“Pelo menos na próxima década, Lisboa vai ser o lugar para estar”, diz Paddy Cosgravepremium

A partir de hoje, até 4 de novembro, são esperados 40 mil visitantes na Web Summit de Lisboa, que regressa ao formato presencial. Paddy Cosgrave falou com o ECO sobre os planos para o evento tech.

A Web Summit está a expandir para novas paragens -- Hong Kong, Brasil e Tóquio estão na lista da organização -- mas isso não retira força à cimeira tecnológica de Lisboa, que arranca esta segunda-feira, no Parque das Nações, em Lisboa. Pelo contrário, defende Paddy Cosgrave. O cofundador da cimeira tecnológica não se compromete, no entanto, com a manutenção do evento para lá de 2028, data fechada com o Governo português. A partir de hoje, até 4 de novembro, são esperados 40 mil visitantes na Web Summit de Lisboa, que regressa ao formato presencial.

O "maior" evento tech realiza-se num país onde ainda se aguarda o lançamento comercial do 5G, mas nada que faça falta, diz Paddy Cosgrave. Mesmo sem a nova geração de telecomunicações, Lisboa ainda é a cidade para se estar, pelo menos na próxima década. "Há, literalmente, milhares de pessoas a mudarem-se de Londres, Nova Iorque, São Francisco e Paris para Lisboa. Está a tornar a cidade num inacreditável caldeirão de culturas cosmopolita. É um bom lugar."

Lisboa pode tornar-se a casa permanente da Web Summit?

Estamos aqui até 2028. Depois disso, não sei, espero estar ainda vivo em 2028. Em tecnologia isso é uma eternidade. As coisas estão a mudar tão depressa. Quem sabe como será o mundo em 2025? A minha expectativa é que, pelo menos na próxima década, Lisboa vai ser o lugar para estar. Berlim, durante um longo período de tempo, era o sítio para onde toda a gente se queria mudar, criar lá empresas. E por qualquer razão -- talvez seja para os académicos descobrirem, -- muitas pessoas estão a mudar-se para Lisboa. Vejo nas redes sociais, o entusiasmo e os desafios que está a criar. Há, literalmente, milhares de pessoas a mudarem-se de Londres, Nova Iorque, São Francisco e Paris para Lisboa. Está a tornar a cidade num inacreditável caldeirão de culturas cosmopolita. É um bom lugar. Estou consciente da discussão sobre os desafios que isso coloca, com o custo de vida e da habitação, mas são bons desafios, as cidades que estão em declínio também têm desafios, mas os desafios errados. Lisboa tem os desafios certos, que têm de ser resolvidos.

Numa conferência de imprensa recente disse que a edição deste ano da WS iria ter uma maior participação de novos fundadores, que nunca estiveram no palco. Pode dar-nos exemplos de startups de que vamos ouvir falar bastante no futuro?

A WS está a acontecer ao mesmo tempo que a COP26. Há mais de 200 startups na Web Summit, que estão focadas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas. Um quarto das empresas nas competições do pitch estão focadas nos ODS. Espero que os políticos resolvam todos os problemas que o nosso ambiente enfrenta, mas a inovação acabará por ter um papel crucial. Acho que muita dessa inovação será levada a cabo pelas pessoas que estão na Web Summit. A COP não parece muito interessada na maioria das pessoas que estão a criar a inovação que nos levará à neutralidade carbónica no futuro. Elas estão na Web Summit. São algumas das histórias mais interessantes. Claro que também há os tipos das criptomoedas.

Já que menciona os ‘tipos das criptomoedas’, queria focar-me nos ‘tipos’. Como sabe, há um problema enorme de diversidade de género no setor da tecnologia. Não há mulheres suficientes. Os últimos dados do Eurostat...

São chocantes.

Em Portugal tivemos uma queda de 5,3 pontos percentuais no número de mulheres que trabalham no setor da tecnologia. Dez anos depois ainda estamos a ter esta discussão.

Em 2014, algumas das principais pessoas envolvidas na Web Summit vinham da indústria musical e organizavam festivais de música. Para eles, a ideia de apenas 10% dos participantes num festival de música serem mulheres seria estranho. Quando vieram trabalhar para a WS, diziam: "o que é que se passa com esta indústria, alguma coisa está muito mal aqui. Porque é que 90% ou mais são homens?" Desde então, com o nosso programa "Women in Tech" trabalhámos muito para aumentar a participação de mulheres e também no palco. Temos cerca de 40% de participantes e 35% de mulheres nos palcos. Não é perfeito, mas está no topo da indústria. Muitos eventos têm de trabalhar mais para resolver esta questão. É preciso trazer estudantes de universidades portuguesas, sobretudo mulheres, e mostrar-lhes que esta indústria está cheia de pessoas iguais a elas. Não é apenas sobre mulheres com 50 anos, que são líderes na sua área. É preciso começar aos 18 e 19 anos ou mesmo mais cedo, senão nunca se vai atacar o problema na essência.

Vão voltar a ter um programa para estudantes?

Sim. Vamos ter 5000 estudantes. Fazemo-lo através do departamento de Educação.

A COP não parece muito interessada na maioria das pessoas que estão a criar a inovação que nos levará à neutralidade carbónica no futuro. Elas estão na Web Summit.

Estão a expandir, planeiam ter uma cimeira no Brasil. Representantes do Brasil estão a vir à WS para fechar um acordo com o Rio de Janeiro, diz a imprensa local. Confirma que será o Rio a receber a WS?

Ainda não tomamos uma decisão: se é o Rio de Janeiro, Porto Alegre ou Brasília. Penso que foi o prefeito do Rio de Janeiro que disse que a decisão está tomada. (risos) Não é o caso. Talvez esteja a tentar desencorajar as outras cidades. Tudo está ainda em cima da mesa. Estudei o World Economic Forum e eles fizeram crescer a notoriedade de Davos criando eventos regionais na América Latina, África, Médio Oriente, Ásia e América do Norte. No caso da WS penso que há uma enorme oportunidade de aumentar a participação da América Latina, não só do Brasil -- já é o 5.º ou 6.º maior país em termos de participação. Para mim, a América Latina (AL) é o mercado mais esquecido, toda a gente está a olhar para a Ásia.

Vai realizar uma cimeira em Hong Kong no próximo ano? E em Tóquio?

Sim. (Tóquio) será potencialmente em 2023.

Algumas outras cidades previstas? Sydney, por exemplo?

Não, é isto por agora. Nos últimos 10 anos realizamos eventos WS em praticamente todas as grandes cidades, Nova Iorque, Seattle, Londres, Toronto, Paris, Estocolmo, e o propósito de todos esses eventos é tentar criar notoriedade para Lisboa. Este é um evento global.

Mas não irá de algum modo canibalizar a WS Lisboa?

Faz exatamente o oposto. A base da WS fica mais forte quanto maior for a participação internacional. E isso consegue-se indo para os mercados e fazendo com que as pessoas conheçam melhor a WS. Pode ir para a rua e perguntar a qualquer pessoa em Portugal, ou na maioria dos centros de negócios dos países europeus, pela Web Summit e as pessoas sabem o que é. Se fizer isso em Buenos Aires, as pessoas não sabem. São mercados enormes, com grandes oportunidades. Temos de educar as pessoas.

Mencionou que o Brasil era o quinto ou sexto país em termos de participantes na Web Summit em Lisboa. Se eu fosse do Brasil, porque haveria de vir para Lisboa se há uma Web Summit no meu país?

Porque a WS em Lisboa é uma reunião completamente global. Já organizamos eventos por todo o mundo. A diferença está no nível de participação. A WS (em Lisboa) é a maior conferência de tecnologia do mundo. Porque é que vêm pessoas do México, por exemplo? Há um interesse particular no mercado europeu e eles sabem que haverá mais europeus neste evento. Cada vez mais, as empresas brasileiras não estão a pensar em crescer apenas na América Latina, querem crescer também na Europa. E as startups portuguesas e europeias também querem escalar para a América Latina também. Há várias razões para vir à WS em Lisboa, desde logo porque é, de longe, a maior.

A base da WS fica mais forte quanto maior for a participação internacional. E isso consegue-se indo para os mercados e fazendo com que as pessoas conheçam melhor a WS.

Como se sente por ter este grande evento de tecnologia num país que é um dos dois na Europa que não tem 5G?

O 5G não é importante para os objetivos de uma conferência de tecnologia. O 4G é perfeitamente suficiente e o wifi é o melhor de um grande evento no mundo.

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