7 lições das eleições autárquicaspremium

Quem ganhou as autárquicas? E quem perdeu? A pandemia e a bazuca mudaram alguma coisa? E Lisboa, pois claro. No Novo Normal desta semana, Filipe Santos Costa apontas 7 lições das autárquicas.

1. O retrato: a esquerda continua a dominar o país

A esquerda continua a dominar o país autárquico, com quase 50% dos votos expressos. O motor dessa maioria é o PS, que sozinho recebeu 34,2% dos votos. Se contarmos para o PS as poucas coligações lideradas pelos socialistas, o score de domingo sobe aos 37,5% - está, neste caso, a votação de Lisboa, onde os socialistas se apresentavam com o Livre. É verdade que não há forma de saber, numa coligação, quantos votos são para quem, mas esta soma é só uma forma de comparar mais facilmente o que se passa à esquerda com o que se passa à direita.

A esquerda toda junta (ou seja, todas as listas lideradas pelo PS, pela CDU ou pelo BE, independentemente das variantes de coligações) somou 48,7% dos votos de domingo passado. Se somarmos o PAN, que tem viabilizado os orçamentos do Governo PS, o score da esquerda chega aos 49,8%.

Esta percentagem corresponde a 2,417 milhões de votos nas listas da esquerda. Destes, 1,859 milhões foram para o PS ou listas lideradas pelo PS.

Olhemos, agora, para a direita. No total, recebeu cerca de 38,7% dos votos. Se o PAN se aliasse a este lado da barricada, subiria o resultado para 40,5%. Ainda assim, longe da esquerda.

(Sim, tem razão, a soma de direita mais esquerda fica longe dos 100%, o que se explica por várias razões: os grupos de cidadãos independentes são a quarta “força política” das autárquicas, com 5,5% dos votos, e há uns quantos partidos pequenos cujo posicionamento é difícil de aferir e que valem todos somados cerca de 2,5%, e ainda há os votos brancos e nulos, que ultrapassaram os 4%).

O PSD, maior partido deste lado do espetro, vale sozinho apenas 13% (pouco mais de 660 mil votos). Num ano em que se multiplicaram as coligações com o CDS, o resultado destas coligações ficou perto do valor do PSD isolado: 10, 8%, quase 541 mil votos). Se fizermos para o PSD o mesmo exercício que fizemos para o PS, somando o total de votos nas candidaturas lideradas pelo PSD, os sociais-democratas chegam 31,8% em todo o país.

Convém notar que o PSD liderou uma enorme diversidade de coligações de geometria variável: para além do clássico PSD+CDS, os sociais-democratas lideraram outras 21 combinações diferentes, com partidos como o RIR, o PPM, o MPT, o PDR ou a Iniciativa Liberal. À direita, só não houve coligações envolvendo o Chega.

O Expresso sublinha aqui a enorme diferença entre o PSD sozinho e o PSD com as coligações. Foram 156 coligações de todas as cores e paladares. Sozinho, o PSD perdeu câmaras e votos; coligado, aumentou o número de votos e de câmaras.

Na contabilidade final, temos:

  • 148 câmaras para o PS (-13), sempre sozinho, pois nenhuma das poucas coligações encabeçadas pelos socialistas saiu vencedora;

  • o PSD vai liderar 114 autarquias (+16), das quais:

    • 72 conquistadas a solo

    • 31 em coligação com o CDS

    • 11 numa diversidade de coligações, nas quais se inclui Lisboa (PSD+CDS+MPT+PPM+Aliança)

  • 19 câmaras são dirigidas pela CDU

  • 19 por grupos de independentes

  • 6 pelo CDS

Ou seja, a paisagem nacional continua a ser francamente de esquerda, seja pelo número de votos e percentagem eleitoral, seja pelas câmaras e juntas de freguesia conquistadas, seja pelo número de autarcas eleitos.

Há outras formas de olhar para o mapa de Portugal:

  • Por distritos:

    • o PS foi o mais votado em 10 dos 18 distritos do continente (nestas contas entram também as coligações lideradas pelo PS, mas fizeram pouca diferença):

      • Beja, Castelo Branco, Coimbra, Évora, Faro, Portalegre, Porto, Santarém, Setúbal, Viana do Castelo

  • o PSD, contando com as coligações, ficou à frente em 8 distritos do continente e nas duas regiões autónomas:

    • Aveiro, Braga, Bragança, Guarda, Leiria, Lisboa, Vila Real, Viseu; mais Açores e Madeira

  • Por capitais de distrito:

    • o PSD triunfou em 11: Aveiro, Braga, Bragança, Coimbra*, Faro, Funchal*, Lisboa*, Ponta Delgada, Portalegre*, Santarém, Viseu (com asterisco, as novas conquistas);

    • o PS venceu em 5: Beja, Castelo Branco, Leiria, Viana do Castelo, Vila Real;

    • houve vitórias de independentes em 2 capitais de distrito: Guarda* e Porto;

    • a CDU manteve 2 destas cidades: Évora e Setúbal.

Mas há ainda outro dado interessante quando se olha para fotografia que compara a esquerda e a direita no domingo passado. À esquerda, houve bastantes votos fora da esfera do PS: mais de meio milhão (em rigor, 558 mil), essencialmente do PCP (410 mil) mas também do BE (137 mil). Ou seja, houve 1 voto num dos outros partidos da esquerda por cada 4,3 votos no PS. Conclusão: apesar do recuo do PCP e do BE nestas eleições, estes partidos continuam a ocupar um espaço significativo à esquerda do PS. O mesmo não se passa do outro lado do espetro.

À direita, houve 351 mil votos noutras listas que não as listas do PSD ou lideradas pelo PSD: 208 mil votos no Chega, 74 mil no CDS e 65 mil na IL. Ou seja, houve um voto numa destas alternativas de direita por cada 5,5 votos em listas lideradas pelo PSD. Tendo em conta que o PSD liderou coligações em cerca de metade dos concelhos, fica a ideia de que a margem de crescimento do PSD para a direita não é muita. E será ainda menos se o Chega ficar fora de futuros acordos - como veremos mais abaixo, o partido de André Ventura já é mesmo o principal partido da direita a seguir ao PSD.

Já agora, o domínio da esquerda que as eleições autárquicas confirmaram continua a existir nas intenções de voto para as eleições legislativas. Bem sei que a reputação das sondagens não é a melhor depois da inesperada vitória de Carlos Moedas em Lisboa. Em todo o caso, o PS continua a dominar as intenções de voto a nível nacional e a esquerda continua maioritária.

Vale o que vale a dois anos de eleições, mas a sondagem divulgada pela TVI no domingo passado dava 41,3% ao PS isolado, e 53,4% à soma de PS+BE+PCP; juntando o PAN, o total passa dos 55%. O barómetro público este sábado pelo Nascer do Sol dá (mais uma vez) o PS à beira da maioria absoluta, e coloca a esquerda com 54,6% (contando o PAN) e a direita com 43,3%.

2. A tendência: direita a crescer, esquerda a encolher

A outra forma de olhar para os resultados de domingo é analisar as tendências. E, aí, a análise inverte-se: há melhores notícias para a direita do que para a esquerda e o cenário é mais risonho para o PSD do que para o PS.

Em 66 autarquias que mudaram de cor partidária, os socialistas conquistaram 22 e perderam 35, o que dá um saldo final de menos 13 câmaras do que em 2017, o melhor ano de sempre dos socialistas em autárquicas. O PSD, pelo contrário, depois de bater no fundo em 2017, conseguiu conquistar 32 câmaras, e perdeu 16, o que lhe deu um saldo final de mais 16 presidências.

Em geral, a esquerda perde terreno e a direita ganha. Esta é a comparação mais rigorosa que se pode fazer, tendo em conta a dificuldade colocada pelo elevado número de coligações, sobretudo à direita. Assim sendo, a esquerda caiu 3,6 pontos percentuais ( ou 2,5 pontos, se adicionarmos o PAN na coluna da esquerda). Em números absolutos, estamos a falar de um total de 264 mil votos que fugiram à esquerda. Quase todos perdem, e não é pouco:

  • o PS (mesmo contando com as poucas coligações que fez) teve menos 144 mil votos

  • o PCP perdeu 79 mil

  • o BE encolheu 33 mil

  • só o PAN (again, se o contarmos na esquerda) cresceu qualquer coisa: mais mil votos no total do país.

À direita, o crescimento é quase semelhante ao prejuízo verificado à esquerda: no total, foram mais 244 mil votos a nível nacional. É difícil contabilizar exatamente quanto vale cada partido à direita, mas há dados que são seguros:

  • o Chega, que não existia em 2017, “cresceu” 208 mil votos;

  • a Iniciativa Liberal, que também se estreou em autárquicas, teve 65 mil votos:

Ou seja, se estes dois estreantes da direita recolhem 273 mil votos, e o crescimento total total da direita foi 244 mil votos, não há volta a dar: PSD e CDS, os dois partidos tradicionais da direita, tiveram este ano menos votos do que nas autárquicas de 2017. A direita cresce, mas não é graças ao PSD e ao CDS - é apesar deles. Em dez casos, bastava a soma dos votos de há quatro anos do PSD e do CDS para ultrapassar o PS. Noutros, foi mais importante a queda do PS do que o crescimento do PSD, do CDS ou dos dois juntos.

O CDS, que ajudou o PSD em dezenas de conquistas, quase desapareceu do mapa em votos e percentagem próprios: 1,48%, correspondentes a 74 mil votos. Em 2017, o partido que então era liderado por Assunção Cristas teve sozinho o dobro da percentagem (2,59%) e 134 mil votos (neste total, Lisboa foi decisiva - mas já vamos a esse caso particular).

Uma última nota, para comparar as eleições de domingo passado com as eleições legislativas de 2019. É uma comparação arriscada e com muitas limitações, desde logo pela lógica diferente de cada eleição, mas vale apenas olhar para os números grandes.

Há dois anos, António Costa recebeu 1,9 milhões de votos. Agora, o PS sozinho teve 1,7 milhões - e se contarmos todas as listas que liderou, tem mais de 1,8 milhões de votos, como vimos acima. São apenas menos 50 mil votos do que nas legislativas, apesar do desgaste da governação, da pandemia e da crise económica. Em números redondos, metade dessa perda acontece num concelho: Lisboa.

Há dois anos Rui Rio recebeu menos de 1,5 milhões de votos. Agora, o PSD sozinho ficou pelos 660 mil, mas a totalidade das listas que liderou ficou ligeiramente acima de 1,6 milhões. São quase 150 mil votos a mais - mas, alerto outra vez, o PSD beneficiou de centena e meia de coligações, enquanto o PS fez poucas.

Com todas as cautelas que este exercício exige, não será exagerado dizer que não houve grandes alterações entre a votação de há dois anos nas legislativas e a do fim de semana passado no que toca aos dois grandes partidos.

A comparação é mais rigorosa quando olhamos para os blocos esquerda/direita.

  • A esquerda teve 53% nas eleições de há dois anos - agora, soma, como vimos, 48,7%. Se somarmos o PAN, a comparação é 56,5% há dois anos, e 49,8% agora.

  • A direita reuniu 34% dos votos em 2019 - agora chegou aos 38,7%.

Mais uma vez, a tendência é de desgaste à esquerda e reforço à direita, mas com os dois blocos ainda bastante longe. E, se nas autarquias não há geringonças e manda quem ganha, no governo do país manda quem tem mais apoios no Parlamento, mesmo que não corte a meta em primeiro lugar.

3. As cidades e as serras

Há outro facto que contraria a tendência das últimas eleições: o PSD, que estava aos poucos a desaparecer dos grandes centros urbanos, conseguiu no domingo virar essa história dos últimos 12 anos. Desde as autárquicas de 2009 que os sociais-democratas vinham a perder terreno nas grandes cidades e nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, que é onde está a grande concentração de eleitores (a AM Lisboa soma 2,8 milhões de almas, a do Porto conta 1,7 milhões - é quase metade da população do país).

Há uma boa forma de medir o peso dos dois grandes partidos junto do eleitorado urbano: fazer as contas aos vinte principais concelhos em dimensão populacional. Estava eu a fazê-las quando o Expresso desta semana me facilitou o trabalho. Os dados analisados pelo semanário sustentam a manchete : “PS perde 11% de votos nas maiores cidades” (já agora: pelas mesmas contas, o PSD perdeu 3%). Vejamos, então, o que dizem os dados:

  • o PS governa 10 dos 20 maiores municípios do país (por ordem de grandeza: Sintra, Gaia, Loures, Almada, Matosinhos, Amadora, Gondomar, Guimarães, Odivelas, Vila Franca de Xira). Até domingo governava 11 (perdeu 2 - Lisboa e Coimbra - e ganhou 1 - Loures).

  • O PSD domina 7 dos 20 grandes concelhos (por ordem de grandeza: Lisboa, Cascais, Braga, Coimbra, Feira, Maia, Famalicão). São mais dois do que tinha (Lisboa e Coimbra).

  • O PCP governa um destes concelhos (Seixal) e nos outros dois são de independentes (Porto e Oeiras).

O que se passou do lado do PS neste clube dos 20 grandes municípios?

  • apesar da vantagem socialista, a tendência é marcadamente de erosão: o PS perdeu votos em 14 destas autarquias;

  • dos 144 mil votos perdidos em todo o país pelos socialistas em relação a 2017, mais de metade (74 mil) sumiu-se nestes 20 municípios;

  • mesmo onde o PS se manteve à frente, a regra foi perder terreno: das 10 câmaras que governa entre as 20 maiores, o PS só em três cresceu em número de votos relativamente a 2017: Almada (+7.293 votos), Loures (+1.040) e Matosinhos (+1.321). Em todas as outras, mesmo mantendo o poder, viu fugir eleitores. Os casos mais preocupantes foram Sintra e Gaia, onde os socialistas perderam, em ambos os casos, mais de 11 mil votos.

  • o maior trambolhão autárquico do PS foi em Lisboa: menos 25 mil votos, que lhe custaram a presidência da câmara (mas desse caso falaremos mais abaixo).

  • Coimbra também mudou de cor, com a perda de 2.412 votos socialistas - mas aí, pesou mais o crescimento da coligação que juntava PSD e outros seis partidos;

  • o segundo maior trambolhão socialista só tem sido menos comentado porque foi numa câmara que o PS já não liderava: no Porto, a lista encabeçada por Tiago Barbosa Ribeiro viu escaparem-se mais de 14 mil votos em comparação com 2017. Ou seja, o PS perdeu na Invicta 45% dos votos que teve há quatro anos. Um arraso.

Então, e o PSD?

  • cresceu em número de votos em 9 das 20 maiores autarquias: Lisboa, Porto, Cascais, Amadora, Oeiras, Matosinhos, Gondomar, Vila Franca de Xira e Coimbra. Nas outras 13 perdeu votos, nalguns casos apesar do empurrão de surgir em coligação;

  • o maior crescimento absoluto e percentual foi em Coimbra - aí, como vimos, os votos são de sete partidos coligados;

  • das câmaras que já eram do PSD, só numa os sociais-democratas conseguiram reforçar a votação: Cascais (+6.421)

  • entre as 5 maiores autarquias que já eram do PSD, em quatro os sociais-democratas mantiveram o poder apesar de terem perdido votos. A queda foi particularmente acentuada em Famalicão (-11 mil votos) e em Braga (-8 mil votos);

  • contas feitas, entre ganhos e perdas, o PSD contabilizou mais 15 mil votos nos 20 maiores municípios (mas só em quatro concorreu sozinho: Porto, Feira, Loures e Seixal)

Ainda falando de tendências: lembra-se que leu lá em cima que o PS domina em dez dos 18 distritos do continente? Olhemos para os cinco mais populosos: Lisboa, Porto, Setúbal, Braga e Aveiro - e aqui vivem quase 6 milhões e meio de portugueses, ou seja, 65% por cento de toda a população do país.

  • o PS só foi o mais votado em dois destes cinco distritos

    • no Porto teve 40,8% - mas perdeu quase 19 mil votos

    • em Setúbal teve 36,1% e um grande salto nos sufrágios: quase 18 mil a mais do que em 2017

    • o distrito de Lisboa é um caso interessante: o PS tem uma quase hegemonia nas presidências de câmara (10 em 16), mas, com 21,8% (menos 16 pontos percentuais do que há quatro anos - foram 54 mil votos perdidos só neste distrito), foi ultrapassado em votos pelo PSD e as suas muitas coligações.

  • as listas do PSD ou lideradas pelo PSD foram as mais votadas nos outros três grandes distritos:

    • no distrito de Lisboa, a multiplicidade de coligações lideradas pelo PSD conquistou 28% dos votos, apesar de só quatro das 16 câmaras do distrito serem laranja. Mas o crescimento das listas lideradas pelos sociais-democratas é impressionante no distrito: mais 55 mil votos do que em 2017, apesar da abstenção ter aumentado. A coincidência de valores significa que foram votos que passaram do PS para o PSD? Não necessariamente - alguns terão passado, mas só Assunção Cristas, em Lisboa, teve 52 mil votos; basta que esses eleitores tenham votado em Moedas, que esse valor conta na coluna do PSD, ao mesmo tempo que desaparece no espólio do CDS.

    • em Braga, o PSD e as suas coligações alcançaram 43,2%, menos 1,6 pontos percentuais do que em 2017 - uma quebra que reflete a perda de 15 mil votos no distrito para as listas laranja;

    • Aveiro continua a ser terreno autárquico do PSD, que sozinho ou acompanhado teve 41,1% - menos 1 ponto percentual e menos 9 mil votos do que nas autárquicas anteriores.

4. Ah!, Lisboa…

Nesta altura do campeonato é difícil acrescentar muito à análise do que se passou em Lisboa. Mas vale a pena focarmo-nos nos dados essenciais:

  • mais do que uma vitória da coligação de Carlos Moedas, foi uma derrota de Fernando Medina. O PS perdeu 25 mil votos no município; a grande coligação liderada pelo PSD acrescentou apenas 2.843 votos aos que tinham sido alcançados pelas candidaturas de Assunção Cristas e Teresa Leal Coelho. Isto não significa que a campanha de Moedas não tenha sido eficaz a mobilizar o seu lado e/ou a desmobilizar o lado socialista - mas a diferença entre as perdas de um e os ganhos de outro é enorme.

  • Por falar em desmobilização socialista: por cada 5 votos que recebeu em 2017, Medina perdeu 1. Para onde foram esses votos? É difícil saber com certeza, mas uma boa parte terá ido para a abstenção. Os dados indicam que nas freguesias onde o apoio ao PS costuma ser maior, a abstenção foi mais alta; ao invés, nas freguesias onde Moedas foi mais eficaz a virar o jogo a seu favor, a abstenção foi mais baixa. O jornal online Mensagem de Lisboa fez um bom trabalho sobre a correlação entre a abstenção e a derrota de Medina. Estes gráficos que Pedro Magalhães divulgou na sua conta de Twitter mostram também essa correlação.

  • O grande crescimento à direita em Lisboa não foi dos partidos tradicionais, mas dos novos partidos:

    • o Chega teve 10.713 votos (4,41%). Não chegou para eleger qualquer vereador, mas elegeu representantes em 10 freguesias. O resultado do Chega ultrapassou os 5% em quatro freguesias, e em Marvila chegou aos 8,8%, e aos 9,6% em Santa Clara - trata-se de dois territórios onde o PS costuma ter bastante apoio, sobretudo junto das populações mais carenciadas dos bairros sociais. É altura de deixar cair a ideia de que o Chega só rouba votos à direita...

    • a Iniciativa Liberal teve 10.238 votos (4,22%). Também não tem vereadores, mas também passa a estar representada em 13 freguesias. Ultrapassou os 5% em cinco freguesias, e numa - Avenidas Novas - chegou aos 6%.

As razões deste resultado em Lisboa podem ser muitas, e vão de questões pontuais e localizadas a questões estruturais que estavam a passar debaixo do radar.

  • Lisboa perdeu quase 17 mil munícipes desde as últimas eleições - na sua maioria é gente que deixou de poder viver na capital por causa dos preços da habitação. Sendo o eleitorado do PS mais concentrado na população mais desfavorecida, é previsível que o PS tenha sido o mais prejudicado por este êxodo.

  • As sondagens de Lisboa não detetaram esta alteração estrutural: quem já saiu de Lisboa não é inquirido para as sondagens sobre Lisboa

  • As sondagens podem ter tido outro efeito: dando todas, sem exceção, a vitória a Medina, podem ter desmobilizado para a abstenção eleitorado potencial do PS, pois a eleição “estava ganha”, e libertaram outro eleitorado de esquerda, pois não havia a necessidade do voto útil. Recorde-se que PCP e BE fizeram toda a campanha contra o risco da maioria absoluta de Medina, e a posicionarem-se para futuros parceiros em caso de maioria relativa. Por muito que Rui Rio vocifere contra as sondagens, é possível que o PS tenha sido mais prejudicado por estas. Afinal, como é dito aqui, “ir à frente [nas sondagens] não é uma vantagem”.

  • As sondagens também não notaram a subida do Chega em freguesias como Marvila e Santa Clara. Aliás, as sondagens ainda não apanham bem o fenómeno Chega, talvez porque muitos dos seus eleitores serão um voto envergonhado…

  • E terá havido inúmeras irritações em relação a Medina, desde os automobilistas que não querem bicicletas nem ciclovias, aos fregueses de Arroios que não suportavam mais a prepotência de Margarida Martins, aos moradores do Lumiar e Telheiras que se sentem prejudicados pela futura linha circular do Metropolitano - um sem fim de argumentos que Moedas soube agarrar de forma eficaz.

Ainda sobre Lisboa, e a polémica das sondagens, leia este texto aqui do ECO, assinado pelo António Larguesa.

5. A pandemia não foi uma arma...

A poucos dias das eleições, a jornalista Liliana Valente fez no Expresso um bom ponto de situação das linhas com que se cosia a campanha socialista: “A pandemia é uma arma. Tudo depende da ‘bazuca’ e da pontaria”. E explicava como António Costa, onde fosse (e foi a todo o lado) era apresentado como “o homem que nos ajudou a combater a pandemia [de] Covid 19” e apresentava-se como o homem da bazuca, disparando milhões por terras sem fim.

Já lá vamos à bazuca, foquemo-nos primeiro na pandemia. Não foi o argumento eleitoral que muitos acreditavam que seria. Se fosse, dificilmente o PS perderia 144 mil votos no país. E não haveria razão para Medina perder 25 mil votos em Lisboa. Nenhuma autarquia se compara a Lisboa nas verbas que disponibilizou e nas iniciativas que lançou de combate à pandemia e de apoio às famílias e negócios mais afetados - muitas delas, ideias pioneiras no momento em que foram anunciadas, como os testes gratuitos nas farmácias, primeiros para os munícipes, depois também para quem trabalha na cidade. Os apoios à restauração, por exemplo, complementaram aquilo que ia falhando nas medidas do Governo.

Em Abril o Público fez contas e concluiu que Lisboa gastou com a pandemia 15 vezes mais do que o Porto. E o Porto, note-se, também fez bastante trabalho nesta frente - e apesar disso Rui Moreira perdeu 10 mil votos. Esta foi a comparação então publicada pelo Público, relativa às maiores autarquias. Em todas os incumbentes perderam votos, com uma excepção: Carlos Carreiras, em Cascais.

Apesar de Carreiras e de mais um punhado de excepções (como Isaltino Morais ou Inês de Medeiros) a regra parece ser que a pandemia contou pouco na hora do voto. Que o diga Bernardino Soares, um dos autarcas mais ativos na frente pandémica - nomeadamente na campanha de vacinação -, e que saiu derrotado. Há outro caso curioso: Salvador Malheiro, em Ovar.

Poucos autarcas terão tido mais impacto nacional no contexto da pandemia do que este vice-presidente do PSD - protestando contra a cerca sanitária, exigindo medidas ao Governo, arregaçando as mangas no terreno. A tal ponto que Marcelo o apontou como um caso “exemplar” e “um herói”. Pelo menos uma revista del corazón fez uma reportagem sobre “o descanso do heróis de Ovar ao lado da mulher”.

Mas na noite eleitoral, Salvador Malheiro foi menos heroico do que parecia: renovou a maioria absoluta em Ovar, mas perdeu 8 pontos percentuais (caiu de 65% para 57%) e 3 mil votos. Neste caso, nem a tendência nacional favorável à direita o beneficiou.

Se a pandemia foi uma guerra, a pressa do Governo em declarar o fim da guerra e o dia da libertação pode ter libertado os eleitores desse peso e da necessidade de reconhecer o trabalho feito. Ganha a guerra, as pessoas pensaram noutras coisas. Churchill sabia bem como isso é.

6. ...e a bazuca não acertou no alvo

Da mesma forma que a pandemia, também a bazuca não parece ter sido a arma de compra massiva de votos que as oposições temiam. Rui Rio, temendo uma mortandade eleitoral, apressou-se a denunciar que os milhões do Programa de Recuperação e Resiliência não eram uma bazuca mas, mais grave, eram uma HK21, uma metralhadora que “dispara de rajada”. “A HK21 tem uma fita, e aquilo carrega-se, tem dois pés à frente, e aquilo dispara que nunca mais para, tatatatatatata”.

Disparar, Costa disparou, e bastante. Este parágrafo publicado por Nuno Gonçalo Poças no Observador é só uma pequena amostra da razia de Costa pelo país: “Deixo aqui exemplos – não são novos, já toda a gente falou sobre eles, mas será bom relembrar alguns. António Costa anuncia 5% do PRR para a Madeira. Secretário-geral do PS reuniu os presidentes da Área Metropolitana de Lisboa e lembrou que existem 2750 milhões de euros para resolver os problemas de habitação do país. António Costa promete mais mil milhões de euros para os municípios. António Costa promete nova maternidade em Coimbra. António Costa promete duplicar fundos europeus destinados ao Algarve. António Costa promete não esquecer Penafiel e diz que IC35 vai ser uma realidade. Secretário-geral do PS promete financiar 20 mil postos de trabalho no interior. Costa promete mais condições para jovens emigrados que queiram regressar. António Costa promete dinheiros europeus para a ciência. António Costa promete mais 10 mil lugares de creche e apoios às famílias com mais filhos.”

Não temos contrafactual: que resultados teria o PS se António Costa não andasse a prometer milhões em cada esquina? Poderia ter sido pior? Poderia. Mas este não foi grande coisa. Coimbra é uma lição: nem a promessa de uma maternidade garantiu a reeleição do socialista Manuel Machado.

7. O Chega quando nasce é para todos

Com 4,1% a nível nacional, 208 mil votos e 19 vereadores eleitos, sobretudo no centro e sul do país, pode dizer-se que o Chega teve uma estreia auspiciosa em eleições autárquicas. Mais ainda se compararmos com as dificuldades dos outros partidos não fundadores da democracia, que nunca conseguiram implantação local. Ventura batizou o domingo passado como o “dia da implantação local”.

Neste ensaio para o Observador (que também faz um bom retrato do que se passou em Lisboa), Jorge Fernandes e Mafalda Pratas fazem um interessante exercício comparando os partidos da segunda divisão do campeonato autárquico: aí, o Chega é claramente o campeão, deixando bem para trás até o BE.

É verdade que André Ventura ficou longe do objetivo de ser a terceira força autárquica, e ficou a meio caminho do seu próprio resultado nas eleições presidenciais (quando teve 11,9% e quase meio milhão de votos). Mas, visto por outro lado, o Chega mais do que triplicou o resultado das legislativas de 2019 (1,3%; 67 mil votos)

Segundo este texto da Lusa, republicado pelo Observador, o Chega teve melhores resultados em concelhos onde o poder de compra está acima da média nacional, mas também onde a criminalidade registada é igualmente acima da média. Trata-se ainda de concelhos onde vivem menos idosos, mais jovens até aos 15 anos e mais população de origem estrangeira do que na média nacional.

A Sábado fez outras contas, neste trabalho: o Chega tem os melhores resultados onde a abstenção é mais alta. Ou seja, estará a conseguir mobilizar a sua base que, embora ainda seja pequena, se mostra motivada para ir votar, ao contrário dos partidos mainstream que estão a perder eleitores para a abstenção. Onde a abstenção é mais alta, esse efeito é mais notório. Já o tínhamos nota acima, nalgumas freguesias de Lisboa.

E há diversos territórios onde o Chega se afirmou como terceira força política - foi o caso de Sintra, que é “só” o segundo município mais populoso do país. Nuno Afonso, coordenador autárquico do Chega e candidato a esta câmara, conseguiu ficar à frente do PCP, historicamente um partido com força em Sintra. Aliás, foi por causa do Chega que Basílio horta perdeu a maioria absoluta: os 11 mil votos que o PS perdeu coincidem com os mais de 11 mil que o Chega arrebatou. Quanto ao PSD, continuou em segundo, mas perdeu 2.500 votos.

André Ventura já colocou como primeira condição para acordos autárquicos a pressão sobre as famílias de origem cigana, cavalgando um dos bichos-papões do Chega.

Com vereadores em 19 autarquias, em dez o Chega pode ser a chave da governabilidade, como se lê aqui. A saber: Moita, Seixal e Benavente (CDU) Moura, Entroncamento, Sintra, Azambuja, Vila Franca de Xira (PS) e Santarém (PSD), o único vereador do Chega pode ser decisivo para fazer maiorias.

De todas estas, apenas em Santarém um acordo pode ter pernas para andar, entre o presidente de câmara reeleito, Ricardo Gonçalves, do PSD, e o vereador do Chega - nada menos do que Pedro dos Santos Frazão, vice-presidente do partido de extrema-direita. Como aconteceu nos Açores com o acordo entre o PSD e o Chega… (será que a lição de Angela Merkel sobre fazer um cordão sanitário em torno da extrema-direita para a tornar inútil nunca será compreendida por Rui Rio, que tanto diz admirar a ainda chanceler?)

Sobre o papel que a extrema-direita poderá vir a ter depois do teste das autárquicas, recomendo a entrevista ao Público de António Leitão Amaro, antigo deputado do PSD e um dos elementos do núcleo-duro que definiu a estratégia vencedora de Carlos Moedas em Lisboa, onde nem o Chega nem a IL cresceram o suficiente para eleger vereadores.

“Nós vemos esse crescimento num extremo do espetro partidário, do Chega, mas vemos um abatimento, uma queda abrupta, no outro extremo do espetro partidário. O Bloco de Esquerda tem uma queda terrível, sem corresponder a um crescimento nem da CDU nem do PS, e a CDU também perde. Portanto não me surpreenderia muito que o crescimento do Chega estivesse ligado nestas eleições ao abatimento do outro extremo. Relativamente às opções e ao futuro do Chega: a resposta que Carlos Moedas deu é muito adequada. (...) Nós temos o nosso programa e a nossa visão do mundo, que é inclusiva, aberta. O Chega tem de fazer o seu caminho e nós temos de fazer o nosso.”

Nota: Editado às 00h00 com a substituição de três parágrafos repetidos no ponto 5, relativo à pandemia.

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