Histórias de uma eleição

O ECO publica a introdução do livro de Carlos Guimarães sobre a Iniciativa Liberal e os bastidores das legislativas. "Esta é uma história improvável e uma experiência de vida difícil de esquecer".

O liberalismo é a corrente política com maior sucesso nos países desenvolvidos. Valores liberais como o comércio livre, a separação de poderes, as liberdades individuais, o mercado livre, a democracia, a liberdade de escolha, a descentralização, a liberdade de expressão, a igualdade perante a lei e muitos outros tornaram-se centrais naquilo a que hoje chamamos civilização ocidental e foram essenciais ao desenvolvimento de muitos países. Hoje podemos estabelecer uma relação quase direta entre o desenvolvimento pleno em diferentes países do Mundo e o grau de adopção destes valores. Alguns países, como no antigo bloco de leste, assim que começaram a adoptar estes valores deram saltos de desenvolvimento impensáveis alguns anos antes. Um pouco por todo o mundo, vários milagres económicos e políticos começaram ou reforçaram-se com a adopção de valores liberais.

Apesar das evidências, em Portugal o liberalismo foi sempre maltratado pelo espectro político da esquerda à direita. Em 1995, num congresso do PSD, Luís Filipe Menezes usou o epíteto “liberal” para insultar adversários políticos internos. Apesar do sucesso do liberalismo um pouco por todo o mundo, “liberal” ainda é uma palavra maldita no vocabulário político no país. A esquerda usa-o como um insulto, a direita foge do termo ou disfarça-o com sufixos mais ou menos ridículos. Muito poucas pessoas na esfera pública arriscavam a definir-se como liberais. No panorama mediático não haverá mais de 4 ou 5 pessoas a fazê-lo.

Durante anos andei a ler e escrever sobre liberalismo, tentando desmistificar o termo. Sabia que era uma luta inglória, mas fazia-o pelo mesmo motivo que muitos travam lutas inglórias: pelo prazer de as lutar. Comigo, e antes de mim, outros também o fizeram com destreza. Apesar de sermos poucos a fazê-lo, conseguimos lentamente formar uma corrente de opinião. Multiplicaram-se o número de encontros dedicados a temáticas liberais e plataformas de divulgação, mas era ainda um grupo muito pequeno e fechado. A esmagadora maioria das pessoas só se interessa por política na altura de votar e só pensa nos temas se sentirem que podem ser consequentes, nomeadamente se houver um partido a defendê-los. O próximo passo, embora não consensual, era formar um partido. Depois de anos de indecisões, um grupo de pessoas não hesitou e formou um partido.

Eu não fiz parte desse grupo, mas alguns meses depois da formação do partido acabaria de forma inesperada (já lá vamos) por me tornar presidente desse partido com uma missão principal: de um pequeno núcleo de algumas dezenas de pessoas, convencer umas dezenas de milhares dos benefícios do liberalismo e levá-las a votar. Tinha um ano para o fazer.

Autor: Carlos Guimarães Pinto. Editora: Aletheia

Comecemos pelo fim

6 de Outubro de 2019, 20 horas no Continente e na Madeira, 19 nos Açores, saem as primeiras sondagens à boca das urnas. Todas davam como certa a eleição de um deputado pela Iniciativa Liberal. Algumas davam como possível a eleição de um segundo e até de um terceiro deputado, algo que não se viria a concretizar. No quartel general para essa noite, na extraordinariamente bem escolhida House of Hope and Dreams, reinava a incredulidade. Lá fora os apoiantes festejavam efusivamente. Cá dentro, numa sala fechada reservada ao núcleo duro do partido, a tarde tinha sido passada em discussões complicadas sobre o futuro. O contraste entre as discussões difíceis daquela tarde e os resultados extraordinários das sondagens à boca das urnas deixavam-nos num limbo de emoções. Esse limbo era bem representativo do ano de trabalho que nos tinha trazido até ali.

O sistema eleitoral português é um cemitério de pequenos partidos. Quase 20 pequenos partidos tinham tentado sem sucesso eleger deputados neste século, mas apenas um, o PAN, o tinha conseguido até 2019. O sistema eleitoral é pouco proporcional e desenhado à medida dos grandes partidos. A barreira de eleição é demasiado elevada e praticamente só em Lisboa (e também no Porto, embora mais complicado) pode sequer haver o sonho de um pequeno partido eleger um deputado. As regras de financiamento partidário e de campanhas eleitorais favorecem também bastante os partidos incumbentes, mais uma vez desrespeitando o princípio da proporcionalidade e igualdade de oportunidades. Mesmo partidos com figuras mediáticas de proa (como o PND de Manuel Monteiro, o Livre de Rui Tavares ou o PDR de Marinho e Pinto) ou outros bem estruturados e/ou financiados (como o NC, MEP ou o MMS) tinham falhado nesse objetivo.

O mais extraordinário neste feito, e o que faz com que tenha sido uma história longa, é que num ambiente político tão focado em pessoas, a Iniciativa Liberal conseguiu este sucesso com um líder – eu – que não só não era mediático como era pouco mediatizável: gago, um pouco tímido e sem grande vontade de exposição.

Carlos Guimarães Pinto

Contrariando a história partidária portuguesa, a Iniciativa Liberal, menos de dois anos depois de aparecer e menos de um ano depois de uma mudança de liderança, conseguiu eleger um deputado de forma confortável. A história de um novo partido com algum sucesso normalmente é curta e pode resumir-se numa frase: “Uma pessoa conhecida do grande público decide fundar um partido e os eleitores votam no carisma dessa pessoa”. Não foi o caso da Iniciativa Liberal.

O mais extraordinário neste feito, e o que faz com que tenha sido uma história longa, é que num ambiente político tão focado em pessoas, a Iniciativa Liberal conseguiu este sucesso com um líder – eu – que não só não era mediático como era pouco mediatizável: gago, um pouco tímido e sem grande vontade de exposição. Mais habituado a escrever do que a falar, sem grandes preocupações com a imagem e pouco polido nas suas intervenções públicas nas redes sociais, dificilmente corresponderia ao perfil de sonho para líder de um partido. Ter estado fora do país durante grande parte da vida profissional também não tinha ajudado a criar uma rede de “amigos” na imprensa e entre potenciais financiadores que pudessem ajudar. Ainda para mais, vivia longe de Lisboa, onde estas redes de contactos são mais fáceis de estabelecer. Ao lado do líder, pessoas com pouca ou nenhuma experiência política, a trabalhar a tempo parcial de forma voluntária. Dificilmente alguém diria que esta seria a receita de um sucesso eleitoral.

A verdade é que foi. Seria fácil para mim vir aqui dizer que sempre acreditei e que sabia que isto ia acontecer. A realidade é que não só não acreditei quase até ao fim como ainda hoje me custa a acreditar. Quase tudo foi feito como os livros diriam para não fazer: o líder, a campanha e a teimosia em defender ideias impopulares. Mas tudo isto só torna o feito ainda mais notável.

Apesar de ter sempre duvidado sobre a possibilidade de obter um bom resultado eleitoral, houve uma coisa que nunca coloquei em questão: As linhas mestras do plano desenhado ainda antes de ser eleito líder do partido. Eu nunca duvidei que aquele plano que seguimos era o plano certo. Nunca duvidei, não por ter a certeza que teria os resultados eleitorais que acabou por ter, mas porque cumprir o plano era um objetivo em si mesmo, independentemente dos resultados. Se naquela noite de 6 de Outubro os resultados tivessem sido outros, teria ainda assim valido a pena fazer aquele percurso, comunicar aquelas ideias, publicar aqueles quadros nas redes sociais, ter aqueles cartazes e trazer aquelas pessoas para a política. Transmitir aquelas ideias, daquela forma com aquele tipo de pessoas, teria sido um feito em si mesmo. Fazer política da forma como eu achava que a política deveria ser feita seria uma vitória em si mesmo. Os resultados eleitorais foram a cereja em cima do bolo. Uma grande cereja, é verdade, uma cereja que permitirá construir um bolo ainda maior, mas ainda assim apenas a cereja. Percorrer aquele percurso e cumprir aquele plano, resistindo às várias tentações que foram aparecendo para nos desviarmos, era um objetivo em si mesmo.

Nas próximas páginas [A Força das Ideias. Histórias de uma Eleição, já disponível em ebook] irei descrever esse percurso. Em retrospetiva, parece um percurso fácil e óbvio, mas sem o benefício da retrospetiva nunca o foi. Houve dúvidas e tensões a cada passo. Houve planeamento, mas também algum improviso. Houve festa, mas também tensão. Houve camaradagem, mas também conflitos. Houve momentos de extraordinária alegria, mas também momentos de grande tristeza. Em alturas cruciais desta história os momentos de alegria e tristeza estiveram tão próximos que quase se fundiam num só. Mas não irei estragar já as partes mais interessantes do livro. Esta é uma história improvável e, para mim, uma experiência de vida difícil de esquecer.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico

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