CEO da Cloudflare preocupado com impacto da IA no jornalismo: conteúdos “têm de ser pagos”
O executivo norte-americano diz estar preocupado com a utilização gratuita de conteúdos noticiosos pela IA e defende a criação de regras e normas claras para o seu uso.
Matthew Prince, CEO da Cloudflare, mostrou-se esta quinta-feira preocupado com a utilização de conteúdo jornalístico para treinar modelos de inteligência artificial (IA), tendo alertado na Web Summit para o impacto que os novos browsers com IA poderão vir a ter nos modelos de negócio dos meios de comunicação social.
“Imaginem que são uma empresa de media com publicidade nas páginas. Alguns navegadores com IA já estão a agir em nome do utilizador e a visitar sites como os do New York Times e Wall Street Journal, lendo todos os artigos exclusivos do dia. Depois, reutilizam essa informação não só para o utilizador que originou essa pesquisa, mas também para muitos outros utilizadores.”, alertou o CEO da Cloudflare — empresa norte-americana com instalações em Lisboa e que presta, entre outros, serviços de resiliência de internet.
Segundo Prince, esta prática “mina completamente o modelo de negócio do jornalismo”, ao retirar às publicações digitais a sua principal fonte de sustentabilidade — o acesso pago e o tráfego direto dos leitores. “Os criadores de conteúdo têm de ser pagos pelo seu trabalho. Por isso, é essencial criar um código de conduta, um conjunto de regras claras para que quem as respeita possa operar facilmente, e quem não as cumpre encontre obstáculos”, defendeu.
O executivo norte-americano recordou que a indústria tecnológica passou por várias transformações estruturais ao longo dos anos: primeiro a navegação e o acesso à informação nos computadores, depois o consumo de notícias através das redes sociais e, mais recentemente, nos smartphones, que hoje são “a plataforma dominante”. Agora, sublinhou o gestor, “a inteligência artificial é a próxima mudança: no futuro, a forma como interagimos com a informação ou fazemos comércio vai ser mediada por um agente pessoal inteligente, que atuará em nosso nome”.
Quanto ao formato que estes agentes irão assumir, se integrados nos navegadores ou de outros modos, “veremos”, disse, acrescentando que, independentemente do modelo, é fundamental “definir desde já as regras e normas dessa nova fase”.
Matthew Prince, que noutra ocasião nesta Web Summit falou da possibilidade de a internet passar a ser dominada por um pequeno grupo de empresas, voltou a abordar o tema neste painel: “Podemos só vir a ter cinco, três, ou mesmo apenas uma empresa. Será mau se o jornalismo desaparecer e se as pequenas empresas morrerem”, afirmou, defendendo a necessidade de construir ferramentas que conduzam a um futuro saudável para toda a web.
“Há uma tentação de acreditar que um agente de IA será uma varinha mágica”
No mesmo painel de debate participou Laura Chambers, CEO da Mozilla (dona do browser Firefox), que destacou que o futuro da web passa por oferecer experiências diferenciadas a públicos distintos.
Segundo a executiva, cerca de 12% dos utilizadores nos EUA afirmam que não querem usar inteligência artificial, sendo necessário respeitar essa vontade. “Quando introduzimos funcionalidades de IA no Firefox, a Mozilla garante que a utilização seja sempre opcional, permitindo ao utilizador escolher uma experiência clássica, se preferir”.

A responsável australiana sublinhou, no entanto, que este cenário suscita um equilíbrio delicado entre experiência do utilizador, conveniência e privacidade.
“Há uma tentação de acreditar que um agente de IA será uma espécie de varinha mágica: fazes uma pergunta e obténs uma resposta perfeita. Mas as melhores experiências são aquelas que respeitam a escolha do utilizador — permitindo verificar, explorar e interagir”, afirmou.
Laura Chambers alerta para os riscos de respostas únicas e automáticas e defende que o “design de experiência” na web deve ser simples, mas garantindo liberdade de escolha e privacidade. “A IA precisa de dados, sim, mas o utilizador deve ter controlo. Fazemos o máximo de processamento local possível, recolhemos apenas o essencial e tratamos os dados de forma cuidadosa”, afirmou Laura Chambers.
Finalmente, a executiva reforçou que é possível construir soluções de IA respeitando a privacidade, embora reconheça que nem sempre os utilizadores optem pela alternativa mais protegida.
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