A “guerra fria” com a China está a aquecerpremium

As relações político-diplomáticas entre o Ocidente e a China estão a degradar-se. E não, esta não se trata de matéria de relações internacionais que nos diz pouco respeito - tem muito a ver connosco.

A omnipresença noticiosa da pandemia, primeiro, e do caso Sócrates, agora, tem desviado atenções de assuntos que, noutras circunstâncias, teriam tudo para dominar os ciclos informativos. A rapidez com que se estão a deteriorar as relações entre o Ocidente e a China é talvez o mais extraordinário desses assuntos.

Esta semana, um relatório dos serviços secretos norte-americanos classifica a China como maior ameaça aos Estados Unidos e aos seus aliados. Mais abaixo olharemos com algum detalhe para esse documento, que sistematiza anualmente os riscos colocados por outras potências aos EUA e aos países que lhe são próximos, tanto na Europa e América do Norte, como no Pacífico. A lista dos maiores perigos coloca a China à frente de um ranking em que se seguem a Rússia, o Irão e a Coreia do Norte. Ou seja, a versão revista e atualizada do “eixo do mal”.

Outros dois acontecimentos também desta semana relevam a importância do que se está a passar entre Washington e Pequim:

  • Joe Biden anunciou que em setembro termina, de vez, a "guerra eterna" no Afeganistão, lançada por George W. Bush, prosseguida por Barack Obama e da qual nem Donald Trump, apesar das promessas, foi capaz de sair. Os últimos três mil americanos no terreno saem até 11 de setembro. O que é que isto tem a ver com a China? Realinhamento de prioridades e de recursos - e mais atenção à China. É essa a análise do New York Times: "A decisão de Biden torna claro que, na sua opinião, a competição com a China se sobrepõe à ideia de que com mais uns anos no Afeganistão, e mais uns milhares de milhões de dólares, os EUA poderiam conseguir, com uns milhares de soldados, o que nunca alcançaram" em vinte anos, com centenas de milhares de tropas e muitos milhões de dólares investidos. Ou seja, há uma guerra que está perdida, mas há outra que os EUA não se podem dar ao luxo de perder. E, noutra latitude, persiste a ameaça russa, a concentrar cada vez mais tropas na fronteira com a Ucrânia (a ler: esta análise do Jorge Almeida Fernandes).
  • Biden recebeu na Casa Branca o seu primeiro visitante internacional desde que tomou posse. O escolhido foi o primeiro-ministro japonês, Yoshihide Suga. Na agenda bilateral, a China ocupa lugar de destaque, conforme os dois países reafirmam uma aliança de segurança e defesa, e uma parceria tecnológica. Um "forte vínculo" (palavras de Tóquio) que terá se ser capaz de contrabalançar a ameaça colocada pela ascensão de Pequim. Nas declarações após o encontro, Suga colocou-se ao lado dos americanos na resistência à "coerção" chinesa.

E não, esta não se trata de matéria de relações internacionais que nos diz pouco respeito - tem muito a ver connosco. Desde logo, porque a forma como a China tem engrossado a voz na relação com os países da União Europeia e da América do Norte também nos toca - não só por se tratar do maior exportador mundial, o segundo maior importador mundial, um mercado crescente para exportações portuguesas, e a origem de importantes investimentos em Portugal em áreas críticas - uns já consumados (como a EDP, a REN ou a diversificada carteira de compras da Fosun, que vai da saúde à indústria farmacêutica, dos seguros à banca, passando por imobiliário e telecomunicações), e outros em vista, como o novo terminal do porto de Sines.

Também nos diz respeito porque Portugal não está fora do radar das operações de ciberespionagem levadas a cabo pela China (e igualmente pela Rússia), conforme era noticiado há dias numa manchete do Público. E leu as notícias sobre as novas regras de amor à pátria chinesa impostas aos jornalistas da Rádio Televisão de Macau? E viu a forma como a Comissão de Negócios Estrangeiros, na Assembleia da República, tratou de desvalorizar as limitações cada vez mais evidentes às liberdades de imprensa em Macau, tal como já tinha acontecido em Hong Kong, contrariando os acordos bilaterais e a Lei Básica do antigo território administrado por Portugal? Não há acasos…

Uma sucessão de casos

Basta uma olhadela rápida aos sites e jornais internacionais para perceber o quanto a temperatura está a aquecer no que diz respeito à China. Eis meia dúzia de notícias das últimas semanas, num levantamento nada exaustivo:

  • As manobras marítimas das forças de Pequim no Mar do Sul da China têm sido interpretadas como provocações intencionais e fizeram soar alarmes nas Filipinas e em Taiwan. As Filipinas, que oscilam entre a denúncia de abusos e a vontade de ensaiar um namoro diplomático com a China, acusam agora Pequim de estar a ocupar áreas reivindicadas pelos dois países no Mar do Sul. Centenas de embarcações, alegadamente de pesca, mas que na verdade são uma milícia marítima chinesa, têm-se concentrado na zona, e entretanto foram descobertas estruturas ilegalmente construídas numa dessas áreas de recife. A manobra chinesa não é inédita: o país reclama soberania sobre quase todo o Mar da China e no passado construiu e ocupou ilhas artificiais, onde tem instalado pistas, sistemas de radar e mísseis.
  • Os Estados Unidos garantem que, em caso de ataque militar chinês, irão ativar o Tratado de Defesa Mútua, em socorro dos seus aliados. Uma força da marinha americana foi enviada para o local no início deste mês, liderada pelo porta-aviões USS Theodore Roosevelt.
  • A pressão militar também chega pelo ar. Taiwan e o Japão denunciaram invasões repetidas do espaço aéreo pela aviação chinesa. No caso de Taiwan, chegaram a ser identificadas 20 aeronaves a invadir o espaço aéreo num só dia, incluindo caças e bombardeiros.
  • O receio de que a China esteja a preparar uma invasão da ilha rebelde deixaram de ser apenas teóricos, e têm cada vez mais indícios factuais.
  • Depois de Trump ter declarado guerra às grandes tecnológicas chinesas, como a Huawei, por desconfiar da sua relação com a hierarquia política e militar do país, Joe Biden segue no mesmo caminho: engrossou a lista negra do Departamento de Comércio dos EUA em relação a empresas chinesas de tecnologia que tenham ligações ao aparelho militar - o que significa que fortes restrições para companhias ou investidores americanos que queiram relacionar-se com essas empresas.
  • Entretanto, a China aumentou a sua influência na explosiva região do Golfo, ao assinar um acordo de cooperação com o Irão, que está sob forte pressão dos EUA. O acordo, que representa um balão de oxigénio para Teerão, prevê investimentos chineses em infraestruturas, na indústria e no setor petroquímico, mas também prevê cooperação militar e entre serviços secretos.
  • Na frente financeira, também está em curso uma ofensiva chinesa que pode moldar o futuro das grandes moedas mundiais, e que teve recentemente um novo impulso. Com os investidores globais enfeitiçados com as promessas de lucro rápido graças às criptomoedas, a China pode bem vir a tornar-se o grande jogador mundial nesse tabuleiro, graças ao yuan virtual (o nome rigoroso da moeda chinesa é renmimbi, pois yuan é uma unidade de conta, mas em muitos países, como por cá, convencionou-se chamar yuan à moeda -- Paul Krugman escreveu uma vez sobre esta confusão, dizendo que os dois nomes são uma “trama sinistra” dos chineses “para evitar que as pessoas discutam a política cambial chinesa”). Este longo artigo do Financial Times explica-lhe o plano por detrás desta criptomoeda made in China: o país quer ser a primeira grande economia do mundo a apostar numa moeda virtual, colocando-se numa posição de liderança que lhe permita estabelecer padrões mundiais nessa corrida. Para além de ambicionar que o yuan eletrónico compita com o dólar enquanto grande moeda de reserva global, esta aposta permitirá às autoridades chinesas mecanismos acrescidos de vigilância e monitorização do que fazem biliões de pessoas, mas também investidores e países. Não parece um mau plano - apenas perigoso.
  • Por falar em vigilância: em Hong Kong, o cerco à democracia é cada vez mais asfixiante. Para além da prisão de opositores, da proibição de um conjunto de direitos - como de manifestação -, de ter posto um garrote na comunicação social local, as regras das eleições locais foram alteradas, de forma a garantir que só sejam eleitos candidatos aprovados por Pequim.
  • Agora, a atenção em Hong Kong vira-se para as escolas. A tradição educativa fundada no liberalismo britânico morreu de vez - a atual geração que frequenta o secundário será a última a ser educada segundo princípios liberais, democráticos e cosmopolitas. O Financial Times fala sobre o novo currículo escolar aprovado para o território, destinado a formar, desde a primária, cidadãos disciplinados e plenos de amor à pátria. Nem as escolas internacionais fogem às novas regras, e já começaram as denúncias e saneamentos de professores “prevaricadores”. “É como se tivesse uma forca sobre a minha cabeça”, testemunha uma professora primária.

Uma ameaça “económica, militar e tecnológica”

O principal relatório anual dos serviços secretos norte-americanos sobre ameaças à paz e estabilidade nos EUA e países aliados, conhecido esta semana, é muito claro sobre a nova centralidade de Pequim. “A China é cada vez mais um concorrente próximo, desafiando os Estados Unidos em múltiplas arenas - sobretudo económica, militar e tecnologicamente - e está a pressionar para uma mudança nas normas globais”, lê-se no documento.

O relatório não vai ao ponto de prever um confronto militar com a China, nem com a Rússia, mas indica que as chamadas batalhas de zona cinzenta pelo poder - espécie de nova guerra fria, sempre a um passo de uma guerra total - se intensificarão, com operações de espionagem, ataques cibernéticos e disputas globais por influência.

Uma parte da estratégia chinesa será decalcada do que a Rússia fez nos últimos anos: acicatar e aproveitar divergências entre os EUA e os seus aliados tradicionais, explorando o mal-estar que ficou no rasto dos anos Trump e semeando desconfiança através de operações de hackers apoiados por Pequim.

O atual clima de nacionalismo das vacinas é um dos pontos de discórdia que a China está pronta a acicatar, para projetar o seu soft power. Por um lado, o sucesso chinês no combate à pandemia permite-lhe apresentar-se ao mundo como “um sistema superior”. Por outro, as ofertas de fornecimento de vacinas a baixo preço têm sido aceites por países de rendimentos mais baixos, mas também estão a ganhar adeptos entre países da União Europeia.

No plano militar, as ameaças estão bem identificadas: o expansionismo chinês em toda a região do Mar do Sul da China, com constantes provocações e intimidação a países rivais. Este texto faz um bom resumo das razões por que o Mar do Sul da China se tornou um barril de pólvora global. São sobretudo duas:

  • A crescente militarização da região, liderada pela China
  • As disputas territoriais, alimentadas sobretudo pela pretensões expansionistas de Pequim.

A tentação de “resolver” a questão de Taiwan

E há, claro, a magna questão de Taiwan. A administração Biden decidiu recentemente manter e reforçar a política de Trump em relação aos contactos entre representantes norte-americanos e das autoridades taiwanesas. No final do seu mandato, a anterior administração decidiu eliminar as restrições aos contactos entre delegações americanas e de Taiwan - que, durante décadas, aconteceram sob normas rígidas de protocolo, numa dança diplomática coreografada para não antagonizar de frente com Pequim, que reclama a soberania sobre o território, que tem autogoverno desde 1949.

Biden clarificou as normas, e decidiu “liberalizar os contactos com Taiwan, de forma consistente com as relações não-oficiais” entre os dois governos. E fez mais: esta semana enviou a Taipé uma delegação que, embora com o rótulo de “não oficial”, é de alto nível, incluindo dois antigos sub-secretários de Estado e um ex-senador. Com este gesto, Biden quis dar um “sinal pessoal” de empenho dos EUA em relação à ilha e à sua democracia.

O presidente americano está convicto de que Xi Jinping poderá estar mesmo a namorar a ideia de reanexar Taiwan, de acordo com um artigo publicado no mês passado pelo Financial Times. “A China parece estar a evoluir de um período em que estava satisfeita com o status quo em relação a Taiwan, para um período em que está mais impaciente e mais preparada para testar os limites e ‘flirtar’ com a ideia de unificação”, disse um responsável da administração norte-americana citado pelo jornal. A ambição do presidente Xi, à beira de um terceiro mandato, pode ser engrandecer a sua marca, deixando como herança uma China reunida. “Ele parece disposto a assumir mais riscos”, admite a mesma fonte.

Se assim for, e se a China estiver disposta a chegar ao ponto de usar a força militar para “resolver” a questão de Taiwan, terá o Ocidente força e vontade de travar essas tentações? No mês passado, Kevin Rudd escreveu um ensaio na Foreign Affairs sobre como evitar uma guerra (guerra mesmo, não no sentido figurado) com a China. Quando um ex-primeiro-ministro australiano (agora ligado a um think tank de relações internacionais) escreve um longo texto com recomendações precisas sobre como evitar uma escalada militar envolvendo a nova superpotência global, isso dá que pensar...

A "guerra" dos chips também passa por Taiwan

A Formosa não é apenas o palco de um dos mais arriscados jogos de nervos da geopolítica mundial. É também o cenário de uma competição global por microchips - um bem que, neste momento, é escasso para a procura existente e, por isso, precioso (até a Autoeuropa teve de parar a produção por isso, lembra-se?). Uma das empresas tecnológicas que os EUA colocaram esta semana na lista negra, por terem relações íntimas com o aparelho militar chinês é a Phytium Technology, um dos grandes produtores mundiais de unidades de processamento usadas tanto em supercomputadores como em computadores pessoais - e uma das peças centrais na estratégia chinesa de se tornar autosuficiente em relação a componentes críticos de microchips.

No meio do conflito EUA/China, foram apanhadas duas empresas de Taiwan que têm muitos interesses na Phytium. A Alchip Technologies, um importante designer de chips, anunciou de imediato a suspensão dos negócios com a empresa chinesa - mas a escolha entre os Estados Unidos, que são o maior cliente mundial de chips, e a China, que é o mercado em maior expansão mundial, não é fácil.

É com essa escolha que está confrontado o maior produtor mundial de chips, a TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company)… precisamente uma companhia taiwanesa. A ligação da Phytium à Alchip levou também a uma colaboração estreita com a TSMC, a quem a empresa chinesa entrou o outsourcing de uma parte da sua produção. E com o mundo a precisar de microchips para automóveis, computadores, smartphones e inúmeros outros fins, a TSMC viu-se no olho do furacão entre os dois principais competidores pela supremacia tecnológica mundial. E também pela supremacia militar.

Segundo uma notícia do Washington Post, a Phytium fornece microships para sistemas de armamento de ponta utilizado pelo Exército do Povo Chinês - incluindo sistemas de mísseis que podem ser utilizados para atacar interesses americanos, ou qualquer aliado dos EUA no Pacífico, incluindo Taiwan. Com a agravante de que esses componentes terão sido desenvolvidos nos EUA, sendo produzidos pela TSMC, o tal megaprodutor baseado em Taiwan.

Segundo o Financial Times, a pressão americana sobre a empresa é clara: terá de abandonar o seu historial de neutralidade e escolher um lado. Sendo certo que, em 2020, 60% das vendas da TSMC tiveram como destino os Estados Unidos, e apenas 20% foram para a China. Mas a China é o mercado que mais cresce… e é o gigante que está ali ao lado...

Uma nova Guerra Fria?

A ideia de uma nova Guerra Fria tornou-se um lugar comum nos últimos anos, com a China a ocupar o lugar que era antes da URSS na competição pela hegemonia mundial com a outra superpotência, os Estados Unidos.

Há, de facto, várias coincidências que alimentam esta perceção, algumas delas assinaladas nesta análise de Janan Ganesh. Eis a parte em que a história parece repetir-se:

  • O embate entre duas superpotências que disputam alinhamentos globais, muitas vezes seduzindo aliados através do apoio económico;a tentação expansionista da China em relação aos territórios vizinhos;
  • O discurso norte-americano sobre a necessidade de “conter” o avanço da outra superpotência;
  • O papel assumido por Washington enquanto líder do “mundo livre”, contra uma ditadura comunista (os EUA classificaram a China como a maior ameaça à liberdade mundial desde a II Guerra Mundial);
  • A corrida ao armamento e à inovação e supremacia tecnológica;
  • As manobras de desestabilização de adversários, já não apenas com os velhos espiões, mas através de operações de ciberguerra;
  • O absoluto culto de personalidade do grande líder, com Xi Jinping a pôr-se nas botas que foram de Mao e Deng Xiaoping;
  • As purgas sucessivas de eventuais críticos ou adversários do grande líder chinês.

Mas a mesma análise que referi acima também sublinha os riscos desta equiparação demasiado simplista. Antes de mais, porque o mundo mudou radicalmente, e os EUA mudaram imenso também.

Este artigo do Guardian, já com uns meses, aponta três razões principais por que a atual situação não é comparável ao confronto EUA/URSS:

  • A Guerra Fria foi um confronto ideológico entre dois modelos de modernidade, duas visões do mundo, da história e do processo histórico: o capitalismo e liberalismo dos EUA, com mercado livre, consumo massificado e aumento constante de produtividade, vs a sociedade socialista, com poucas liberdades individuais, economia centralizada e planificada, e o Estado a providenciar educação, saúde e outros benefícios sociais. Este antagonismo ideológico não existe atualmente.
  • Na Guerra Fria a geopolítica cruzava-se com a ideologia: as duas superpotências lutavam por implementar, nas respetivas áreas de influencia globais, os seus modelos de modernidade, recorrendo a todos os meios - políticos, económicos e militares. O coração dessa disputa global era a Europa, palco do choque entre a NATO e o Pacto de Varsóvia. Foi na Europa que o vencedor ficou definido. Este eurocentrismo já não existe.
  • A terceira grande diferença tem a ver com a globalização. A Guerra Fria era o reflexo de um mundo em que as interdependências económicas entre blocos simplesmente não existiam: cada lado fazia por excluir o outro, questionar a sua própria existência e legitimidade. O equilíbrio só foi possível quando, por força da corrida ao armamento - sobretudo aos arsenais nucleares - a ameaça de destruição mútua se tornou numa espécie de abraço mortal. Mas a rutura entre os dois lados era total: militar, mas também diplomática, tecnológica, comercial, económica e financeira. Nem as trocas comerciais simbólicas, nem os intercâmbios culturais, nem as linhas de crédito, que foram surgindo aos poucos como sinais de desanuviamento chegaram aos calcanhares da intrincada interdependência que se criou entre China e Estados Unidos nas últimas décadas.

Uma globalização made by China e EUA

Boa parte do processo global de integração das últimas décadas a que nos habituámos a chamar globalização teve no seu centro a relação entre os Estados Unidos e a China. “A interação entre os dois países tornou-se tanto um resultado como um motor decisivo da globalização”, escreve Mario del Pero, professor de história internacional, especialista na história da Guerra Fria em SciencesPo, na Sorbonne.

Esta diferença é fundamental para perceber o quanto a analogia da Guerra Fria é desadequada para o atual conflito entre as duas novas superpotências.

Se se tratasse apenas de uma estratégia dos EUA com os seus aliados do Pacífico para conter a expansão militar da China, a analogia até podia servir: Pequim tem feito um esforço de modernização do seu aparelho militar e aumentado a sua capacidade de projeção de forças - em resposta, os EUA e os seus aliados têm conseguido travar essas ambições expansionistas no Mar da China e no Estreito de Taiwan, e têm limitado a venda e transferência de tecnologia militar para Pequim.

Mas essa é só uma parte da história. A outra parte é a negação daquilo que foi a Guerra Fria, que este artigo da Foreign Affairs descreve como “esforço de larga escala que foi muito para além do âmbito militar. Um esforço destinado a limitar o contacto económico entre os dois lados, fragilizar as economias domésticas [do bloco soviético] e ao mesmo tempo frustrar os seus esforços diplomáticos no exterior”.

Neste plano, a China é toda uma outra história, e o contraste não podia ser maior. “Desde o início da era das grandes reformas, em 1978, o único ator que fez mais do que o povo chinês para impulsionar o grande desenvolvimento económico da China foram os Estados Unidos. A abertura do mercado americano às exportações chinesas, o investimento americano em larga escala na indústria chinesa, centenas de milhares de estudantes chinesas em universidades americanas - tudo isto foi essencial para o acelerado crescimento e modernização tecnológica da China”, defende Thomas J. Christensen no ensaio que publicou no mês passado na Foreign Affairs.

Se o grande momento de viragem dos EUA em relação ao Pacífico aconteceu durante os mandatos de Barack Obama, a grande mudança de atitude de Washington em relação a Pequim veio com o seu sucessor, Donald Trump:

  • Intensificação da competição militar no Pacífico;
  • Guerra tarifária em relação a importações chinesas;
  • Reconhecimento da necessidade de uma ampla dissociação das economias dos dois países;
  • Inclusão da Huawei e outras grandes companhias chinesas na lista negra do Departamento do Comércio;
  • Identificação da China, ao lado da Rússia, como adversários dos EUA, na Estratégia de Segurança Nacional
  • Classificação das políticas económicas e cambiais da China como “predatórias”.

O surgimento da covid 19 foi o cereja no topo desta escalada, com a administração Trump a acusar as autoridades de tudo, desde opacidade e incompetência até à criação e libertação intencional do “vírus da China” a partir de laboratórios militares.

Aos argumentos de Washington sobre a covid, Pequim respondeu com atos: disponibilizou a quem quisesse - sobretudo aos países mais pobres - as suas vacinas. Dos 15 países que reconhecem a soberania de Taiwan, um parece estar a mudar de posição, em troca de vacinas chinesas: o Paraguai espera receber milhões de doses e, em contrapartida, estará disponível a aceitar os argumentos chineses sobre o “país único” que inclui a Formosa.

A denúncia partiu das autoridades de Taipei, que têm, há anos, uma estreita relação com o governo de Assunção. O pragmatismo e o desespero da pandemia têm consequências, como notava esta sexta-feira o New York Times - a China exporta vacinas; Taiwan não. E os Estados Unidos, apesar de terem milhões de doses armazenadas, também não as estão a deixar sair.

Uma superpotência com mania da grandeza

Se uma das prioridades da nova administração norte-americana é a desacoplagem da sua economia em relação às fábricas chinesas - uma prioridade também assumida pela Europa, que percebeu com a pandemia o grau de dependência a que chegou em relação à produção chinesa -, do lado de lá a ambição é parecida.

O novo plano quinquenal da China, aprovado em março, é sobre uma palavra: autosuficiência. Antecipando um clima geopolítico em que americanos e europeus quererão cortar laços económicos com a China, a China aposta no seu isolamento em relação a estes dois blocos - mas não em relação ao resto do mundo.

Os países em desenvolvimento continuam a merecer grande atenção de Pequim, que prossegue o esforço de diplomacia económica: investimento em troca de lealdade política no xadrês global. A Iniciativa Faixa e Rota (Belt and Road Iniciative) continua a ter a ambição de levar investimento chinês em infraestruturas à volta do mundo, deixando a marca e influência de Pequim em África, na Eurásia e Europa de Leste, e na América Latina.

O primeiro encontro entre altos representantes chineses e norte-americanos na era Biden, há um mês, deu o tom: acusações recíprocas e palavras azedas. E, enquanto Biden tentava remendar a relação com os velhos aliados, tanto no Pacífico como na União Europeia, chineses e europeus entraram também numa súbita fase de agressividade.

As notícias sobre o genocídio do povo uigur, na província de Xinjiang (esse assunto dava todo um outro Novo Normal), e as sanções europeias perante essas claríssimas violações dos direitos humanos nesse território, levaram a uma escalada da tensão entre Bruxelas e Pequim.

Que diferença poucos meses fazem. Ainda em dezembro, a UE e a China surpreendiam o mundo (e sobretudo Joe Biden, então à beira de tomar posse) com o anúncio de um grande acordo económico, de comércio e investimento, fortemente impulsionado pela Alemanha, que vê na China um mercado prioritário para as suas exportações (sobretudo da indústria automóvel, mas não só).

O acordo com a UE foi o segundo grande entendimento multilateral envolvendo a China, depois de outro grande protocolo, esse na região do Pacífico - a Parceria Económica Abrangente Regional, assinada em novembro, é o maior acordo comercial do mundo em termos de Produto Interno Bruto. Duas manobras diplomáticas e económicas em que a China soube aproveitar os vazios deixados pela administração Trump, mas cujo futuro é agora incerto.

Em pouco tempo, o clima de entendimento entre a China e a UE foi por água abaixo, e a retórica chinesa tornou-se particularmente violenta contra o Velho Continente. O acordo assinado em dezembro parece uma memória de outros tempos, e a China está disposta a abdicar das vantagens dessa parceria, pois entende que a Europa terá mais a perder com esta rotura. Não há nada de impulsivo nesta atitude. Pelo contrário: a perceção chinesa é de que o Ocidente está em processo irreversível de declínio. “O Oriente está a erguer-se e o Ocidente está a declinar” é o mantra lançado por Xi Jinping.

A The Economist publicou há duas semanas uma excelente análise sobre o ponto de vista chinês:

  • Os números favorecem a China, à medida que uma nova ordem mundial emerge, e cada vez mais países terão vantagem em aliar-se a Pequim, em troca de investimentos, infraestruturas, empréstimos e acesso a bens de consumo e tecnologia. Com uma nova vaga de autocracias a espalhar-se pelo mundo, ditadores, autocratas e aspirantes a tal sabem que podem contar com equipamento militar e tecnologias de controlo e vigilância fornecidos pela China;
  • O declínio dos EUA (económico, militar, tecnológico e social), identificado pela China como irreversível, será no curto prazo evidente também para as outras potências ocidentais - e com isso ruirá a ordem global americana desenhada após a II Guerra Mundial, e consolidada após a ruína da URSS;
  • Também o prestígio da democracia liberal está em queda, aos olhos de Pequim - não só têm crescido nos países europeus as forças extremistas de pendor autoritário, em resposta a questões tão variadas como crises económicas ou pressões migratórias, como a pandemia acabou por ser um bom laboratório das vantagens do autoritarismo. A mão dura da China ou de Singapura no controlo do vírus foi eficaz, e, em simultâneo, essa eficácia está a acelerar a recuperação económica.

Vale a pena ler este texto de opinião, publicado em novembro no Politico, sobre o desafio que a China representa para as democracias ocidentais. Ao contrário do que alguns julgaram no final da Guerra Fria (a verdadeira), a história não acabou. Sim, a fusão de mercados livres com as liberdades individuais, seguida da globalização e auxiliada pela revolução digital, levou a um mundo cada vez mais interdependente, mas… daí não resultou o triunfo inevitável das democracias e o fim das ideologias, rendidas aos mercados.

A China acompanhou boa parte desse movimento, mas não a última parte. Pelo contrário, a China encontrou um caminho próprio: prosperidade sem liberdade. O triunfo económico das democracias liberais sobre as economias socialistas planificadas tinha a ver com a capacidade de milhões de agentes económicos processarem informação e tomarem decisões com liberdade e rapidez - uma flexibilidade e poder de processar informação impossíveis numa economia centralizada. A não ser que... se trate do “primeiro estado totalitário high-tech da história”. Eis a China: “Isto permite-lhe não apenas controlar os seus cidadãos mas também os fluxos de informação dentro de fronteiras, mas também noutros países.”

Esse é o desafio identificado por Andrew Michta, professor do George Marshall European Center for Security Studies: “O que Pequim oferece é uma visão apelativa e enganosa para o mundo: ‘um mercado livre para pessoas sem liberdade’, no qual a prosperidade e as liberdades individuais já não precisam de estar umbilicalmente ligados.”

A Europa entre a China e a parede

Conseguirá a Europa manter-se firme nas sanções que já decretou contra a China por causa Xinjiang? Pequim aposta que não - que a Europa não conseguirá recuperar da pandemia sem apanhar boleia do crescimento económico chinês.

Não estamos a falar de coisa pouca. Eis alguns números que retratam a colossal dimensão económica da China:

  • 18% do PIB mundial em 2020
  • 22% das exportações globais de produtos industriais
  • Exporta para 170 países
  • É o maior exportador do mundo
  • É o segundo maior importador
  • É o principal fornecedor de bens para 64 países (os EUA são o principal fornecedor de 38)
  • O principal cliente das exportações chinesas são os EUA
  • Os principais fornecedores de importações chinesas são, por esta ordem: Coreia do Sul, Japão, EUA, Austrália, Alemanha
  • Crescimento do PIB de 2,3% no ano terrível de 2020 (compara com uma contração de 6,8% na Zona Euro e de 3,5% nos EUA)
  • Crescimento do PIB previsto para 2021 à volta de 8% (previsão do FMI, que compara com 4,4% para a Zona Euro e 6,4% para os EUA)
  • Há 15 empresas chinesas de tecnologia valor igual ou superior a 50 mil milhões de dólares
    E se acha que a mão de ferro da China sobre Hong Kong faria fugir os investidores da principal praça financeira da Ásia (10 milhões de biliões de dólares de investimentos transfronteiriços), enganou-se: Hong Kong vive um 'boom' financeiro.

É a este colosso que o Ocidente em geral, e a UE em particular, estão intimamente ligados. Daí a “questão definidora de uma era” que a Economist identificava há dias, num texto de capa sobre a China: “Como é que [o Ocidente] pode assegurar prosperidade, reduzir o risco de guerra e proteger a liberdade perante a ascensão da China?”

Face às notícias de abusos de direitos humanos em Xinjiang contra a minoria muçulmana, a UE anunciou as primeiras sanções contra a China desde o massacre de Tiananmen. Numa ação conjunta, os dirigentes europeus, britânicos, norte-americanos e canadianos decretaram sanções económicas contra empresas e dirigentes daquela província, o que motivou a imediata retaliação chinesa. Alvos: deputados britânicos e dez cidadãos europeus, incluindo cinco eurodeputados de vários países, entre eles o alemão Reinhard Bütikofer, presidente da delegação do Parlamento Europeu para as relações com a China.

A primeira consequência das sanções aos eurodeputados é a recusa do Parlamento Europeu em ratificar o acordo de comércio e investimento mútuo assinado entre os dois blocos no final de 2020. A Comissão Europeia já assumiu que esse entendimento está agora em risco.

A China mostra-se disposta a comprar essa guerra. E a propaganda do PC Chinês transformou a UE no novo papão ocidental, respondendo às acusações sobre o genocídio do povo uigur com acusações sobre o passado colonialista de várias nações europeias.

Mas, mais do que a retórica, pesam os números. As empresas ocidentais que o digam: todas as que se atreveram a alinhar na condenação do que se passa em Xinjiang estão a sofrer boicotes bem orquestrados em todo o território chinês. Marcas ocidentais estão a desaparecer das lojas chinesas, as lojas próprias estão a ver os contratos revogados, e nas grandes plataformas online essas marcas ficaram invisíveis de um dia para o outro.

A H&M é um bom exemplo do modus operandi de Pequim. No final do ano passado, várias grandes marcas de pronto a vestir ocidentais - como a Zara, a GAP ou a H&M - foram confrontadas com o facto de utilizarem algodão oriundo da China. Ora, 80% desta produção vem de Xinjiang, na sua maioria produzido por mão de obra escrava de uigures detidos em “campos de reeducação” - serão mais de um milhão. A H&M reagiu condenando essas práticas, e prometendo não voltar a usar algodão daquela zona nas suas confeções. O que lhe colocou dois problemas:

  • A China é o principal fornecedor de algodão para a marca sueca;
  • A China reagiu boicotando os produtos da H&M

Não foi a única marca ocidental a sofrer essa retaliação - a Nike, a Adidas, a GAP, a New Balance, a Under Armour, a Tommy Hilfiger e a Converse também foram visadas com o apagão nas lojas online e sumiço nas lojas físicas.

Resultado: no caso da H&M, a consequência imediata foi prejuízo no último trimestre de 2020. A China é o quarto maior mercado de vendas da marca de roupa sueca, que fala agora em reconstruir a relação de confiança com aquele mercado.

Tal como as chancelarias ocidentais têm um dilema sobre como lidar com a China, também os CEO estão obrigados a tomar uma opção de fundo: capitular perante as pressões de Pequim para não perderem o maior mercado emergente do mundo, ou enfrentarem o boicote de uma parte dos consumidores ocidentais que são o seu público tradicional. Nos dois pratos da balança, o peso dos números e a disciplina férrea imposta por Xi Jinping no seu país podem ser os fatores determinantes. Poderão ditar a vitória chinesa?

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