A história da vacina que não devia ser da AstraZenecapremium

Uma vacina que tinha tudo para correr bem e que tinha tudo para ser produzida e comercializada pela Merck acaba por passar para a AstraZeneca, hoje a mais contestada farmacêutica da Europa.

A vacina contra a covid-19 desenvolvida em Oxford tinha tudo para ser a primeira. Tinha tudo para correr bem. E tinha tudo para ser produzida e comercializada… pela Merck. Mas um conjunto de coincidências, divergências e pressões políticas acabou por colocar essa vacina nas mãos daquela que é, atualmente, a farmacêutica mais contestada e vilipendiada da Europa. É difícil imaginar como um fabricante de vacinas pudesse ter pior reputação do que a AstraZeneca (AZ) tem neste momento na União Europeia -- é incapaz de cumprir contratos, está a atrasar a vacinação da UE, e têm-se levantado dúvidas sobre a segurança e eficácia de uma vacina que milhões de cidadãos se recusam a receber.

A suspensão unilateral da administração desta vacina por quase 20 estados da UE, esta semana, à margem das recomendações da Agência Europeia do Medicamento (EMA), diz muito sobre o estado de desnorte e desunião em que estão os 27 (escrevi sobre isso aqui, há duas semanas). Mas também é eloquente sobre o quanto a reputação da AstraZeneca caiu nas ruas da amargura entre os estados-membros. Veremos se a insistência da EMA na segurança e eficácia desta vacina será suficiente para afastar a desconfiança.

Não basta que os países voltem a dar luz verde à sua administração, como fez Portugal. Neste momento, os cidadãos estão para lá do discurso político sobre a AZ - foi isso, aliás, que levou muitos governos a atuar à margem do conhecimento científico. Basta atentar nestes dados: segundo o Centro Europeu de Controlo de Doenças (ECDC), a farmacêutica sediada em Cambridge já entregou mais de 15 milhões de doses aos 27 - mas foram administradas pouco mais de um terço. A França já inoculou 75% do total de doses que recebeu, mas menos de metade das doses da AZ; o mesmo se passa na Alemanha; o Luxemburgo já administrou dois terços do total de vacinas que recebeu, mas só um terço das da AZ; a Polónia aplicou 82% do total recebido, mas menos de metade das doses da AZ. Em vários países sucedem-se os relatos de gente que recusa ser vacinada ao saber que lhe calhou o fármaco da AZ.

Em Portugal os médicos fazem relatos parecidos - ao ponto de a DGS ter avisado que quem recusar vai para o fim da fila, e não tem garantia de que quando voltar a chegar a sua vez não lhe calhe outra vez a vacina anglo-sueca. Será essa a vacina administrada aos professores e pessoal não docente das escolas e creches que já reabriram, o que ajudará a escoar o stock. Neste momento, ainda de acordo com os dados do ECDC, Portugal já administrou 80% das doses recebidas dos três fabricantes, mas a da AZ é a que tem menos saída - uma diferença grande que está também relacionada com outra questão: como os fornecimentos deste fabricante são incertos, isso obriga a maiores reservas para acautelar a segunda dose, um problema que não se tem colocado no caso da vacina da Pfizer.

Esta semana, a Merck, que há um ano perdeu a hipótese de se associar à Universidade de Oxford, associou-se à Pfizer e à BioNTech, para produzir a vacina que mais tem sido utilizada na UE e nos Estados Unidos… sem sombra de problemas ou contestação. Esta história podia ter sido diferente.

Não houve acasos no facto da veneranda universidade inglesa, com uma história de 900 anos, ter arrancado na pole position quando começou a corrida a uma vacina contra o SARS-Cov2. A história desta vacina começa três décadas antes, quando a Merck começou a investigar a possibilidade de utilizar um adenovírus de chimpanzé como veículo para a produção de vacinas. Eram os primeiros passos para as vacinas de vetor viral, então uma tecnologia inovadora. A farmacêutica norte-americana acabou por pôr de lado esse projeto, mas outros investigadores seguiram o filão. Entre eles, os cientistas do Instituto Jenner, da Universidade de Oxford, e dos laboratórios Gamaleya, em Moscovo - precisamente os dois locais onde acabaram por ser desenvolvidas as duas primeiras vacinas de vetor viral contra a covid.

Três décadas a preparar uma vacina “instantânea”

A tecnologia de vetor viral não replicante é mais simples de explicar do que de desenvolver. A vacina usa como meio de transporte um adenovírus que provoca constipação em chimpanzés (uma das razões por que a Merck abandonou a investigação era a dúvida sobre se a autoridade americana do medicamento aprovaria uma vacina baseada num vírus de chimpanzés…). O adenovírus é manipulado geneticamente, sendo-lhe inserido o gene de uma proteína do vírus que se quer combater - no caso da covid, é o gene da já famosa proteína espícula (a proteína que está no espigão do SARS-Cov2, e que lhe permite agarrar-se às células humanas). O adenovírus usado como veículo é inofensivo para os humanos, pois não se replica na pessoa vacinada (daí, o nome não replicante), mas é reconhecido pelas nossas células, que recebem a instrução para desencadear uma resposta imunológica quando identificam aquele vírus cuja proteína foi transportada pelo vetor viral: no caso da covid, o sistema imunitário aprende a gerar anticorpos para combater o coronavírus quando identifica a proteína espícula.

Dois investigadores de Oxford (Sarah Gilbert e Adrian Hill) prosseguiram o desenvolvimento dessa tecnologia, e patentearam-na em 2016, fundando nesse ano a Vaccitech Ltd, uma startup apoiada pela universidade, com o objetivo de desenvolver novas vacinas.

Oxford orgulha-se de mais de um século de trabalho em fármacos inovadores, e da tradição de não retirar lucros desse trabalho, mas tem, progressivamente, incentivado a criação de startups com o objetivo de tornar a universidade mais competitiva no negócio farmacêutico e conseguir lucros que ajudem a financiar investigações, à semelhança do que fazem universidades americanas como Stanford ou o MIT. O veículo da Universidade de Oxford para esta missão é uma instituição de capital de risco, a Oxford Sciences Innovation, criada em 2015. A Oxford Sciences é o maior accionista da Vaccitech (e ambas vão ser importantes nesta história).

Quando surgiu o novo coronavírus em Wuhan, os investigadores de Oxford estavam a trabalhar numa vacina de vetor viral contra o ébola. Antes, já tinham testado a tecnologia criando uma vacina contra o MERS, o síndrome respiratório do Médio Oriente, outro coronavírus, que despertou o interesse do mundo em 2012 e 2013. (Entretanto, em Moscovo, o Instituto Gamaleya fazia exatamente o mesmo: o laboratório russo, que não tinha experiência na área das vacinas, criou, testou e patenteou vacinas contra o ébola e o MERS - porém, nunca receberam autorização fora da Rússia.)

Em janeiro, mal a China divulgou o sequenciamento genético do SARS-Cov2, a equipa de Oxford viu a oportunidade de pôr em campo a plataforma de vetor viral, programando-a contra o vírus responsável pela covid-19 (em Moscovo passou-se o mesmo). O desenvolvimento da vacina foi rápido e sem grandes sobressaltos - é isso que os cientistas do Instituto Jenner sabem fazer. O que eles não sabiam fazer, e a Universidade de Oxford também não, era produção em grande escala e comercialização de uma vacina que podia salvar o mundo.

Não temos capacidade de distribuir isto, nem de produzir isto”, concluíram os responsáveis de Oxford em março do ano passado. A Vaccitech, com uma dúzia de investigadores e funcionários também não tinha capacidade ou know how para isso. Era preciso encontrar um parceiro da big pharma.

Ligações antigas entre responsáveis de Oxford e do Instituto Jenner com investigadores de topo da Merck apontaram o caminho: o parceiro dos ingleses seria o gigante americano. A farmacêutica sediada em New Jersey não só já tinha explorado a tecnologia de vetor viral, como é um dos grandes fabricantes de vacinas do mundo. Tem um século de experiência neste negócio, tendo sido pioneira na vacinação contra a papeira, a varicela e a hepatite A. Em 2019, foi a primeira companhia a ter uma vacina contra o ébola aprovada pela Food and Drug Administration (FDA).

Em 2020 a Merck registou 8,3 mil milhões de dólares de receita só com vacinas, ficando atrás apenas de outro gigante, a GlaxoSmithKline, no pódio do negócio global da vacinação. Era o parceiro certo, e as conversas chegaram à parte em que se discute a repartição de lucros.

Oxford sempre se orgulhou de oferecer as suas grandes descobertas à humanidade - foi pioneira no uso da penicilina em humanos, e podia ter recebido milhões com isso, mas não quis. O lucro ficou para as farmacêuticas. Porém, John Bell, um dos investigadores mais celebrados de Oxford na área da medicina, a quem a universidade deu a missão de negociar esta vacina com a indústria farmacêutica, sabia que os tempos mudaram. Se não houvesse um bom acordo financeiro, “as pessoas iam dizer: ‘Oh, meu Deus, mais uma universidade britânica inventou uma coisa que vale rios de dinheiro e, imagine-se!, abdicou dela de graça’.”

Segundo o Wall Street Journal, que deu a notícia do pré-acordo Oxford-Merck, o fabricante garantia aos criadores da vacina 1% dos lucros. A Vaccitech achou pouco. Mas surgiu outro problema: na proposta que estava sobre a mesa, os britânicos não tinham controlo sobre a distribuição e preço da vacina. Esse era um ponto de honra para a universidade, empenhada em garantir que o medicamento chega a todo o mundo, mesmo aos países pobres, com menos recursos para pagá-lo.

Sem acordo na frente financeira, e com dificuldades no plano dos princípios, o governo inglês deu o empurrão que faltava para minar o negócio. Por esses dias (março/abril de 2020), Donald Trump apostava tudo na vacina como arma eleitoral, e prometia que os EUA seriam o primeiro país a ter o medicamento e a proteger a sua população. As autoridades de Londres não gostaram da ideia de ver uma invenção inglesa nas mãos de uma empresa americana - e fizeram saber do seu desagrado aos responsáveis de Oxford. Afinal, o Governo inglês apoia a universidade, estava a financiar o desenvolvimento da vacina, e não aceitava que os seus cidadãos pudessem ficar para trás na hora de arregaçar a manga e levar a injeção.

Os relatos do WSJ, o jornal que melhor cobriu os bastidores deste caso, dão conta de uma verdadeira guerra dentro de Oxford, entre o Instituto Jenner, a Vaccitech e o fundo Oxford Science (sendo que vários protagonistas tinham lugar nas diferentes instituições - o cientista Adrian Hill é o diretor do instituto e acionista da startup). John Bell, o geneticista e cavalheiro do Reino que assumiu o lugar de negociador-mor, queria o acordo com a Merck - confiava na capacidade técnica da farmacêutica, sabia do seu know how para fazer vacinas, achava que o negócios era bom e ainda podia ser melhorado. E nessa altura todos os grandes players do negócio mundial das vacinas já estavam a correr em pista própria… “O tempo estava a passar… Se não há outra miúda disponível para dançar na festa, então danças com essa miúda”, dizia Bell.

O negócio anglo-americano ruiu em abril. Consta que os dois principais investigadores de Oxford, que também são fundadores da Vaccitech, pediram ajuda a um banqueiro da City para ajudar a procurar alternativas. O banqueiro apontou para a hipótese que mais agradava ao governo de Boris Johnson: um fabricante inglês.

Sem experiência, mas em crescimento

A AstraZeneca. É inglesa (bom, meio-inglesa, pois resulta da fusão, em 1999, entre uma companhia inglesa, Zeneca, e outra sueca, a Astra AB), estava interessada no negócio, e é uma marca global, vendida em mais de cem países e com unidades de produção na Europa, Américas, Oceania e Ásia.

Porque é que ninguém tinha pensado na AstraZeneca para a parceria com Oxford? Sobretudo porque de vacinas a AZ sabe muito pouco. Aliás, não tinha sequer entrado na corrida para desenvolver uma vacina contra a covid-19. A produção de vacinas é considerado um dos ramos mais complicados da indústria farmacêutica, como as dificuldades dos últimos meses têm demonstrado. “Eles não se aperceberam de como isto ia exigir recursos intensivos, e não pensaram que [o acordo com Oxford] pudesse ser prejudicial para a marca e a companhia”, diz um analista do mercado.

A primeira década da AZ após a fusão anglo-sueca foi de crescimento. Em 2007, entrou no nicho das vacinas, adquirindo uma farmacêutica norte-americana, e parecia bem encaminhada para diversificar o seu portfolio. Porém, a década seguinte foi dececionante para os acionistas, com o conglomerado a perder terreno face aos grandes do mercado, sobretudo devido à perda de patentes de medicamentos importantes que passaram a ser fabricados por marcas genéricas a preços mais baratos.

Em 2012, o francês Pascal Soriot foi contratado para CEO e redirecionou a aposta para o desenvolvimento de novos fármacos, sobretudo na área da oncologia. Foi uma aposta acertada, mas que só recentemente começou a dar frutos - entre 2011 e 2017, as vendas da AZ estiveram sempre a cair.

A fragilidade da farmacêutica anglo-sueca chamou a atenção dos competidores, e em 2015 a Pfizer tentou uma OPA hostil. Soriot conseguiu segurar as hostes e repelir a tentativa de compra, prometendo que em 2018 as vendas voltariam a crescer - e cumpriu.

Em 2019, com receitas superiores a 23 mil milhões de dólares, a AZ subiu nas listas das maiores farmacêuticas globais, integrando ou ficando muito perto do top 10 (há muitos rankings diferentes, com diferenças metodológicas que alteram os resultados - mas nos lugares de topo estão sempre a Johnson & Johnson, a Pfizer, a Roche, a Novartis e a Merck). Em 2020, as vendas da AZ terão voltado a ficar acima dos 23 mil milhões de dólares.

O relançamento ficou a dever-se a novos produtos oncológicos, mas também para doenças cardiovasculares, metabólicas e do sistema respiratório. A penetração robusta no crescente mercado chinês também ajudou. E a grande oportunidade acabou mesmo por vir da China, na forma de um coronavírus desconhecido.

“Vacinar o mundo”

Quando a Universidade de Oxford propôs uma parceria a Pascal Soriot, este agarrou a oportunidade de apresentar a AstraZeneca como a marca que salvará o mundo da pandemia. O acordo fez-se em 10 dias. A AZ concordou com a condição de vender as doses da vacina a preço de custo, não lucrando com este produto durante a pandemia, e de escalar a produção de forma a poder fornecer países de todo o mundo a um ritmo nunca visto. O compromisso foi para produzir 3 mil milhões de doses a preço de custo durante 2021.

Os principais responsáveis da Vaccitech torceram o nariz ao negócio - queriam mais garantias sobre a capacidade de produção da AZ e o seu compromisso com a distribuição global da vacina. Mas a pressão (e as ameaças, ao que consta) não lhes deu margem de recusa. O fundo Oxford Science estava satisfeito, e a universidade também: os pormenores do acordo são sigilosos, mas segundo fontes do mercado a farmacêutica terá oferecido até 6% dos lucros quando acabar a pandemia e a vacina puder ser vendida a preços de mercado. Mais 10 milhões de dólares de adiantamento pagos a Oxford, e outros 80 milhões conforme a vacina vai sendo distribuída.

A Vaccitech reclamava metade do valor pago à universidade, como compensação por propriedade intelectual, mas acabou por aceitar 24%. Mais o compromisso de que a AZ será parceiro no desenvolvimento de novos fármacos. Boris Johnson ficou satisfeito por manter a vacina em casa.

O acordo entre Oxford e a AstraZeneca foi anunciado a 30 de abril. Se fosse a primeira a conseguir as autorizações necessárias, sobretudo na Europa e nos EUA, a vacina da AstraZeneca seria, de longe, a principal arma no combate à covid. Mesmo que fosse ultrapassada em cima da meta, continuava em somar algumas vantagens: desde logo, o preço e o facto de ser mais fácil de armazenar e transportar, sem implicar uma cadeia de frio exigente, o que facilita toda a logística da operação, em comparação com a principal concorrente, desenvolvida pela Pfizer/BioNTech.

Pelas primeiras encomendas dos EUA, a vacina da AZ poderia representar mais de 60% do portfolio de vacinas encomendadas. Também na UE os primeiros contratos destacavam a AZ, a par da vacina da Pfizer - e tudo indicava que, conforme se desenrolasse a campanha de vacinação, os reforços de encomendas se focariam nessa vacina, por ser mais barata, e, provavelmente, na da Johnson & Johnson, por ser de dose única.

A AZ tinha duas missões. Falhou em ambas

A história acabou por ser outra. Nos EUA, a vacina desenvolvida na Universidade de Oxford continua a penar para receber luz verde da FDA. Diz o New York Times que um incidente logo em setembro deixou os americanos de sobrolho levantado: em setembro, quando ia começar uma reunião decisiva entre a farmacêutica e o regulador, a comunicação social noticiou que a AZ tinha suspendido os ensaios da vacina por causa da morte, dois dias antes, de um dos voluntários nos testes - e o fabricante tinha-se esquecido de dar conta desse pormenor...

Depois de fazer o acordo com Oxford, a AstraZeneca tinha, no essencial, duas missões: conduzir a fase 3 de ensaios, em que são envolvidos dezenas de milhar de voluntários, e fabricar os milhões de doses com que se tinha comprometido. Conseguiu falhar em ambas as missões.

Com sede em Cambridge, numas vistosas novas instalações que ocupam o equivalente a três campos de futebol, a AZ tem setenta mil funcionários, nove centros de investigação e produção pelo mundo. Com a covid-19, Soriot viu cair-lhe no colo a oportunidade de cavalgar a onda. Prometeu que a sua empresa iria “vacinar o mundo”, assumindo o compromisso de produzir mais vacinas do que a concorrência, mais depressa, e ao preço mais competitivo.

“A nossa dimensão e presença global vão permitir-nos fabricar em grande escala”, prometia então a AstraZeneca. “Como o faremos exatamente… é muito cedo para dizer.” Passados tantos meses, essa continua a ser a pergunta a que a companhia não consegue responder.

A realidade foi diferente. Houve problemas sérios na fase de testes, e está a haver problemas ainda mais sérios na produção e distribuição. Tudo parece enguiçado, numa sucessão de reveses:

  • Em novembro, os primeiros dados sobre a eficácia da vacina surpreenderam a comunidade científica. Ensaios desenvolvidos em vários países (sobretudo no Reino Unido e no Brasil) apontaram níveis de eficácia tão díspares como 62% e 90%. A companhia apontou para um nível de eficácia de 70%, que não resultava senão da média ponderada, o que levantou enorme polémica. Um dos maiores problemas resultava do facto de os níveis de eficácia mais elevados terem sido alcançados num subgrupo de ensaios formado por participantes mais jovens.
  • Para além disso, esse subgrupo recebeu, por engano, uma dose inferior à que era suposta - o que também motivou alertas sobre a dosagem certa para alcançar a maior proteção. A falta de transparência dos dados fornecidos por Oxford e pela AZ foi uma mancha que ficou desde o início. “Que desilusão”, reagiu Eric Topol, um dos especialistas norte-americanos mais reputados, e presença constante nos media dos EUA. “O mundo estava a apostar nesta vacina…”
  • A aprovação da vacina pela Agência Europeia do Medicamento também não aconteceu sem polémica. Pelo facto de a farmacêutica ter incluído na fase 3 de testes poucos voluntários com mais de 55 anos, a informação existente era pouco esclarecedora sobre a segurança e a eficácia da vacina nos grupos etários mais seniores. Diversos países restringiram o seu uso acima dos 55 ou dos 65 anos.
  • Com a vacina da AstraZeneca a acumular-se em diversos países europeus, vários governos acabaram por autorizá-la para as pessoas acima dos 65 anos, com vista a acelerar o processo de imunização. Mas em países como França, Alemanha ou Itália, tem-se visto grande resistência por parte de quem era informado que levaria essa vacina. As recusas têm sido muitas. Diversos estados alemães decidiram oferecer essas vacinas a países vizinhos.
  • Espera-se que o processo de revisão de resultados que está a decorrer nos EUA lance mais luz sobre algumas destas dúvidas. Os dados apurados com a vacinação em massa no Reino Unido indicam, porém, que a eficácia pode ser maior do que indicavam os ensaios laboratoriais - a primeira dose dá uma proteção de 80% contra doença grave, dizem esses indicadores, que a EMA validou esta semana.

Uma fábrica estará a encravar tudo?

Até que, em janeiro, surgiu a “bomba” sobre a incapacidade da AstraZeneca cumprir os contratos, sobretudo com a UE. O estado da arte é o seguinte em relação às encomendas da União Europeia:

  • Dos 100 milhões de doses que deviam ter sido entregues no primeiro trimestre, chegaram até ontem 16 milhões. A atual meta da AZ é entregar 40 milhões no primeiro trimestre - faltam dez dias para o trimestre acabar;
  • Com 180 milhões de doses apalavrados pela AZ para o segundo trimestre, a farmacêutica já reviu a sua capacidade de entrega para apenas 70 milhões - e em Bruxelas não há uma alma que acredite no cumprimento dessa meta, mesmo sendo menos de metade do contratado;
  • Entretanto, a Comissão Europeia apurou que em seis semanas saíram da UE 43 milhões de doses de vacinas contra a covid - sobretudo da Pfizer e da Moderna, mas também da AstraZeneca. E o principal destino destas exportações (dez milhões) foi o Reino Unido. Em contrapartida, Londres não permitiu a saída de vacinas para a UE, apesar de ter índices de vacinação muito superiores aos 27, e de não ter sido afetado por problemas de produção da AZ.

A incapacidade da AZ para cumprir os acordos assinados é uma história já por demais conhecida, mas da qual vão sendo descobertos, aos poucos, novos pormenores.

  • Segundo uma notícia desta semana do Financial Times, um dos grandes problemas da produção da AZ para a União Europeia estará numa única fábrica… presa por questões burocráticas. Seis meses depois de assinados os contratos, ainda não saiu uma única dose de uma fábrica holandesa, subcontratada à Halix, que deveria ser uma das duas principais unidades de fornecimento para os 27 (a outra é na Bélgica). Tudo porque a fábrica de Leiden ainda não recebeu autorização da Agência Europeia do Medicamento para a produção desta vacina. A EMA alega que continua à espera de dados e documentação essenciais que a AZ ainda não forneceu… A farmacêutica promete resolver as falhas em breve e garante que, assim que tenha luz verde do regulador, poderá entregar milhões de doses que estão prontas, mas não podem ser vendidas… Este “mistério”, escreve o FT, “sublinha tanto as falhas de gestão da AstraZeneca para cumprir o contrato com a UE, como a questão da supervisão europeia”.
  • As unidades de produção da Bélgica e da Holanda são duas das quatro que são mencionadas no contrato entre a AZ e a UE. As outras duas são no Reino Unido - mas, dessas, nem uma dose chegou ainda à União. E continuarão a não chegar, pois os britânicos queixam-se de que também estão a ser afetados por dificuldades de fornecimento. O ministro da saúde avisou esta semana que o início da vacinação aos cidadãos abaixo dos 50 anos terá de ser adiado, pois são previsíveis interrupções de entrega. O “retrocesso no processo de vacinação” fez manchetes, mas Matt Hancock não explicou se os problemas seriam relacionados com a vacina da AZ, que é made in Britain, ou com a da Pfizer, que vem da Bélgica. Por estranho que nos possa parecer, o governo britânico está sob fogo por causa deste solavanco, apesar de o Reino Unido ter uma das mais altas taxas de vacinação do mundo. Dominic Cummings, o antigo conselheiro todo-poderoso de Boris Johnson, classificou a gestão da pandemia e da vacinação como “um desastre”...

  • Em dezembro, quando detetou problemas de produção na fábrica da Bélgica, a AstraZeneca escondeu essa informação e tentou resolver o assunto internamente. Nessa altura já era evidente que a quantidade de matéria-prima que estava a sair dessa unidade era bastante abaixo do previsto. Em janeiro o problema agravou-se, mas o fabricante continuou a minimizá-lo. A AZ só assumiu a realidade quando já não podia mais disfarçar a falha nas entregas.
  • Entretanto, a UE pediu aos Estados Unidos que cedessem parte do seu stock de vacinas da AstraZeneca, cuja distribuição ainda não foi validada pelo regulador americano. Mas diversos órgãos de comunicação social têm dado conta de que Washington não irá autorizar essa exportação, apesar das juras de Joe Biden de que irá colaborar no esforço de vacinação global. Os EUA autorizaram, entretanto, a exportação de parte do seu stock de vacinas da AstraZeneca para países vizinhos, como o México.

Não há vacinas, mas há dinheiro

É cedo para saber que impacto terá este caso na confiança da população em relação às vacinas em geral, e à vacina contra a covid em particular. E também de que forma o comportamento da AstraZeneca poderá influenciar uma tendência recente: a melhoria reputacional da indústria farmacêutica, verificada no último ano, como se comprova no gráfico abaixo, publicado no Financial Times.

Há outro impacto mais fácil de medir: o financeiro. As bolsas têm reagido ao sabor dos altos e baixos do desempenho de cada um dos grandes players na campanha da vacinação contra a covid, e a AZ tem sido uma montanha-russa. Mas não no caso de Pascal Soriot - a sua condição financeira tem sido feita... de altos.

A farmacêutica anunciou no mês passado que o seu CEO recebeu, pelo desempenho de 2020, um pagamento de 15,4 milhões de libras (quase 18 milhões de euros). De acordo com o Financial Times, o valor inclui um salário base (€1,5 milhões), um bónus anual de €2,68 milhões, a que se somou o pagamento de quase €13 milhões, correspondente ao valor de 2020 num esquema de incentivos de longo prazo. Para além deste pacote de prémios e incentivos, o salário-base do francês foi aumentado em 3%, o mesmo valor que os restantes funcionários da empresa.

O salário-base de Soriot (€1,55 milhões) corresponde a 197 vezes o salário médio pago pela companhia. E, de acordo com a AstraZeneca, tendo em conta a "liderança inspiradora" de Soriot durante a pandemia, o seu vencimento deverá ser aumentado em breve. Também os prémios de desempenho deverão crescer.

O CEO da AstraZeneca não é o único a beneficiar do acordo feito com Oxford para a vacina da covid, apesar dos problemas em que a sua produção se tem afundado. Esta semana, a Vaccitech, a startup que esteve por detrás da investigação que permitiu criar esta vacina, conseguiu recolher financiamentos na ordem dos 168 milhões de dólares.

Segundo o WSJ, a startup lançada por cientistas do Instituto Jenner, de Oxford, explicou aos investidores que o financiamento servirá para adaptar a tecnologia da vacina de vetor viral para o tratamento de outras doenças, como o cancro da próstata, a hepatite B ou o vírus do papiloma humano.

Será também um passo para concretizar o grande plano para 2021: a entrada em bolsa. É esse o momento por que os investidores esperam, independentemente dos problemas que têm assombrado a associação da startup com a AstraZeneca.

Os planos da Vaccitech para entrada em bolsa ainda este ano em Nova Iorque fazem-se com números gordos: os investidores apontam para uma oferta pública inicial acima dos 700 milhões de dólares, podendo chegar aos mil milhões até ao final do ano.

Até pode não haver vacinas. Mas dinheiro não falta.

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