Países mais pobres estão entre os que vão pagar as tarifas mais elevadas aos EUA. Veja aqui a tabela interativa

Donald Trump impôs tarifas de 50% ao Lesoto e ao pequeno arquipélago de São Pedro e Miquelão, desafiando a sobrevivência económica de nações já em crise. Mas as incongruências não se ficam por aqui.

O presidente norte-americano voltou a surpreender o mundo com uma nova política de tarifas comerciais que promete alterar profundamente as relações económicas globais. Como ponto de partida, as importações dos EUA de todos os países serão alvo de pelo menos uma taxa base de 10% a partir de 5 de abril.

No entanto, há um conjunto de 86 países (em que se incluem os 27 Estados-membros da União Europeia) que foram alvos de taxas acima da taxa base, com as novas tarifas a entrarem em vigor a 9 de abril.

Entre os países mais penalizados pelas tarifas de reciprocidade de Donald Trump estão, de forma surpreendente, o Lesoto e São Pedro e Miquelão, dois territórios pequenos e pouco conhecidos, mas que agora enfrentam tarifas de 50% sobre as suas exportações para os EUA — apenas superados pela China, que apesar de ter uma taxa de reciprocidade de 34%, tem uma taxa global de 54% por conta de tarifas anteriormente adicionadas.

Este movimento, justificado pela Casa Branca como uma resposta “recíproca” às tarifas impostas por esses países sobre produtos americanos, levanta questões sobre a lógica e a eficácia desta abordagem. O economista Jeffrey Sachs chegou mesmo a classificar o plano de Trump como “infantil” e “bizarro”, vaticinado que “irá destruir a economia dos EUA”.

O Lesoto, um país africano rodeado em todas as suas fronteiras pela África do Sul e com uma população de apenas 2,3 milhões de habitantes, viu-se no centro das atenções após Trump anunciar que aplicaria a tarifa mais alta de todas: 50% sobre as suas exportações.

Este país tem uma economia altamente dependente do comércio com os EUA, sendo o segundo maior parceiro comercial do Lesoto depois da África do Sul. Em 2024, os EUA importaram 237 milhões de dólares em bens provenientes de Lesoto, enquanto as exportações americanas para o país totalizaram apenas 2,8 milhões de dólares, criando um défice comercial de 234 milhões de dólares, referem os dados do Departamento

As principais exportações de Lesoto incluem diamantes e têxteis, como as calças de ganga da Levi’s e da Wrangler, produtos que representam mais de 10% do PIB do país. Estas exportações eram facilitadas pelo African Growth and Opportunity Act (AGOA), um acordo que permitia a entrada preferencial de bens africanos nos EUA. No entanto, as novas tarifas marcam o fim prático deste acordo, colocando em risco milhares de empregos em fábricas têxteis no país.

Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir a tabela.

As incongruências das tarifas de Trump

São Pedro e Miquelão, um território ultramarino francês situado ao largo da costa canadiana, também foi atingido pela tarifa máxima de 50%. Com uma população de cerca de apenas 6 mil pessoas e uma economia baseada na pesca e no processamento de crustáceos, este arquipélago exportou apenas 3,4 milhões de dólares em bens para os EUA em 2024, segundo dados oficiais dos EUA. Por outro lado, importou apenas 100 mil dólares em produtos norte-americanos.

A aplicação de uma tarifa de 50% sobre os bens importados deste pequeno arquipélago parece desproporcional quando comparada com o volume reduzido de comércio entre os dois países. Além disso, São Pedro e Miquelão já enfrenta desafios económicos devido a disputas sobre quotas de pesca com o Canadá, fazendo com que esta situação ameace agravar ainda mais a situação económica local.

Outro ponto que gera alguma perplexidade é a disparidade nas tarifas aplicadas a Israel e ao Irão. Apesar das tensões políticas entre os EUA e o Irão, as tarifas sobre bens iranianos foram fixadas em “apenas” 10% – taxa base comum a todos os países –, enquanto Israel enfrenta uma taxa de 17%. Este contraste é particularmente surpreendente dado que Israel eliminou recentemente todas as tarifas sobre produtos norte-americanos numa tentativa de apaziguar Trump.

Enquanto alguns analistas defendem que estas tarifas visam proteger os interesses económicos dos EUA, outros alertam para os impactos negativos tanto para os consumidores americanos quanto para os países afetados.

A fórmula utilizada para calcular as tarifas também tem sido alvo de críticas. Nos casos de Lesoto e São Pedro e Miquelão, foi aplicada uma lógica que penaliza países com baixos volumes de importação dos EUA. Este método não só parece arbitrário como ignora dinâmicas económicas mais complexas.

Há também um conjunto de países em que, apesar de os EUA terem um excedente comercial, foram alvo de taxas acima dos 10%. É o caso de vários países europeus, como os Países Baixos, Bélgica e Espanha, que foram colocados no pacote da União Europeia que foi sujeita a uma taxa de 20%.

As novas tarifas comerciais impostas por Trump revelam um mar de incongruências que podem surgir quando decisões económicas são tomadas com base em critérios simplistas ou políticos.

Países com pequenas economias como Lesoto e São Pedro e Miquelão, mas também como Laos, Guiana, Madagáscar (um dos 10 países mais pobres do mundo) e até as Ilhas Falkland estão agora sob forte pressão económica devido a medidas que parecem desproporcionais face à sua relevância na balança comercial dos EUA e face ao seu nível de desenvolvimento.

Além disso, a disparidade nas taxas aplicadas ao Irão e a Israel levanta questões sobre a consistência da política externa americana. Enquanto alguns analistas defendem que estas tarifas visam proteger os interesses económicos dos EUA, outros alertam para os impactos negativos tanto para os consumidores americanos quanto para os países afetados. No final das contas, esta política pode acabar por prejudicar mais do que beneficiar os EUA, minando décadas de cooperação internacional baseada em regras claras e previsíveis.

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