Grupo de Aveiro mantém fábrica na Rússia a meio gás. Travão ao investimento reduz “impacto das perdas”
Reduzida a 50% da capacidade instalada, vendas de 5,8 milhões e 40 trabalhadores, subsidiária da OLI em Moscovo continua a fabricar mecanismos para cerâmica apesar dos “constrangimentos” da guerra.
Três anos depois do início da guerra na Ucrânia, que tirou 950 milhões aos negócios portugueses com a Rússia e levou quase mil empresas portuguesas a abandonarem o comércio com o país liderado por Vladimir Putin, a OLI – Sistemas Sanitários mantém em funcionamento a fábrica nos arredores de Moscovo, “dentro dos constrangimentos que a guerra e as sanções provocaram”, que conta atualmente com cerca de 40 funcionários.
António Ricardo Oliveira, administrador do grupo aveirense que reclama o estatuto de maior produtor de autoclismos da Europa do Sul, conta ao ECO que “o nível de produção está em cerca de 50% da capacidade instalada” na unidade industrial que fabrica mecanismos para cerâmica que abastecem apenas o mercado local, na qual fez um investimento inicial de 1,5 milhões de euros.
“As principais limitações são na área de recursos humanos, onde a escassez de mão-de-obra e a inflação elevada fazem com que seja difícil encontrar e reter as pessoas. Também na área das vendas, estando o mercado russo a atravessar um período de menor procura, é difícil competir em preço com os fabricantes locais, da Turquia e da China”, resume o empresário.
Depois do tropeção de 28,5% em 2023 em relação ao ano anterior, marcado pelo início da invasão da Ucrânia, no ano passado, o volume de negócios da subsidiária russa recuperou 5% em termos homólogos, para 5,8 milhões de euros. Obteve lucros de 390 mil euros – o contributo para o resultado consolidado ainda está em apuramento –, com o porta-voz do grupo de Aveiro a dizer que “não houve distribuição de dividendos em 2024”.
Quando Vladimir Putin decidiu invadir o território ucraniano, a dívida da filial russa à casa-mãe portuguesa era superior a 2,5 milhões de euros. Um ano depois do início do conflito no leste europeu, a exposição do grupo industrial de Aveiro rondava ainda os 300 mil euros. António Ricardo Oliveira adianta agora que essa questão da dívida “ficou resolvida em 2023”.
A prazo, a opção por não investir permite-nos minorar o impacto das perdas caso algo aconteça à empresa na Rússia, mas também é verdade que sem investir vamos perdendo competitividade e isso tem um limite.
Motivada então pela desvalorização do rublo, pelos custos logísticos e pelos constrangimentos alfandegários, foi em 2016 que a antiga Oliveira & Irmão se estreou a produzir no estrangeiro e iniciou a laboração industrial na Rússia, onde já tinha uma filial comercial há dois anos. Instalada junto à capital, produzia ali um total de 400 mil mecanismos e 30 mil autoclismos interiores.
Após o início da guerra, a OLI decidiu cancelar os investimentos previstos na Rússia no valor de 750 mil euros, que “não foram concretizados e, entretanto, não foram retomados”. Volvidos três anos, o administrador aponta ao ECO que “a prazo, a opção por não investir permite minorar o impacto das perdas caso algo aconteça à empresa na Rússia, mas também é verdade que sem investir [vai] perdendo competitividade e isso tem um limite”.

Questionado sobre os planos futuros que tem para esta participada a 100%, que é autónoma do ponto de vista industrial e comercial, agora que se perspetiva que possa haver uma resolução para a guerra na Ucrânia, ‘patrocinada’ por Donald Trump, responde que os planos passam por “manter a empresa em atividade e dentro da esfera do grupo”. “Quando e se o conflito se resolver, avaliaremos outras possibilidades”, sublinha.
“A subsidiária na Rússia sempre produziu para o mercado local e atualmente com os fabricantes europeus numa posição de fragilidade, as regras no mercado local alteraram-se, permitindo a entrada de muito produto vindo da China e da Turquia, bem como a consolidação dos fabricantes russos no mercado local”, acrescenta António Ricardo Oliveira.
Exportações caem com sanções e falta de crédito
Antes da guerra, em 2021, a OLI surgia nas listagens do INE como uma das dez maiores exportadoras portuguesas para a Rússia, com vendas de autoclismos e mecanismos para cerâmicas no valor de 5,5 milhões de euros. Em conjunto com a Ucrânia, representavam 6,3% das vendas do grupo, que tem também filiais em Espanha, Itália, Alemanha, Noruega e França – a mais recente, após comprar a sociedade Regiplast por 6,5 milhões no verão passado.
No entanto, o conflito armado no Leste da Europa fez “praticamente desaparecer” as exportações a partir de Portugal para estes dois destinos. “No caso da Rússia por causa das sanções. No caso da Ucrânia porque o mercado encolheu e por não haver qualquer cobertura de crédito dos clientes dado o risco do país”, relata o administrador do grupo familiar fundado em 1954, que no ano passado faturou 75,2 milhões de euros.
Com os artigos produzidos no complexo industrial em Aveiro enviados para mais de 80 países dos cinco continentes, as exportações representaram 74% do total de vendas no ano passado. A OLI fixa como objetivo crescer 9% a faturação em 2025, ano em que vai instalar um armazém inteligente e automatizar algumas linhas de produção, num investimento de 7,7 milhões, integrado no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).
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