Que futuro para a CNN nos EUA?
Num momento em que a compra da Warner pela Paramount está suspensa, aguardando novidades do julgamento marcado para março, o futuro da CNN está em aberto.
A Paramount Skydance revelou que está a manter “todas as opções em aberto” para resolver o caso judicial em matéria de concorrência que congelou a aquisição da Warner Bros. Discovery. Com o julgamento marcado para março de 2027, a empresa de David Ellison, filho do cofundador da Oracle, está a tentar evitar o pagamento da taxa de atraso previsto no acordo de compra da Warner.
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O tempo vai começar a contar em outubro e poderá sair caro à Paramount. A taxa paga aos acionistas está fixada em 0,25 dólares por ação por cada trimestre de atraso, o que equivale a sete milhões de dólares (cerca de 6,04 milhões de euros) por dia de atraso a partir de 1 de outubro, de acordo com a imprensa internacional.
A empresa exigiu recentemente uma caução de 1,88 mil milhões de dólares (cerca de 1,6 mil milhões de euros) aos 12 estados norte-americanos, que contestam a aquisição em tribunal, para cobrir esses custos. A Paramount salientou que, quando o julgamento terminar e as alegações finais forem submetidas em abril, já terá pago aos acionistas da Warner Bros. um valor não recuperável de 1,3 mil milhões de dólares em ticking fees.
O procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, que lidera a coligação dos estados, considerou que foi uma decisão das duas empresas de “voluntariamente incluir uma dispendiosa taxa de mora como cláusula”. A juíza responsável pelo processo só decidirá sobre esta caução em setembro.
Surgiram também notícias de que a Paramount pondera mudar a sede para fora da Califórnia, a partir de outubro, caso não chegue a acordo com Rob Bonta. O procurador reagiu classificando a ameaça como “mais uma tentativa de chantagear o estado”.
Durante uma conferência do jornal Politico, o diretor jurídico da Paramount, Makan Delrahim, sugeriu que a empresa está disposta a negociar. “O objetivo é ficar aqui”, na Califórnia, diz, citado pela publicação especializada Deadline. Mas, ao mesmo tempo, “é preciso olhar para o ambiente de negócios e ver o que é melhor não só para a comunidade e para a empresa, mas também, em última análise, ir para onde somos bem-vindos“.
A CNN está (ou não) à venda?
Ao ser questionado sobre se a venda da CNN poderia fazer parte das negociações para desbloquear o negócio de 110 mil milhões de dólares, Makan Delrahim limitou-se a responder que “tudo está em cima da mesa”. Esta declaração desencadeou uma onda de especulação internacional sobre a venda.
Numa publicação na rede social X, Brian Stelter, analista sénior de media da CNN, informou que, de acordo com uma fonte da Paramount, “há ‘zero verdade’ na ideia de que o CEO da Paramount, David Ellison, esteja a preparar a venda da CNN”. “A CNN é fulcral para Ellison”, declarou a mesma fonte.
“A expressão de Delrahim parece ter sido apenas uma forma genérica de pressionar por negociações com os estados, e não um sinal de ‘vende-se'”, explicou o analista. A informação tinha sido avançada pelo correspondente sénior da Puck, Dylan Byers, e também confirmada pelo The Wrap junto de uma fonte.
O responsável citou ainda o editor sénior do The Hollywood Reporter que, na mesma rede social, argumentou que “a Paramount precisa muito mais da CNN do que dos outros canais a cabo da Warner“, como a MTV, destacando a sua rentabilidade e as potenciais sinergias estratégicas com a CBS News.
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Um conselho editorial como solução?
De acordo com o The Wall Street Journal, antes mesmo da ação judicial travada pelos procuradores-gerais estaduais, a Paramount já discutia internamente a criação de um conselho editorial independente para a CNN. “Estamos sempre abertos a melhorias internas no que diz respeito à integridade jornalística”, declarou a empresa em comunicado.
O próprio CEO, David Ellison, dedicou cinco parágrafos ao canal de notícias, num artigo de opinião assinado no The New York Times, onde afirmava acreditar que a batalha judicial em curso não era sobre quota de mercado.
“Acredito que, por baixo de todas as petições judiciais e comunicados de imprensa, se esconde uma preocupação mais simples: as notícias. A questão é saber se sou de confiança para gerir a CNN da Warner. Têm feito especulações sobre a minha orientação política, as minhas lealdades e as minhas intenções”, apontou.

“No que diz respeito às nossas operações de informação, não aspiro a liderar estas empresas para moldar as suas redações às minhas opiniões. Acredito que as notícias devem ser baseadas em factos e na verdade“, disse o responsável pela Paramount.
“Grandes organizações de notícias como a CNN e a CBS News existem para relatar a informação de forma imparcial. Isso exige redações que reflitam o mundo inteiro, e não apenas um dos lados. E exige independência. Os nossos jornalistas continuarão a responder perante os factos e perante todas as pessoas que servem — e não perante qualquer partido ou causa”, argumentava.
Apesar destas declarações, o procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, negou que a ação judicial tivesse como objetivo a questão editorial da CNN, garantindo que a coligação de estados continua focada no impacto anticoncorrencial nos cinemas e na televisão por cabo.
“Uma alienação da CNN, uma cisão (spinoff) da CNN, um remédio estrutural que se aplique apenas à CNN nunca, jamais, em tempo algum resolverá este caso. Não é isso que procuramos. Não é isso que nos interessa. Não responde às nossas preocupações”, declarou em entrevista à CNN.
Tensão interna e a “sombra” de Donald Trump
O CEO do canal, Mark Thompson, admitiu recentemente aos funcionários que este é um “período difícil” e que sente “a tensão no ar”, relata a New York Magazine. As preocupações fundamentam-se no histórico recente da Paramount sob a liderança dos Ellison.
Em 2025, a Paramount aceitou pagar 16 milhões de dólares (cerca de 13,6 milhões de euros) para encerrar um processo movido por Trump contra o programa 60 Minutes da CBS News. Uns meses depois, a compra do meio digital Free Press por 150 milhões de dólares levou à nomeação da sua fundadora, Bari Weiss, como editora-chefe da CBS News. A decisão tem provocado a saída de figuras históricas como Scott Pelley, que foi despedido e que, posteriormente, acusou abertamente a direção de interferência editorial na cobertura de matérias sensíveis.
O The New York Times noticiou que David Ellison pondera colocar Bari Weiss também a liderar a CNN, com a hipótese de partilhar a liderança com outro responsável. A hipótese terá levado Anderson Cooper, uma das principais figuras do canal, a já ter confidenciado a colegas que não queria trabalhar sob a alçada de Weiss, e Mark Thompson terá recusado partilhar a supervisão do canal com outro executivo.
Adicionalmente, figuras próximas da Administração de Donald Trump — incluindo o secretário da Defesa, Pete Hegseth, e o presidente da FCC, Brendan Carr — têm celebrado publicamente a perspetiva de Ellison assumir a CNN.
De acordo com o The Wall Street Journal, Larry Ellison, pai do CEO e cofundador da Oracle, terá sugerido a Trump — enquanto decorriam as negociações de compra — que a fusão permitiria reestruturar o canal de notícias. A Paramount desmentiu que os Ellison tenham assumido “compromissos” com membros do Governo “relativamente ao futuro da CNN ou de qualquer outro órgão de informação, além do objetivo de fazer um jornalismo baseado na verdade“. Já um porta-voz da Casa Branca afirmou que Trump “tem mantido consistentemente uma posição de neutralidade em relação a todas as partes ao longo do processo de licitação da Warner Bros. Discovery”.
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