Alemanha, França e o futuro da política europeiapremium

A Alemanha está a pender para a esquerda, a França inclina-se para a direita, mudanças que podem reconfigurar a política europeia. Em Portugal, as sondagens não mexem. É o Novo Normal desta semana.

As duas principais capitais europeias podem assistir no próximo ano a uma mudança de poder. Que, se se confirmar, pode reconfigurar toda a política europeia. Nada menos do que isso. Em Berlim, a hipótese de Os Verdes vencerem as eleições de setembro é uma possibilidade cada vez mais forte - com Merkel de saída, a CDU/CSU pode estar à beira do fim de um longo reinado de 16 anos. Em Paris, uma vitória de Marine Le Pen é cada vez menos um cenário de ficção distópica - e Emmanuel Macron encosta cada vez mais à direita, para a tentar travar.

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Comecemos pela Alemanha, onde pela primeira vez Os Verdes podem liderar o governo - o que seria uma novidade não apenas alemã, mas global (há partidos ecologistas em seis coligações de governo na Europa - Áustria, Bélgica, Finlândia, Suécia, Luxemburgo e Irlanda - mas não em posição de liderança). Uma sondagem divulgada na terça-feira colocava Os Verdes sete pontos à frente do partido de Merkel: 28%-21%, com vantagem para os ambientalistas, é um resultado que nunca se tinha visto. O Público deste sábado dedica duas páginas à disputa alemã, que classifica como "a eleição de uma geração".

Não podia ter começado melhor a corrida de Annalena Baerbock ao lugar de chanceler. Na véspera, o seu nome foi anunciado como a candidata d'Os Verdes à chefia do governo, em detrimento do outro co-líder do partido, Robert Habeck, político mais experimentado, mas também menos surpreendente e menos carismático do que a deputada de 40 anos. Se quer uma leitura rápida sobre o percurso e pensamento da nova estrela da política alemã, o Politico selecionou cinco coisas que precisa saber.

Baerbock nasceu em 1980, no mesmo ano que o partido que agora representa na disputa pela chefia do governo alemão. Nestes 40 anos, Os Verdes passaram de partido de protesto anti-sistema a partido centrista, capaz de fazer compromissos com quase todo o espetro partidário alemão (à excepção do Alternativa para a Alemanha, de extrema-direita), e com experiência executiva: lideram o Governo de Baden-Württemberg (onde reforçaram a maioria no mês passado) e integram outros dez governos estaduais em coligações à direita e à esquerda; e coligaram-se com o SPD entre 1998 e 2005, em dois governos liderados por Gerhard Schröder, nos quais o líder verde, Joschka Fischer, foi vice-chanceler e ministro dos Negócios Estrangeiros.

A liderança bicéfala formada por Annalena Baerbock e Robert Habeck deu um novo impulso ao partido com uma abordagem mais pragmática e centrista, ajudando a superar a velha querela interna entre “fundamentalistas” e “realistas”, que durante as primeiras décadas fraturou Os Verdes.

No Diário de Notícias, Bernardo Pires de Lima faz uma interessante análise sobre a forma como o legado de Angela Merkel (em questões tão distintas como a abertura aos refugiados ou o mecanismo conjunto de emissão de dívida europeia), aliado à nova realidade da pandemia (que relançou um amplo debate sobre aprofundamento da integração europeia, mas também uma nova atenção aos desafios ecológicos) acabaram por favorecer a agenda de Annalena. "Todas aquelas dinâmicas são caras ao programa dos Verdes alemães, o mais europeísta dos partidos no Bundestag, o que não só valida a pertinência das suas posições junto de mais eleitores, como acomoda a sua real acuidade na primeira linha da política europeia. Arrisco mesmo dizer que Angela Merkel, sem querer, acabou por ser a madrinha política deste crescimento sólido dos Verdes", escreve o analista do DN.

O centrismo e o pragmatismo valeu-lhes acusações de traição ou abandono da “verdadeira” causa ambientalista, mas permitiu-lhes passar de partido que recebeu 8,9% dos votos em 2017 para partidos com mais de 20% de intenções de voto em 2021. Num inquérito recente, 30% dos alemães admitia poder votar n’Os Verdes, um valor inédito que, além do mais, indica que o partido poderá ter ainda mais margem de crescimento.

Apesar do percurso de moderação política dos últimos anos, Os Verdes propõem mesmo uma mudança, tanto na Alemanha como na UE (“É uma onda verde que ainda está a ganhar força e que promete mudar a política europeia”, escreveu Rui Tavares no Público, sem disfarçar o entusiasmo). Alguns exemplos:

  • Redução da emissão de gases com efeito de estufa em 70% até 2030 (em vez dos previstos 55%);
  • Duplicação do nível das taxas de carbono;
  • Aceleração do encerramento das centrais termoelétricas a carvão;
  • Maior abertura ao investimento e à despesa pública, tanto na Alemanha como a nível europeu, sobretudo para infraestruturas
  • Menos ortodoxia no controlo das finanças públicas;
  • Provavelmente posições mais duras no plano diplomático em relação à Rússia e à China, com mais atenção aos direitos humanos e menor prevalência dos negócios;

Para liderar o nosso país diverso, forte e rico em direção a um futuro positivo”, diz Annalena Baerbock, “teremos de fazer mudanças”. Mas também há quem aposte que, depois de se ter tornado um partido mais ao gosto do eleitorado centrista, Os Verdes acabarão por aceitar a “realpolitik”, seja no plano diplomático seja na economia...

Verdes vs CDU: um estudo de contrastes

O que se viu esta semana com Os Verdes não podia ser mais diferente daquilo que se passou com a União, a formação que há anos junta os democratas-cristãos da CDU e o seu “partido irmão” da Baviera, os sociais cristãos da CSU. Um dia depois dos ambientalistas, também os conservadores anunciaram quem seria o candidato à sucessão de Angela Merkel: Armin Laschet, chefe do governo da Renânia do Norte-Vestfália que desde janeiro é o líder da CDU. Era o candidato mais previsível - e esse pode ser um dos seus problemas.

A Economist escreveu que, nas escolhas dos dois principais partidos alemães, “seria difícil imaginar um estudo maior sobre contrastes”. A única semelhança entre os dois lados é que ambos tinham dois potenciais candidatos ao cargo que Merkel deixará vago este ano. Tudo o resto foi diferente:

  • Os Verdes serão representados por uma mulher jovem, enérgica e carismática, mas sem experiência executiva; a CDU optou por um homem de 60 anos, cinzento e com pouco carisma, mas com bastante experiência política a todos os níveis.
  • Enquanto Os Verdes tiveram um processo de escolha de candidato pacífico e sem sobressaltos, os conservadores estão há algum tempo numa disputa interna bastante azeda e “auto-destrutiva”, segundo os próprios.
  • Os Verdes escolheram o nome mais popular nas sondagens, apesar de Habeck, a outra metade da liderança bicéfala, ter mais currículo e capacidade de influência na estrutura do partido; já a União escolheu o candidato mais poderoso no aparelho partidário (a CDU pesa bastante mais na União do que a CSU), e chefe do governo do estado mais populoso da Alemanha, embora não fosse o candidato mais popular - de acordo com as sondagens, esse é Markus Söder, chefe do governo da Baviera (segundo estado mais populoso) e líder da CSU, o junior partner da União.
  • A decisão d’Os Verdes foi tomada há três semanas, mas mantida em segredo até ser anunciada de forma clara e bem programada; a decisão da União foi tomada pela cúpula restrita do partido, num processo nebuloso, após uma disputa pública, com muitas fugas de informação e manobras de contra-informação, e os termos do anúncio deixaram em parte do eleitorado a esperança de que Laschet possa ainda ser substituído por Söder - na Baviera, a CSU ainda não se dá por vencida.
  • Após 16 anos de governo, a CDU promete mais do mesmo - por isso escolheu o “herdeiro natural” de Merkel; para a sua eventual estreia na chefia do governo, Os Verdes prometem reformismo, por isso escolheram uma voz com um discurso claro de mudança.
  • O anúncio d’Os Verdes foi seguido da tal sondagem nacional que os colocou sete pontos à frente do atual partido do governo, provocando uma vaga de entusiasmo; o anúncio da CDU/CSU foi precedido por essa mesma sondagem, que funcionou como um balde de água fria.

Nada está perdido para o partido de Angela Merkel. A sondagem do Politico que faz a média das várias sondagens publicadas na Alemanha ainda coloca os conservadores à frente do partido ecologista. Mas a subida d’Os Verdes é evidente, e a queda dos conservadores é ainda mais, sobretudo este ano.

As dificuldades do Governo na gestão da pandemia, o prolongar das restrições e confinamentos parciais, os avanços e recuos na reação à terceira vaga - incluindo o anúncio de um confinamento geral na Páscoa, logo seguido de recuo e mudança de planos - tem desbaratado o apoio que Merkel conseguiu granjear no ano passado. Laschet, de resto, foi um dos opositores da chanceler em relação aos planos para a Páscoa, embora no passado tenha sido um dos seus maiores apoios, nomeadamente durante a crise dos refugiados.

O processo de vacinação demasiado lento, e alguns escândalos com figuras da CDU/CSU por causa da compra de máscaras (em que até o marido do ministro da Saúde se viu envolvido) adensaram ainda mais o afastamento do eleitorado em relação a um partido que já denotava o peso e o desgaste de uma longa governação.

Numa coisa Lascher e o eleitorado estão de acordo: a sua grande rival na disputa pela cadeira de Merkel é a líder d’Os Verdes. A sua inexperiência será um dos argumentos da campanha conservadora. Outro será o risco de “extremismo” dos ambientalistas.

Porém, Lascher sabe que Annalena Baerbock pode acabar por ser sua parceira de governo. Ganhem Os Verdes ou a CDU, será necessária uma coligação. A atual, entre os conservadores e os sociais-democratas do SPD, que estão longe dos seus tempos de glória, dificilmente fará uma maioria. A nova “grande coligação” será, possivelmente, entre verdes e conservadores, ou a “coligação semáforo”, entre verdes, SPD e os liberais do FDP. Em todo o caso, mais à esquerda do que o governo alemão dos últimos 16 anos.

Macron em versão mini-Sarkozy

Ao contrário, em França o cenário político inclina-se para a direita (“Mas onde anda o povo de esquerda?”, perguntava há dias este ensaio).

Esta foi a semana “da” entrevista de Emmanuel Macron. A conversa que fez a manchete do Le Figaro na segunda-feira foi o primeiro grande ato da campanha de Macron para a reeleição, nas eleições previstas para abril do ano que vem. A um ano de mais um embate com Marine Le Pen, o inquilino do Eliseu apresentou a segurança como o seu cartão de visita, posicionando-se no terreno favorito da que será, com toda a probabilidade, a sua principal adversária.

Macron parece reeditar a cartada securitária que em 2007 foi o passaporte de Nicolas Sarkozy para a presidência. “O pequeno Nicolas” era a manchete do Libération na terça-feira, em reação à entrevista publicada na véspera. “Polícia, prisão, droga: retomando a retórica sarkozista, Emmanuel Macron lança a sua pré-campanha à direita”, escrevia o diário na primeira página. “Já em campanha, Macron policia o seu pensamento”, era um dos títulos das páginas interiores.

“Estou a lutar pelo direito a uma vida pacífica”, declarou o presidente-recandidato na entrevista que marcou a semana política em França. Uma conversa monotemática com um jornal conservador, em que Macron se posicionou no coração da agenda da direita, agarrando nas palavras certas para o eleitorado que espera conquistar: “segurança”, “força”, “delinquência”, “violência”, “impunidade”, “separatismo”, “islamismo”, “imigração”.

A defesa dos agentes da autoridade contra as agressões de que têm sido alvo com cada vez maior frequência foi uma das traves-mestras do discurso. O assassinato, ontem, de uma agente da polícia, morta à facada por um imigrante tunisino, recolocou essa questão no centro do debate. Outra: restringir a entrada de imigrantes, “para os acolher melhor”. Mais uma: mão pesada contra a droga.

Eleito em 2017 com uma base centrista e liberal, e apoiado pelo partido que criou para a sua caminhada presidencial - República em Marcha (LREM) -, Macron tem dado todos os sinais de viragem à direita, de onde vem a principal ameaça à sua reeleição. No final do ano passado, avançou com a Lei de Segurança Global, com restrição de uma série de liberdades, nomeadamente proibindo a difusão de imagens de agentes policiais em ação, com o argumento de que isso os poderá por em perigo. Após meses de protestos, o Governo reformulou a proposta. Mais recentemente, foi a lei do “respeito pelos valores da República”, visando a ameaça de “separatismo islâmico”, em reação à chocante morte do professor de liceu Samuel Paty, decapitado depois de ter mostrado caricaturas de Maomé nas aulas.

É um combate pela liberdade, no qual a primeira condição é a segurança”, disse Macron ao Figaro, sob o mote “todos têm direito a aspirar a uma vida calma, onde quer que vivam”. Deixou promessas de mais dinheiro, mais meios e melhores condições de trabalho para as polícias; mais polícias - dez mil novas incorporações; mais atenção à ameaça do “Islão que visa destruir as nossas democracias e a nossa civilização” - com restrições ao ensino religioso e à entrada de imigrantes; e prioridade absoluta ao combate ao tráfico de droga, apontado como “a matriz económica da violência no nosso país”, desde a violência integrista à delinquência quotidiana. Se da esquerda se ouvem propostas de despenalização do consumo de algumas drogas, a resposta de Macron é radicalmente contrária: combate em toda a linha, do grande ao pequeno tráfico, mas também ao consumo.

Uma estratégia de alto risco

A manchete de quinta-feira do Libération foi uma espécie de sirene política: “Le Pen no Eliseu: o perigo é claro”. O aviso é do think tank Fondation Jean-Jaurès, ligado ao Partido Socialista francês - ou seja, o próprio PS admite que a hipótese que há anos era vista como um exercício de ficção, é agora real. Ou, nas palavras do relatório puxado para manchete do Liberation, “uma hipótese não negligenciável”. O documento elenca algumas razões:

  • A normalização da União Nacional (UN), longe dos tempos em que o partido (então chamado Frente Nacional) era visto por muitos como uma espécie de anti-cristo - Marine Le Pen conseguiu banalizar e desdiabolizar o partido;
  • A porosidade à direita, com transferência de voto entre Les Republicans, o antigo partido de Sarkozy, e a UN;
  • A impopularidade de Macron, que fragiliza o seu papel de agregador do voto anti-Le Pen.

Nestas circunstâncias, a estratégia de Macron pode revelar-se de alto risco: ao encostar o seu discurso à agenda securitária de Marine Le Pen, arrisca-se a alienar ainda mais os eleitores de esquerda que poderão ser a sua tábua de salvação numa segunda volta contra a líder da UN. Quando o ministro do Interior, Gérald Darmanin, trata manifestantes como "bandidos" e afirma que, nalgumas questões, é mais radical do que Marine Le Pen, não está a roubar votos à extrema-direita, mas a normalizá-la.

Le Pen mostra ter um apoio consolidado. O seu partido tem implantação no terreno e já não existe a “barreira moral” que noutros tempos impediu muitos eleitores, mesmo de direita, de apoiarem o partido de extrema-direita. Segundo o editorial do Libération de quinta-feira passada, já não existe o “cordão sanitário” que, em tempos, afastou Le Pen da restante direita.

Ou seja, se no passado Le Pen mostrou uma fraca margem de crescimento para além da sua base eleitoral quando se tratou de disputar uma segunda volta, talvez isso seja mesmo… passado. Até 2017, funcionou a chamada “frente republicana”, que à hipótese Le Pen respondeu sempre “qualquer um menos ela”. Foi esse alinhamento do centro e da esquerda que garantiu a vitória de Macron em 2017. É esse alinhamento que está longe de estar garantido em 2022.

À palavra de ordem “Qualquer um menos ela”, pode seguir-se o mote “Nem Le Pen nem Macron”, como notava Jorge Almeida Fernandes numa análise no Público há poucas semanas. Há cada vez mais eleitores de esquerda que, perante a deriva securitária de Macron, posicionando-se como uma cópia de Sarkozy, não veem razão para lhe dar o seu voto. Numa segunda volta Macron/Le Pen, a maior ameaça ao atual presidente pode ser a abstenção da esquerda, que no passado se mobilizou, mas pode já não ver razões para isso.

A ideia de que as diferenças entre Le Pen e Macron não são tais que justifiquem o apoio da esquerda ao atual presidente foi desafiada num artigo subscrito por cinco politólogos e economistas conotados com a esquerda, com um título assumidamente provocador: “Macron = Le Pen… A sério?”E concluem que Marine se arrisca mesmo ser eleita em 2022, não tanto pelo seu sucesso na normalização do seu partido e ideário, nem sequer pela sua consolidação eleitoral, mas pela desmobilização do outro lado: a “aversão” da esquerda a Macron pode culminar com a “rejeição da tradicional disciplina da ‘frente republicana’ na segunda volta.”

Em todo o caso, convém notar que Le Pen está mesmo a crescer nas sondagens, e Macron está a encolher. A poll of polls do Politico, que faz a média dos vários estudos de opinião que vão sendo divulgados, indica que a popularidade do presidente francês está em queda, e as intenções de voto favorecem a sua principal adversária. 60% dos inquiridos reprovam a atuação de Macron, contra apenas 37% que lhe dão nota positiva - um saldo negativo de 23 pontos. Nas intenções de voto, o agregador de sondagens coloca o atual inquilino do Eliseu com 25% na primeira volta das presidenciais de 2022, ligeiramente atrás de Le Pen (26%).

Duas das últimas sondagens publicadas em França reforçam a ideia de que Le Pen pode bater Macron na primeira volta - é o cenário colocado por este estudo publicado no Le Journal du Dimanche -, ou, no mínimo, podem ficar empatados, conforme indica esta sondagem do instituto Harris Interactive. Na pesquisa do Instituto Francês de Opinião Pública (IFOP) e da Fiducial, publicada pelo Le Journal du Dimanche, Le Pen vence a primeira volta em seis dos dez cenários considerados.

Os três pontos de vantagem de Macron sobre Le Pen em 2017 não se veem nos prognósticos para 2022. Porém, na segunda volta, todas as sondagens preveem que a história se repita: uma maioria de eleitores anti-Le Pen. 54%-46% é a previsão para a segunda volta tanto no estudo Harris Interactive divulgado esta semana como no do IFOP, revelado a 11 de abril.

A convicção de que, no fim, Le Pen perde sempre pode ser um fator adicional de desmobilização à esquerda - e, ironicamente, pode jogar a favor da líder da extrema-direita. Em todo o caso, essa “certeza” esconde outra evidência: o apoio do eleitorado à líder da União Nacional é cada vez mais robusto.

Embora seja um mau resultado, contar com o apoio de 37% dos eleitores a um ano das eleições não é fatal para Macron. Sarkozy só tinha a aprovação de 28% quando faltava um ano para as eleições a que se recandidatou (e perdeu); também a um ano das eleições, François Hollande só tinha nota positiva de 14% dos eleitores (e o panorama era tão mau que decidiu nem sequer tentar a reeleição).

No ano passado, depois de um péssimo resultado do seu partido nas eleições locais, em que os ambientalistas foram a estrela da companhia, Macron tentou responder à onda verde com uma remodelação e promessas de mais dinheiro e mais prioridade às questões ambientais. Agora, tenta travar a ameaça da extrema-direita assumindo a agenda securitária da extrema-direita...

Por cá, as sondagens não mexem

Se a França inclina para a direita e a Alemanha balança para a esquerda, por cá parece que nada mexe na política. Há suaves solavancos nas sondagens, como no estudo noticiado na 5ª feira pelo Expresso e pela SIC, realizado pelo ICS/ISCTE. Mas nada que mude o essencial. Uma prova? Olhe, mais uma vez, para o agregador de sondagens feito pelo Politico - desde as eleições legislativas de 2019, as linhas de evolução da intenção de voto nos partidos portugueses com assento parlamentar são impressionantemente estáveis.

A sondagem desta semana do ICS/ISCTE, marca, aliás, uma espécie de retorno à casa de partida: PS e PSD voltam mais ou menos aos resultados que tiveram nas últimas eleições, apesar de entretanto termos vivido um ano de pandemia, com todas as dificuldades que lhe estão associadas, e apesar da perspetiva extremamente pessimista dos inquiridos sobre a evolução da economia.

O politólogo Pedro Magalhães, um dos coordenadores da sondagem, costuma resumir no seu Twitter o que considera serem as principais conclusões do estudo. Pode ler aqui. Saliento três destaques do investigador principal do ICS-Lisboa:

  • A estabilidade nas intenções de voto dos dois maiores partidos, apesar de “esta ou aquela flutuação”;
  • O que mudou na oposição “foi fundamentalmente a descida do CDS e a subida do Chega”;
  • A taxa de aprovação do Governo voltou a subir, depois de um momento de queda após o verão.

É verdade que, por cá, ainda faltam dois anos para as eleições legislativas (se a legislatura chegar ao fim). E este é ano de eleições autárquicas - no passado, houve eleições locais determinaram o destino de governos. Mas, no panorama autárquico, a hegemonia do PS é mais do que evidente. E não se trata de uma hegemonia momentânea, mas construída ao longo de vários atos eleitorais. Essa é a base. A oposição tem seis meses para fazer mexer essa base.

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