
Supervisão de Risco Climático e Macroeconómico: Lições e Perspetivas
Helena Chaves Anjos avalia o impacto dos riscos climáticos na gestão das seguradoras e descreve os passos que estão a ser dados e a direção que estão a seguir.
A crescente frequência e severidade dos eventos climáticos extremos colocam desafios sem precedentes ao setor segurador. O recente Risk Outlook 20251, publicado pela Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF), publicado no final de fevereiro, evidencia a intensificação dos riscos macroeconómicos, cibernéticos e geopolíticos, sublinhando a necessidade de um reforço na resiliência do setor.
Em paralelo, a Conferência EIOPA sobre Finanças Sustentáveis de 20252, realizada na passada semana, dia 13 de março, colocou em destaque a urgência da supervisão financeira europeia integrar eficazmente os riscos climáticos, no quadro dos riscos prudenciais, no âmbito do regime da Solvência II.
Em destaque estiveram os desafios da supervisão e gestão dos riscos climáticos, fundamentais para a resiliência financeira da UE. O relatório conjunto da EIOPA e do BCE (dezembro de 2024) revelou que as perdas económicas diretas por eventos climáticos extremos no EEE ultrapassaram 900 mil milhões de euros desde 1980, sublinhando a necessidade de um sistema europeu coordenado para a gestão desses riscos.
O exercício “Fit-for-55” (2025) analisou os impactos de uma transição climática abrupta sobre bancos, seguradoras e fundos de pensões, evidenciando riscos superiores para o setor segurador devido às exigências de capital. A integração de cenários climáticos na Solvência II foi um dos temas centrais do evento. A conferência reforçou a importância das parcerias público-privadas (PPP) para reduzir o protection gap e garantir respostas eficazes a eventos extremos. Além disso, foi discutido o reforço dos instrumentos regulatórios, incluindo a consulta pública da EIOPA sobre uma ferramenta de sensibilização para riscos naturais.
A conclusão central aponta para a insuficiente proteção contra catástrofes naturais, com três quartos das perdas económicas na Europa ainda sem cobertura de seguros. Esta lacuna, com agravamento crescente, exige uma abordagem colaborativa entre reguladores, supervisores e instituições financeiras.
Além disso, o impacto das alterações climáticas, no contexto de instabilidade macroeconómica e geopolítica, torna urgente a revisão dos modelos de avaliação de riscos, a atualização das bases de tarifação e a adoção de medidas de mitigação e de adaptação pelos setores financeiros.
Nesse sentido, este ano o Banco Central Europeu (BCE) tem reforçado esta preocupação ao produzir novas referências bibliográficas na integração dos riscos climáticos na avaliação macroeconómica. Um dos pontos mais relevantes está na incorporação do risco climático físico na fixação das taxas de juro do crédito à habitação3. Segundo um estudo recente deste supervisor, os bancos estarão a cobrar um prémio de risco adicional em hipotecas localizadas em áreas vulneráveis a eventos extremos. Esta tendência poderá afetar significativamente os seguros de Vida associados ao crédito à habitação, exigindo um ajustamento nas estratégias de pricing para os capitais seguros e constituição da provisão de reservas das seguradoras, de acordo com o risco de crédito associado ao contrato além do risco das pessoas seguras.
Adicionalmente, este supervisor considera critica a exploração do uso de cenários no contexto de incerteza4, para prever possíveis futuros, face aos modelos tradicionais de avaliação de risco que podem subestimar o impacto das alterações climáticas a longo prazo, especialmente nos ativos imobiliários e setores altamente expostos a eventos extremos.
A incerteza do impacto financeiro destes riscos cria desafios adicionais para seguradoras e outros investidores institucionais, sendo essencial a adoção de metodologias mais robustas na modelização de riscos climáticos. O supervisor defende a utilização de análise de cenários, análise de sensibilidade e análise de riscos, que permitam a avaliação do impacto de cenários adversos, choques exógenos e efeito combinado e simultâneo da alteração de parâmetros climáticos, nas variáveis económicas condutoras da evolução da atividade seguradora.
Outro tema relevante para este supervisor prende-se com o desenvolvimento das obrigações ligadas ao clima “Climate-linked Bonds”5, um instrumento financeiro que ajusta os pagamentos com base nas variáveis climáticas, como temperatura e emissões de gases com efeito de estufa. O BCE estima que até 3% da dívida soberana das grandes economias poderá ser convertida neste formato “Climate-linked Bonds”, criando novas oportunidades para os investidores e seguradoras na diversificação do risco climático.
Para o setor segurador, estas obrigações representam uma possibilidade estratégica de transferência de riscos para os mercados de capitais, e uma oportunidade de mitigação do risco climático em alternativa às soluções mais tradicionais de resseguro. Para além disso constituem uma ferramenta inovadora para alinhar os produtos financeiros com as metas de sustentabilidade.
De acordo com parecer conjunto às opções de mitigação dos riscos de catástrofes, de dezembro 2024, a EIOPA e o BCE6, reforçam a necessidade de uma abordagem nivelada e resposta coordenada a nível europeu, assente em dois pilares público e privado, sublinhando, contudo, a importância de reforçar os testes de resiliência das seguradoras. A incorporação de cenários climáticos mais adversos nos modelos de riscos surge como uma prioridade para garantir a resiliência financeira do setor face a eventos extremos e às exigências de capital.
Perante este contexto, é essencial a adoção de estratégias de gestão de riscos mais robustas, incluindo:
- Integração do risco climático na avaliação de solvência: A implementação de mecanismos para incorporar riscos climáticos nos modelos de solvência, promovendo maior transparência na subscrição e tarifação de seguros Vida e Não-vida;
- Adoção de novos instrumentos financeiros: O desenvolvimento de instrumentos inovadores, como as “Climate-linked Bonds”, pode auxiliar no financiamento da adaptação climática e na redução dos riscos sistémicos;
- Maior colaboração inter-sectorial: O diálogo entre reguladores, seguradoras e instituições financeiras é
essencial para fortalecer a resiliência face à intensificação dos riscos climáticos; - Revisão dos critérios de análise de riscos: A introdução de novas métricas que permitam incorporar corretamente o risco climático na avaliação dos riscos de investimento e políticas de subscrição;
- Ajuste das estratégias de pricing e resseguro: As empresas de seguros devem rever as políticas de tarifação para incluir de forma mais precisa os impactos das alterações climáticas nos modelos de risco.
A transição para uma economia neutra em carbono constitui um desafio conjunto e um compromisso estruturado entre os diferentes agentes económicos e institucionais dos setores financeiros Europeus. O setor segurador tem um papel determinante na promoção da resiliência financeira e na proteção contra os impactos das alterações climáticas, exigindo uma supervisão tempestiva e uma adaptação ágil aos novos padrões de risco.
A colaboração entre reguladores, supervisores, empresas de seguros e o setor financeiro é essencial para garantir a estabilidade e sustentabilidade do sistema financeiro europeu.
1 ASF, Inquérito sobre a avaliação dos riscos do setor segurador e dos fundos de pensões – RiskOutlook2.0 – Fevereiro de 2025.
2 EIOPA Sustainable Finance Conference 2025: Driving Resilience and Action in a Warming World -13 March 2025.
3 ECB, From flood to fire: is physical climate risk taken into account in banks’ residential mortgage rates? – 12 March 2025.
4 ECB Blog, Exploring an uncertain future with the help of scenarios – 15 January 2025.
5 ECB, Working Paper Series, Climate-linked bonds by No 3011 – 9 January 2025.
6 EIOPA ECB “Towards a European system for natural catastrophe risk management – December 2024
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