Da aeronáutica à banca, quais são os grandes grupos franceses que dão cartas em Portugal

Numa altura em que França enfrenta (nova) crise política, o ECO analisa o papel do país na economia portuguesa: 3º maior investidor direto, forte em setores chave e empregador de mais de 100 mil.

A compra do Novobanco pelo BPCE por 6,4 mil milhões veio reforçar a presença francesa em mais um setor em Portugal, país cujo investimento assume um peso relevante e tem contribuído para aumentar o emprego no país. Da aeronáutica ao automóvel e à distribuição – e, agora, também à banca –, são muitos os grandes grupos franceses que investem em Portugal.

França, que no próximo dia 8 de setembro debate e vota mais uma moção de censura que poderá levar à queda do Governo, é o terceiro maior investidor direto estrangeiro e o maior empregador estrangeiro no país, com mais de 100 mil empregos. É ainda um dos principais parceiros comerciais.

Segundo os dados mais recentes publicados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), o mercado francês superou a alemão como o segundo maior destino das exportações portuguesas no segundo trimestre do ano. Em termos de importações, França é o terceiro maior mercado que fornece Portugal. Números que confirmam a relevância das relações com a segunda maior economia do Euro, que tem em Portugal um dos principais destinos para os seus investimentos.

A presença francesa é muito variada e bastante antiga, já que vários grupos estão instalados em Portugal desde o início do século XX. França está presente em todas as áreas, serviços, comércio e indústria“, explica Laurent Marionnet, diretor-geral da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Francesa (CCILF) – organismo de apoio ao comércio entre França e Portugal, em declarações ao ECO.

Com uma presença forte no país, onde já detinha o centro de desenvolvimento tecnológico da Natixis, localizado no Porto, o grupo francês BPCE conseguiu bater a concorrência espanhola do Caixabank (dono do BPI) e passar a controlar o 4.º maior banco a operar no mercado português, com cerca de 1,7 milhões de clientes. Com a aquisição do Novobanco, o setor bancário, até aqui dominado pela Caixa Geral de Depósitos, BCP e bancos controlados por capitais espanhóis – Santander, BPI, Bankinter – passa a ter um novo player forte de nacionalidade gaulesa.

A presença francesa é muito variada e bastante antiga, já que vários grupos estão instalados em Portugal desde o início do século XX. França está presentes em todas as áreas, serviços, comércio e indústria.

Laurent Marionnet

Diretor-geral da CCILF

A entrada na banca, onde não tinha um papel de peso, vem reforçar a importância dos grupos franceses no setor financeiro. Além do banco de investimento Natixis, com mais de 2.000 colaboradores, França marca presença no setor com o BNP Paribas, que tem vindo a crescer no país e a reforçar a sua presença local com mais de 10.000 pessoas, segundo dados da CCILF, ou o centro tecnológico da Euronext, no Porto.

Apesar de a bolsa portuguesa ter vindo a perder dinamismo, Portugal é estratégico para o grupo, com o centro tecnológico do Porto a assumir-se como uma das grandes apostas, com o grupo a continuar a expandir a sua atividade em operações e em número de pessoas no Porto, onde detém o centro tecnológico e a antiga Interbolsa. A companhia emprega cerca de 350 pessoas na Invicta e vai mudar de instalações para o centro da cidade para acomodar o alargamento previsto, projetando contratar mais duas centenas de colaboradores nos próximos três anos.

Reportagem na unidade de produção da Stellantis em Mangualde - 11ABR25
Unidade de produção da Stellantis em Mangualde deverá atingir um novo recorde de produção em 2025.Hugo Amaral/ECO

O setor automóvel é outro onde os grupos franceses dão cartas. A indústria também tem uma presença muito forte nomeadamente no setor automóvel com a presença da fábrica Stellantis em Mangualde, da Horse (Renault Cacia) e de dezenas de fabricantes de componentes automóvel (Forvia, Sarreliber, STE Plastic, grupo GMD, etc.), sintetiza Laurent Marionnet.

Em Mangualde, a primeira fábrica em Portugal a produzir automóveis ligeiros de passageiros com motor elétrico, a unidade da gigante automóvel, que controla marcas como Citroën, Fiat, Opel e Peugeot, deverá produzir, este ano, um recorde de 92 mil carros.

O setor das telecomunicações é outro que conta com liderança francesa. A Altice, dona da Meo, com cerca de 5.000 pessoas, lidera a quota de mercado no setor das telecomunicações nacional.

Reportagem na fábrica da Airbus Atlantic em Santo Tirso - 20MAR24
Fábrica da Airbus Atlantic em Santo Tirso, onde a empresa produz painéis para a família A320 e para a fuselagem frontal do A350 XWB, assim como subconjuntos para a família A320.Hugo Amaral/ECO

A gigante da aeronáutica Airbus é mais uma das empresas que está reforçar a aposta no país, onde conta já com uma unidade industrial de Santo Tirso, que produz partes de aviões para o grupo, e centros de serviços partilhados em Lisboa e Coimbra. Com um plano de contratações anual superior a uma centena até 2026, a Airbus Atlantic está a expandir a superfície industrial em cerca de 30% para dar resposta aos pedidos da Airbus e continua a reforçar equipas.

Ainda no setor, a Vinci, com a concessão dos dez aeroportos em Portugal, é outra presença incontornável no mercado nacional.

No setor da grande distribuição são também muitas as empresas gaulesas, incluindo marcas como a Decathlon, Auchan, Intermarché, Leroy Merlin, que empregam vários milhares de colaboradores.

Com mais de 600 empregados em Portugal, a Engie, no setor das energias renováveis, é outra das empresas francesas que continuam a apostar em Portugal, colocando o país entre os 20 mercados globais prioritários para investir. Há 40 anos no país, dispõe para os próximos três anos de um envelope de 100 milhões de euros para aplicar em Portugal.

O domínio francês estende-se a outros setores de atividade: “na marroquinaria com a Atepeli, na eletrónica com a Altrics e a Somfy, na relojoaria de luxo através do cluster instalado no Fundão, na metalomecânica com as torneiras Presto, os portões Cadiou, as máquinas agrícolas Pellenc”, sintetiza Laurent Marionnet. No grupo hoteleiro (Accor/Ibis/Mercure, B&B Hôtels) e nos serviços de consultoria (Aubay, Capgemini, Alten), França também surge com forte representação no país.

Novo investimento continua a fluir para Portugal

O stock de Investimento Direto Estrangeiro (IDE) francês em Portugal representa atualmente cerca de 16,6 mil milhões de euros, de acordo com os dados referentes ao primeiro trimestre de 2025). Apesar de o crescimento do investimento ter vindo a desacelerar — está abaixo dos 17 mil milhões dos últimos anos –, as empresas gaulesas continuam a destinar grandes investimentos para o país, como foi o caso da recente aquisição do Novobanco.

Portugal continua a ser um mercado atrativo para as empresas francesas, tanto para o investimento produtivo como para o dos serviços“, refere Laurent Marionnet. “Na área industrial, os investimentos beneficiam duplamente de uma mão-de-obra de grande qualidade e de um ecossistema de empresas potenciais parceiras muito interessante, em setores tão variados como a metalomecânica, a madeira, o plástico ou o têxtil”, justifica o diretor-geral da CCILF.

O responsável nota ainda que, “em matéria de serviços, a existência de formados que dominam línguas estrangeiras como o inglês, o francês ou o espanhol permite atrair centros de competência em áreas como a contabilidade, gestão, ou informática, com um custo/benefício grande para as empresas”.

Portugal continua a ser um mercado atrativo para as empresas francesas, tanto para o investimento produtivo como para o dos serviços. Na área industrial, os investimentos beneficiam duplamente de uma mão-de-obra de grande qualidade e de um ecossistema de empresas potenciais parceiras muito interessante, em setores tão variados como a metalomecânica, a madeira, o plástico ou o têxtil.

Laurent Marionnet

Diretor-geral da CCILF

A título de exemplo, Marionnet destaca que “a Alten acabou de criar a sua filial em Matosinhos nos setor do Shared Services, as empresas Catana e Beneteau, ambas fabricantes de barcos de luxo, abriram muito recentemente as suas fábricas no país, a Eiffage acaba de inaugurar o primeiro Hotel B&B no Porto”

“Na CCILF estamos atentos não só aos novos investimentos como ao crescimento das implantações já presentes no país, para garantir a sua viabilidade e estabilidade em Portugal nos próximos anos“, remata o diretor-geral da câmara.

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