O maior problema em Famalicão “é a falta de mão obra”, diz Augusto Lima

A formação profissional em que Famalicão sempre apostou "já não é suficiente para aquilo que é a procura", diz Augusto Lima. O vereador da Economia admite procurar recursos fora do país.

Augusto Lima, vereador da Economia da Câmara de Famalicão, diz em entrevista ao ECO que o maior desafio/problema da região é a falta de mão-de-obra. Um entrave ao investimento privado e nacional. Para isso, defende que o concelho tem de atrair recursos nacionais e estrangeiros. Detentor de uma rede de empresas dos mais variados setores desde o têxtil, à metalomecânica, passando pelo agroalimentar e automóvel, o concelho de Famalicão tem-se destacado ao nível das exportações, com um volume total de 1,9 mil milhões de euros, em 2016. É nesse âmbito que vai acolher o Fórum Económico Famalicão Made In, no próximo dia 10 de maio, uma iniciativa conjunta da Câmara Municipal e do ECO.

Para o vereador da Economia, as exportações são “obra” dos empresários, mas o Governo tem um importante papel a desempenhar, sobretudo ao nível da capacitação das empresas. O objetivo, salienta, é aumentar a base exportadora e diversificar mercados.

O crescimento das exportações que Portugal tem vindo a registar é um trabalho dos privados (empresas), do Estado ou do poder autárquico?

Há um trabalho das empresas, disso não há dúvida nenhuma. Mas o Governo também pode ter algum trabalho para que as exportações possam crescer.

Que medidas identifica como sendo trabalho do Governo?

A questão dos apoios, que vêm do Portugal 2020 e do Compete, no que se refere à qualificação e internacionalização. É verdade que a questão da participação em feiras está de alguma forma bem trabalhada. Mas há outros aspetos, nomeadamente ao nível da capacitação, para que mais empresas possam exportar, que ainda não estão bem trabalhados, porque normalmente quem vai a esse tipo de feiras e certames são sempre os mesmos, há dificuldade…

Mas há outros aspetos, nomeadamente ao nível da capacitação, para que mais empresas possam exportar, que ainda não estão bem trabalhados, porque normalmente quem vai a esse tipo de feiras e certames são sempre os mesmos, há dificuldade

Os mesmos que, regra geral, são os que mais exportam…

Sim, já são os que mais exportam, por isso defendo que ao nível da capacitação há ainda muito trabalho a fazer, com estes dois grandes objetivos. Ou seja, por um lado alargar a base exportadora do concelho e do país e, por outro lado, diversificar mercados. De facto, se olharmos para os principais mercados também são sistematicamente os mesmos, portanto há aqui ainda um trabalho muito grande ao nível da diversificação de mercados mas para isso é preciso capacitar as empresas.

Que papel é que podem ter as autarquias?

As autarquias não vão obviamente fazer o trabalho das empresas e do Governo mas podem ter aqui um trabalho de apoio, de sensibilização, podem entrar na questão da capacitação, isto tem que ser um trabalho em conjunto de aproximação do próprio ecossistema. Temos de trabalhar com as associações quer setoriais, quer transversais, na perspetiva de, em conjunto, encontrar soluções para que as exportações possam aumentar cada vez mais.

No caso de Famalicão, cujas exportações em 2016, atingiram 1,9 mil milhões de euros, sendo o terceiro concelho mais exportador a nível nacional, a base exportadora é cada vez mais diversificada…

Sim, felizmente temos muitos setores. Para além do têxtil, temos o agroalimentar, a transformação de carnes, a metalomecânica, a fileira automóvel, e estão todos eles a exportar felizmente.

Quanto a novos negócios o que é que têm na calha?

Estão aí alguns para aparecer, mas a seu tempo serão divulgados.

Mas são negócios significativos?

Temos um ou outro significativo. Mas temos de aguardar, entre investimento nacional e estrangeiro.

Como é que Famalicão se posiciona para captar investimento?

Tentamos criar uma rede de modo a estarmos próximo dos centros de decisão, os locais onde se fazem as opções pelos próprios municípios, nomeadamente com a Aicep e com as Câmaras de Comércio, com embaixadas, há todo um trabalho institucional. A nível mais interno concedemos apoio ao nível dos benefícios fiscais, seja através de incentivo seja através da redução das taxas de licenciamento. Apesar dos benefícios fiscais dependerem da Autoridade Tributária, há uma parte que pode ser concedida pelos municípios, de resto, Famalicão já atribuiu cerca de 187 milhões de euros de incentivos. A nossa missão, e é para isso que cá estamos, é ajudar todos os empresários e investidores, e a nossa ajuda pode estender-se à área dos recursos humanos, à procura de novos espaços e de equipamentos.

“Estamos a viver um bom momento de confiança”, diz Augusto Lima.

Falou nos recursos humanos, mas esta é uma área que começa a ser problemática?

Muito difícil. É o grande problema nos tempos que correm, na nossa perspetiva é o grande desafio que estamos a viver atualmente.

O que é que se pode fazer para colmatar a falta de mão-de-obra?

A médio e longo prazo há que trabalhar muito bem as questões da educação e da formação, cada vez mais direcionar a oferta formativa em função das necessidades das empresas.

Uma aposta clara na formação profissional?

A formação profissional em que o concelho, felizmente, sempre apostou, mas que, neste momento, já não é suficiente para aquilo que é a procura. A curto prazo a reconversão de pessoas, mas estamos a chegar ao limite, e em alguns casos temos que ir à procura da atração de pessoas, quer nacionais, quer internacionais. Não tenhamos dúvidas que falta mão-de-obra e vamos ter de chegar a esse ponto.

A curto prazo a reconversão de pessoas, mas estamos a chegar ao limite, e em alguns casos temos que ir à procura da atração de pessoas, quer nacionais, quer internacionais. Não tenhamos dúvidas que falta mão-de-obra e vamos ter que chegar a esse ponto.

Mas está falar de mão-de-obra especializada ou mesmo para o chão de fábrica?

Dos dois níveis, mão-de-obra especializada e quadros não qualificados, os dois níveis são necessários.

Há algum setor com necessidades mais prementes, ou é transversal?

É transversal a todos os setores, o agroalimentar está com muita dificuldade, o têxtil está com muita dificuldade, a metalomecânica está com muita dificuldade… Portanto, é transversal.

É fácil atrair pessoas para Famalicão?

Na perspetiva de que estamos muito próximos de outros importantes centros urbanos sim, mas todos os concelhos vizinhos estão a viver o mesmo problema, já não é um problema só do próprio município é um problema da região e, isso faz com que não seja tão fácil a atração de pessoas para resolver as oportunidades que as empresas estão a ter neste momento.

Mas isso pode retrair investimento, nomeadamente estrangeiro?

A falta de mão-de-obra pode retrair, não só investimento estrangeiro como investimento nacional. O que até agora era sem dúvida um dos nossos pontos fortes, a questão dos recursos humanos, e a sua qualidade continua a ser, mas se não forem tomadas medidas a médio e longo prazo podemos vir a ter alguns problemas.

Essas medidas podem ser tomadas pela Câmara?

Não, tem de ser um conjunto mais alargado, quer de medidas nacionais, regionais e municipais. Na parte municipal estamos já a trabalhar, nomeadamente ao nível da educação e formação… Aí estamos a trabalhar de uma forma muito forte no setor do têxtil e no agroalimentar, juntamente com as associações, com os centros de formação, com os centros tecnológicos e com as empresas a ver se conseguimos, de uma forma rápida, resolver aqui alguns problemas de curto prazo, mas que não vão resolver a questão de médio prazo, até porque essa questão, do meu ponto de vista, necessita de uma perspetiva mais nacional e regional.

Qual o número de pessoas que seria necessário para colmatar as necessidades?

Não tenho um número. Não queria estar a avançar um número, mas tivemos um caso recente quando foi a questão da Ricon, e onde rapidamente — numa semana — conseguimos repor os 400 postos de trabalho. Relembro que o início de o processo de insolvência foi numa segunda-feira e na sexta-feira já tínhamos 400 postos de trabalho, isto já dá para ter uma ideia do que rapidamente se consegue…

Como é que o município viu o tema da Ricon?

Foi uma pena o que aconteceu, mas felizmente ultrapassou-se e hoje em dia, estamos à espera dos números do Instituto de Emprego, mas serão poucas as pessoas que não terão emprego.

O PS e o PSD chegaram a consenso em matéria de descentralização, como é que Famalicão olha para esse pacote de medidas?

Por um lado com otimismo e, por outro, teremos que ver o que é que em concreto vai desencadear, mas acho que é um assunto mais do presidente de Câmara do que de mim próprio. Não conheço ainda o acordo mas a economia não estava previsto.

Para um município como Famalicão, que é praticamente litoral, as medidas de descentralização podem prejudicar?

À partida não. Na minha perspetiva não, se esse reforço for canalizado para quem está mais próximo das populações acho que faz todo o sentido, mas depois é preciso discutir isto em pormenor. É preciso ver o envelope financeiro que aí vem… De resto, nalgumas matérias já existe descentralização. Em Famalicão temos o Espaço Empresa — um dos oito que existem — a funcionar, é uma iniciativa conjunta doa Câmara, do IAPMEI, da Agência para a Competitividade e Inovação e a Agência para a Modernização Administrativa e a Aicep. Este espaço concentra todo o tipo de serviços de atendimento destinados às empresas e esta é já uma forma de descentralização. De resto, o presidente da Câmara sempre foi favorável à descentralização, tendo sido inclusive um dos primeiros a falar do problema das unidades de saúde primárias, tendo mesmo assumido encargos com o funcionamento dos centros de saúde. E o mesmo aconteceu na questão da educação, com o município a estar no grupo de municípios pilotos com responsabilidades nessa área. Famalicão, neste momento, é um dos munícipes que tem encargos e responsabilidades nas escolas secundárias. Os recursos humanos, com exceção dos professores, são responsabilidade da autarquia. De resto, sempre defendemos que se a descentralização for bem feita é importante, mas também dizemos que ninguém está mais bem posicionado para gerir competências, que são do Estado, do que os municípios, precisamente pelo conhecimento de proximidade, do território.

Relativamente às exportações, quais são as queixas que a autarquia recebe por parte dos empresários…

Se olharmos para o universo das empresas, estamos a falar de um tecido empresarial de pequenas e médias empresas, e de facto há aqui um núcleo de empresas que tem muita dificuldade em participar nos programas, por exemplo, do Portugal 2020, tem poucas condições e, se não entrar neste tipo de programas dificilmente consegue ir sozinha. E, portanto, é um tema crítico a este nível porque a grande maioria não consegue aceder aos fundos estruturais, nomeadamente nesta questão da internacionalização.

Percebe então os empresários quando dizem que é um trabalho deles e não do Governo? Os louros das exportações devem ser das empresas?

Disso não tenho a menor dúvida, agora podem ser criadas algumas condições de suporte que podem beneficiar e apoiar quem quer exportar, mas claramente o trabalho tem de ser dos empresários, até porque uma empresa hoje para poder exportar tem que ter diferenciação de produto, tem que ter inovação, tem que ter design, prazo de entrega, qualidade, e isto são tudo competências dos empresários. É verdade que todas estas áreas podem ser trabalhadas junto das associações, dos centros tecnológicos de uma forma mais detalhada.

A economia está a crescer, o desemprego a diminuir, nota um aumento do clima de confiança por parte das empresas e dos empresários?

Isso sim. Estamos a viver um bom momento de confiança, não tenho dúvidas em dizê-lo. Os números sustentam essa confiança e, de facto, estamos a viver esse otimismo, é verdade que há aqui altos e baixos, nomeadamente na questão da têxtil porque vive muitas vezes em função de fatores como o próprio clima, porque as coleções começam a atrasar, por vezes nota-se isso, mas de uma forma geral está a viver-se, pelo menos em termos de atitude, com mais confiança, sem dúvida.

Qual é o setor mais pujante do concelho?

Continua a ser o têxtil, a par da fileira automóvel e logo seguido do agroalimentar e da metalomecânica.

Como está a vossa intenção de criar uma associação para o centro agroalimentar na fileira das carnes?

Estamos a trabalhar juntamente com outros parceiros na constituição de uma Associação para o centro agroalimentar na fileira das carnes. Estamos na fase da constituição da própria associação.

Estamos a trabalhar juntamente com outros parceiros na constituição de uma Associação para o centro agroalimentar na fileira das carnes. Estamos na fase da constituição da própria associação.

Será este ano ainda?

Sim, penso que será ainda este ano.

Qual é o objetivo?

Se quiser um paralelismo, o objetivo é que a associação para o centro agroalimentar da fileira das carnes, possa um dia mais tarde, fazer o caminho que o Citeve fez para a têxtil, ou seja, que venha a acrescentar valor nomeadamente ao nível de investigação e desenvolvimento, qualificação e internacionalização. É este o caminho que esperamos que a nova associação venha a fazer.

As grandes empresas do concelho estão internacionalizadas. E as mais pequenas, estão a seguir essa tendência?

Internacionalização propriamente dita temos poucos empresas, apenas algumas das grandes. No caso das mais pequenas e das médias, estamos a falar de exportação, a maioria é exportação. As mais pequenas ainda têm muita dificuldade em exportar…

E são as mais pequenas que vos procuram?

São essas que nos procuram, daí dizer que antes de avançarmos para os processos de exportação é preciso avançar para a questão da capacitação. Há muito trabalho a fazer quer, ao nível das competências dos próprios recursos humanos, quer ao nível infraestrutural porque para exportar e internacionalizar é preciso que as empresas estejam no mundo digital e a maioria delas hoje ainda não está, e portanto, é preciso uma série de coisas na área da logística e da distribuição para que possam exportar, é preciso capacitá-las a essa nível. É preciso saber quais são os mercados para onde poderão exportar, obviamente que as associações setoriais e os municípios poderão dar uma grande ajuda mas é preciso fazer um grande esforço antes de exportar.

Para exportar é preciso ter valor acrescentado.

Tem a ver com o valor acrescentado que passa obviamente pela questão dos recursos humanos, recursos humanos mais qualificados para que possam existir mais exportações. Hoje em dia, as exportações precisam de mais produtos de maior valor acrescentado, o que só se faz obviamente com tecnologia, com equipamentos mas também com recursos humanos. Os recursos humanos, volto a dizer, são sem dúvida o grande desafio, a atração de recursos humanos para as nossas empresas quer para as que já existem, quer para as futuras.

O município já se manifestou sobre o novo quadro comunitário de apoio?

Concretamente ainda não fomos ouvidos para esse efeito, mas é algo que deve ser trabalhado no sentido de poder dar voz junto das empresas, para poder dar contributos para o novo quadro comunitário.

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