Produtores portugueses indisponíveis para exportar ovos para os EUA
Embaixada americana já procurou ovos em Portugal, mas os produtores não têm disponibilidade. Gripe das aves nos EUA é principal "culpada" pela escalada de preços.
Os EUA estão a braços com a gripe das aves e a embaixada americana já entrou em contacto com os produtores portugueses de ovos na esperança de algum aprovisionamento. No entanto, Portugal não tem disponibilidade para abastecer o mercado norte-americano, apesar de também já ter visto os preços dispararem.
Tanto a Companhia Avícola do Centro como a Associação Nacional dos Avicultores Produtores de Ovos (Anapo) confirmam ao ECO que já receberam pedidos para enviar ovos para os EUA, apesar de Portugal “não ter disponibilidade para exportar“. “Há compromissos assumidos com a distribuição nacional”, explica Paulo Mota, líder desta associação que representa o setor no país.
“Já recebemos contactos diretos de uma empresa americana e indiretos através da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), por via da embaixada americana”, assume o administrador da Companhia Avícola do Centro, Manuel Sobreiro. O responsável acrescenta também que os produtores portugueses “não têm disponibilidade”, tendo em conta “os compromissos que têm para abastecer o mercado interno e o espanhol”.
Já recebemos contactos diretos de uma empresa americana e indiretos através da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, por via da embaixada americana.
O administrador da Companhia Avícola do Centro detalha que em 2015 exportou 6.500.000 dúzias de ovos para os EUA, altura em que se verificou um grande surto de gripe aviária, mas, depois desse ano, tal não voltou a acontecer. “Nunca mais nos foi solicitado, até porque, em condições normais, é um dos mercados ao nível dos ovos com mais protecionismo“, afiança Manuel Sobreiro.
Localizada na Bidoeira de Cima, em Leiria, a Companhia Avícola do Centro tem um efetivo de 3,4 milhões de galinhas poedeiras, distribuídas por 65 explorações em todo o território nacional. O grupo classifica e embala anualmente mais de 900 milhões de ovos, emprega 680 pessoas (590 em Portugal e 90 em Espanha) e fechou 2024 com um volume de negócios consolidado de 240 milhões de euros.
A Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) disse que a capacidade produtiva do país é de 104%, o que significa que Portugal tem uma pequena margem para exportação além de abastecer a totalidade do consumo interno.
Alfredo Martins, diretor geral da Zêzerovo, recorda ao ECO que os “graves problemas de gripe aviária não são um problema exclusivo dos EUA” e que “a Europa também teve casos de gripe das aves“. Apesar de se dedicar apenas ao mercado nacional, a produtora, que tem dois milhões de galinhas poedeiras, que dão 550 milhões de ovos por ano, explica que a “subida de preços” que se tem verificado “é o mercado a funcionar com base na oferta e procura”. O porta-voz recorda que “existem anos em sentido contrário “, em que “os preços descem muito e abaixo do custo de produção”.
A subida de preços é o mercado a funcionar com base na oferta e procura.
O diretor geral da Zêzerovo justifica a subida dos preços pelo “aumento da procura, já que o ovo é o segundo alimento mais rico nutricionalmente, e ainda assim a preço mais acessível”. O líder da Anapo, a associação nacional do setor, estima que cada português consuma, em média, cerca de 200 ovos por ano. Paulo Mota faz uma analogia e diz que, pelo “preço de um café, conseguimos fazer uma refeição de ovos, por exemplo uma omelete”.
Ainda assim, o responsável da Zêzerovo está convicto que “o preço deve estabilizar” e que “não são esperadas novas subidas”.
Gripe das aves nos EUA é a principal culpada da subida do preço dos ovos em Portugal
Mesmo assim, o presidente da Anapo, Paulo Mota, confirma ao ECO que a crise aviária nos EUA é um dos principais culpados pela subida do preço dos ovos em Portugal, aliada ao “aumento dos custos de produção nos últimos anos” e ao “aumento do consumo”. “Estes fatores todos juntos acabam por refletir-se no bolso dos consumidores” por via do custo dos ovos, afirma Paulo Mota.
Dados da Deco Proteste mostram que o preço da dúzia de ovos em Portugal registou um aumento de 27% desde o início deste ano, sendo o produto com maior variação de preço. Feitas as contas, se a 1 de janeiro custava 1,61 euros, no início de abril o preço era de 2,05 euros, e nos 12 meses até abril de 2025, o aumento foi de 32%.
Igualmente, desde o final de 2022, o preço dos ovos nos EUA tem vindo a aumentar de forma constante, impulsionado pelo surto de gripe aviária que já levou ao abate de mais de 100 milhões de galinhas poedeiras, sendo que só este ano mais de 30 milhões de galinhas foram mortas.
Devido à escassez de ovos no mercado norte-americano, os EUA têm pedido mais exportações a países como o Brasil, mas também à Europa, numa altura em Trump anunciou tarifas recíprocas para “países em todo o mundo” e os produtos da UE vão pagar 20%.
Este surto fez com que os ovos atingissem preços recorde. Dados do Departamento de Agricultura dos EUA mostram que o custo da dúzia de ovos aumentou 63% no último ano. E, no início do ano, uma dúzia de ovos custava cinco dólares, um preço recorde, sendo que em alguma das grandes cidades o preço chegou a tocar nos dez dólares por dúzia, avança a Reuters.
No início de março, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acusou Joe Biden, de deixar o país numa “catástrofe económica e um pesadelo de inflação”, incluindo com falta de ovos em muitos supermercados ou com preços muito elevados. “Joe Biden deixou descontrolar o preço dos ovos e estamos a trabalhar arduamente para reduzi-lo novamente”, disse Trump.
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