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Accenture: Metaverso reduz “fronteira do físico e digital”. “Todos devem estar preparados para esta nova realidade”

Rui Barros, managing director de tecnologia da Accenture Portugal, explica que o metaverso é mais do que uma tendência. Tem potencial disruptivo e os gestores já se preparam para a sua chegada.

A palavra metaverso entrou de rompante no glossário de milhões de pessoas nos últimos meses, mas compreende tecnologias que já estavam em desenvolvimento há mais tempo e que têm potencial disruptivo, como a internet no final da década de 90, defende Rui Barros, managing director e responsável pela área de tecnologia da Accenture Portugal. Em entrevista ao ECO, por ocasião da publicação do relatório anual Technology Vision 2022, explica que a tendência promete reduzir a “fronteira entre o físico e o digital”, alertando que “todas as organizações e indivíduos devem estar preparados para esta nova realidade”.

O termo metaverso tem sido aplicado a coisas tão distintas como o mundo do jogo Fortnite e a plataforma de conversas por voz Clubhouse. Quais as características comuns que definem algo como sendo “o” ou “um” metaverso?

A nossa definição de metaverso vai além de toda a hype que se gerou e estabelece pontos-chave para o negócio. Para nós, na Accenture, é uma evolução da internet que nos permite ir além da “navegação” para “participar e/ou habitar” numa experiência partilhada contínua que abrange o espetro do nosso mundo real até um mundo totalmente virtual e o que está entre os dois. Por outras palavras, pode ser entendido como um novo espetro de realidades virtuais e modelos de negócio que têm vindo a redefinir, de forma progressiva, o modo como o mundo opera e interage. Mais do que uma tendência emergente, o metaverso é o próximo passo da transformação digital que nos permitirá existir e conviver numa combinação integrada entre o mundo real e virtual.

A Accenture olha para o metaverso como um continuum em evolução e expansão em várias dimensões: compreende várias tecnologias incluindo, por exemplo, realidade virtual (VR); realidade aumentada (AR); aplicações que geram novas experiências; ferramentas de design e ativos digitais – sustentados por tecnologia de conectividade, como o 5G e a cloud, blockchain, inteligência artificial, digital twins e objetos inteligentes – incluindo carros e fábricas, e edge computing. Coletivamente, estes conceitos e ferramentas tornam cada vez mais ténue a fronteira entre o físico e o digital e têm o potencial de revolucionar processos, aumentar a eficiência e, globalmente, aumentar a maturidade das operações de uma forma nunca antes vista. O Metaverse Continuum engloba também o “virt-real” – a gama de experiências, desde puramente virtuais para uma mistura de virtual e físico; e descreve o espectro de experiências emergentes do consumidor e as aplicações e modelos de negócios em toda a empresa que irão ser reimaginados e transformados.

A palavra metaverso só chegou ao vocabulário “mainstream” no final do ano passado, quando o Facebook mudou de nome, como mostram bem os dados do Google Trends. Que mérito tem esta tendência? E o que é que leva a crer que o metaverso é mais do que um simples entusiasmo súbito e generalizado?

Se olharmos para a cronologia que marca a evolução tecnológica desde o início do século, encontramos pontos comuns que se traduzem nalguma desconfiança para com o poder transformacional das tendências emergentes. Em 1999, quando a internet começou, muitos gestores de grandes empresas julgaram-na como uma moda passageira que se apresentava sob a necessidade fugaz de uma página web. Outros, que embora percebessem o real impacto, acreditavam que teriam ainda muito tempo para poder integrar a internet nos seus modelos de negócio. Anos mais tarde, quando o nosso estudo Technology Vision de 2013 ditava que todos os negócios seriam digitais, deparámo-nos novamente com algum ceticismo por parte de vários líderes empresariais que entendiam que esta seria uma transformação apenas inerente a um setor tecnológico – um misto de aversão e inércia que levou a que uma percentagem considerável de organizações não estivessem preparadas, sete anos mais tarde, para lidar com uma crise global como a pandemia provocada pela Covid-19.

Num cenário oposto, aqueles que já tinham iniciado os seus processos de transformação digital no core do seu negócio, conseguiram não só sobreviver a este período de incerteza sem precedentes, como prosperaram nos seus mercados, contrariando um ciclo expectável de recessão.

A história tem-nos ensinado a avaliar o real impacto das tendências emergentes e acreditamos que o metaverso não será diferente. Embora possa ter tido maior eco com o caso do Facebook, em breve, todas as empresas serão confrontadas com uma inevitável interseção entre dois mundos – o real e o digital – que irá pressupor a construção de novas realidades, físicas e virtuais, e a prestação de serviços neste novo ambiente.

Todas as organizações – e todos os indivíduos – devem estar preparados para entrar nesta nova realidade.

Paula Nunes/ECO

Mais de 70% dos inquiridos no estudo da Accenture acreditam que o metaverso terá um impacto positivo no negócio, mas só pouco mais de 40% acreditam que será disruptivo. Além disso, no caso do Facebook, já perdeu quase um terço do seu valor desde a altura em que anunciou a estratégia para o metaverso. O mercado está cético?

É necessário que as empresas entendam a urgência deste momento e que contornem alguma aversão à mudança. Segundo o nosso estudo, 71% dos gestores acreditam que o metaverso terá um impacto positivo na sua organização e 42% acreditam que será inovador ou transformador – dados que nos revelam a existência de uma maior abertura a sinais de mudança, a qual pode ser utilizada num posicionamento que leve à antecipação ao mercado e à liderança da próxima vaga de negócios digitais. É imperativo que se comece a pensar na delineação de novas estratégias e que se repense o papel das organizações no mundo digital através da exploração de novos produtos e serviços adaptados.

O estudo Technology Vision 2022 revela ainda que 95% dos executivos acreditam que as futuras plataformas digitais terão de oferecer experiências unificadas, possibilitando a interoperabilidade dos dados dos clientes em diferentes plataformas e espaços, o que nos leva a crer que o mercado global não está tão cético quanto se possa pensar por comparação a tendências e a momentos tecnologicamente relevantes da nossa história. Hoje denota-se uma maior velocidade de adopção no que se refere ao metaverso.

A título de exemplo, a Gucci e a Nike estão atualmente a mudar as premissas sobre a forma e a função dos seus produtos, demonstrando novos modos de experimentar as ofertas em ambientes virtuais. A Gucci Garden Experience foi concebida para vender produtos virtuais – o que teve já os seus efeitos, tendo em conta que vendeu um digital twin, apenas virtual, de uma bolsa Gucci por um preço mais elevado do que o correspondente no mundo real. Por outro lado, a Nike lançou um mundo virtual chamado NIKELAND na Roblox no final de 2021. A NIKELAND tem prédios e campos inspirados na sede da empresa no mundo real, arenas onde os visitantes podem jogar e um showroom digital onde podem equipar os seus avatares com produtos da marca.

Aos poucos começamos a denotar um interesse crescente da economia pela presença neste novo mundo – que não se limita apenas em marcas de roupa ou de sapatos e que se estendem já a setores como a banca ou a saúde.

Rui Barros, Managing Director da Accenture Technology em entrevista ao ECO - 29MAR22
Hugo Amaral/ECO

O jogo Second Life teve milhões de jogadores no final da década de 2000 e chegou a ser capa na BusinessWeek. Porque é que o metaverso – expressão cunhada em 1992 – tem sido apresentado como uma novidade agora?

A digitalização, catalisada pela urgência de adaptação a um contexto adverso e comum a todos nós, acelerou um conjunto de projetos que se tornaram possíveis e tangíveis do ponto de vista de integração massiva da economia e da sociedade. Passámos de uma ideia futura e distante para uma realidade atual, que se criou por via da rápida e inevitável digitalização de inúmeros sectores. Todo o investimento realizado, que se estimava ser exequível num período de dez anos, traz agora um conjunto de novas possibilidades que nos permitem falar do metaverso com muito maior proximidade e interesse. Consideremos estes exemplos: demorou 15 anos para passarmos do lançamento do primeiro iPhone para um mundo onde 6,6 mil milhões, ou 83%, das pessoas estão a usar um smartphone; em dezembro de 2021, a app Oculus alcançou o top dos rankings da app store móvel – tornando-se a top app nos EUA e parte do top 5 das apps em 14 países em poucos anos. Embora estes exemplos e outros que referi anteriormente possam parecer tendências e manchetes separadas e distintas, estão não apenas interconectadas, mas a combinar-se para impulsionar a próxima onda massiva de transformação digital: o metaverso. Com base na nossa investigação, acreditamos que, quando chegarmos ao ano de 2030, a vida dos seres humanos vai estar espalhada por vários mundos e ambientes. Existiremos não apenas na realidade que todos conhecemos, mas também em vários mundos digitais, virtuais e “virt-real” – uma combinação de mundos físicos e digitais.

 

Em que áreas e setores da economia vai ser mais visível o potencial disruptivo destas tecnologias?

Se até aqui o metaverso era um passo evidente na área dos jogos e dos multimédia, este estende-se, cada vez mais, a outras áreas da economia e da sociedade, numa construção ambiciosa de um universo digital e paralelo que convida a experiências imersivas, com total apoio da realidade virtual ou da realidade aumentada. Prevemos que entre os setores que serão os early adopters do metaverso, estão o setor de retalho, produtos de consumo, financeiro, saúde e produção industrial.

A título de exemplo, a CVS Health tornou-se na primeira farmácia a entrar no metaverso, com um pedido no escritório de patentes dos Estados Unidos da América para registar o seu logótipo e estabelecer uma loja capaz de comercializar produtos virtuais para download, desde medicamentos prescritos até produtos de beleza e cuidados pessoais.

Por outro lado, a JPMorgan está a investir para se tornar no primeiro banco a operar no metaverso, com colaboradores a trabalhar e a atender clientes neste universo digital.

A utilização do metaverso está a crescer exponencialmente. A Accenture também opera no seu próprio metaverso, o Nth floor, onde os nossos colaboradores podem participar no onboarding de novas contratações e em formações imersivas ou apenas socializar em equipa. É uma estratégia global aplicada em Portugal, garantindo que as novas contratações trabalhem no metaverso no seu primeiro dia.

Cada empresa terá um conjunto exclusivo de contribuições para mundos futuros e um desejo diferente na forma como querem equilibrar as exigências de hoje com o que desejam construir.

A Accenture usa a expressão “metaverse continuum” e tem o seu próprio projeto nesta área. O Facebook tem o Horizon Workrooms, a Epic Games tem o Fortnite. À luz disto, o futuro do metaverso vai passar por mundos fechados e não tanto por plataformas abertas?

Atualmente, muitos metaversos iniciais estão a ser construídos com focos e ideias preliminares diferentes de como obter sucesso. Alguns para empresas, outros para consumidores; mas cada um com diferentes plataformas, parceiros e tecnologias no seu core. Em breve, todas as organizações se encontrarão na intersecção de muitos mundos novos, desde a construção de novas realidades físicas e virtuais até à prestação de serviços em ambientes criados por outros. O emergente “mundo programável” criará novos modelos de negócio e possibilitará experiências do mundo real, introduzindo um novo cenário competitivo para as empresas. As oportunidades para liderar no mundo programável são vastas – desde o design de novos ambientes e operações conectadas, até à arquitetura de experiências hiperpersonalizadas e hiperautomatizadas do mundo real, até ao lançamento da próxima geração de produtos e serviços feitos com materiais inovadores.

A maioria das empresas não desenvolverá internamente todo o tipo de tecnologia do mundo real, portanto, a interoperabilidade entre os produtos de diferentes empresas será fundamental. Não há uma estratégia única, porém as as organizações têm a oportunidade e a obrigação de construir um metaverso responsável – abordando questões como confiança, sustentabilidade, segurança pessoal, privacidade, acesso e uso responsáveis, diversidade e muito mais. As ações e escolhas que fazem hoje vão preparar o cenário para o futuro.

Cada empresa terá um conjunto exclusivo de contribuições para mundos futuros e um desejo diferente na forma como querem equilibrar as exigências de hoje com o que desejam construir. As ações e escolhas que fazem hoje vão preparar o cenário para o futuro.

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