma dificuldade para a Europa e uma catástrofe para os Estados Unidos.
“Esta decisão é uma catástrofe para o mundo económico. É uma dificuldade imensa para a Europa. Penso que é também uma catástrofe para os Estados Unidos e para os cidadãos norte-americanos”, declarou o chefe do governo de França à margem de uma conferência no Senado, em Paris.
Espanha mobiliza 14.100 milhões para “mitigar a guerra comercial”
Em Espanha, o Executivo anunciou o recurso aos instrumentos comerciais e financeiros de que o Estado dispõe para implementar uma rede de proteção imediata e uma estratégia de relançamento dos setores afetados pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos. “Consideramos a decisão dos EUA injusta e injustificada. Se não houver margem para negociação, teremos de agir”, afirmou Carlos Cuerpo, ministro da Economia de Espanha.
Entretanto, o primeiro-ministro espanhol já especificou o plano de contingência de Madrid. Pedro Sánchez garante que já existe um pacote de “contra-tarifas” para responder aos EUA, mas, para já, a Espanha “responderá antecipadamente” com um Plano de Resposta e Relançamento Comercial de 14,1 mil milhões de euros para “mitigar a guerra comercial” com um “escudo para proteger” as empresas e os trabalhadores. Deste montante, 7,4 mil milhões correspondem a novos financiamentos e outros 6 mil milhões provêm de outros instrumentos.
Os fundos serão articulados em dois pilares: proteção das empresas e do emprego. “Vamos disponibilizar duas linhas de garantias com 6 mil milhões de euros para responder às suas necessidades. Disponibilizaremos também um fundo de apoio de 200 milhões de euros para a criação de novas fábricas ou a sua modernização. Vamos pôr em prática o novo plano Moves, que servirá para dinamizar o setor da cogeração elétrica”, disse, citado pelo jornal El Español.
Fontes do Executivo espanhol disseram à agência de notícias EFE que o bloco europeu dispõe das ferramentas necessárias para proteger os interesses dos cidadãos e empresas, caso não haja espaço para negociação com Washington.
Alemanha, Polónia e Dinamarca
Berlim também já declarou apoio à União Europeia na procura de uma solução negociada com Washington sobre as novas tarifas anunciadas por Donald Trump, reiterando que a Europa está pronta para retaliar. O vice-chanceler alemão, Robert Habeck, alertou que os novos impostos norte-americanos podem arrastar países para a recessão e causar danos consideráveis em todo o mundo.
Na Polónia, o primeiro-ministro, Donald Tusk, afirmou que são necessárias decisões adequadas. Numa mensagem difundida através das redes sociais, Tusk não especificou o tipo de medidas.
A Dinamarca criticou também as novas tarifas. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Lars Lokke Rasmussen, disse que a Europa deve permanecer unida e preparar respostas “sólidas” e proporcionais.
Vice-presidente do BCE pede prudência
A incerteza gerada pelas tarifas de Trump também levou o Banco Central Europeu (BCE) a adotar um tom cauteloso. Luis de Guindos, vice-presidente do BCE, esta manhã no decorrer do Fórum dos Diretores Executivos da Federação Internacional de Contabilistas afirmou que “esta incerteza significa que precisamos de ser extremamente prudentes ao determinar a postura apropriada em termos de política monetária”.
A prudência parece ser agora palavra de ordem entre os bancos centrais e investidores. “Uma escalada das tensões comerciais poderia levar à depreciação do euro e ao aumento dos custos das importações, enquanto as despesas muito necessárias com a defesa e as infra-estruturas poderiam aumentar a inflação através da procura agregada”, referiu Guindos.
O responsável do BCE alertou também para o facto de as tensões geopolíticas poderem também conduzir a uma inflação mais elevada devido a perturbações no comércio, ao aumento dos preços das matérias-primas e dos custos da energia. “Simultaneamente, uma menor procura de exportações da área do euro e um menor crescimento resultantes do impacto de direitos aduaneiros mais elevados ou de tensões geopolíticas podem constituir uma ameaça para a economia, deprimir a procura e fazer descer a inflação”, disse.
Secretário das Finanças dos EUA aconselha países a não retaliarem
A partir de Washington, o secretário das Finanças dos EUA, Scott Bessent, aconselhou todos os países “a não responderem” às taxas alfandegárias anunciadas na quarta-feira por Donald Trump, sob pena de “escalada” da situação.
“Acalmem-se. Encaixem o golpe. Esperem para ver como a situação evolui. Se ripostarem, vai haver uma escalada”, assegurou Bessent.
Trump apresentou a medida sobretudo como um indutor de investimento estrangeiro em fábricas nos Estados Unidos e de crescimento económico, perdido para outros países nas últimas décadas.
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