Em quem vão votar os militantes do PSD?premium

A Semanada é uma newsletter do redator principal do ECO, André Veríssimo. Uma semana dominada pela campanha do PSD e a Covid. Tem ainda o 'termómetro da economia' e a agenda da próxima semana.

Em quem vão votar os militantes do PSD? A julgar pelas sondagens, não é no próximo primeiro-ministro, apenas no próximo presidente do PSD. O que não é de somenos, porque além de ser o líder da oposição, poderá ser a solução para garantir a governabilidade e uma alternativa para chegar ao cargo a prazo.

As nuvens de palavras são uma forma gráfica de perceber prioridades. Sujeitar as moções de Rui Rio e Paulo Rangel a esse tratamento faz sobressair alguns posicionamentos. Na do atual presidente, muito menos palavrosa do que a do rival, sobressai claramente a palavra "centro", usada 32 vezes no texto, fazendo eco daquilo que tem sido o seu posicionamento político.

Já o Eurodeputado, mais à direita, coloca uma grande ênfase nas empresas, com 54 ocorrências. Sobressaem também palavras como "ambição", "esperança" e "crescimento". Em ambos, o "social" merece grande destaque e não é só por causa do nome do partido. "Economia" e "crescimento" surgem amiúde. E também a palavra "socialista" ou "socialismo", o alvo a abater.

Votar Rui Rio é votar no rosto da liderança do partido nos últimos três anos, período em que pouco ou nada mexeu no ponteiro do eleitorado do partido, com exceção das autárquicas, onde o PSD conseguiu recuperar. Não parece que chegue para bater António Costa.

Votar Paulo Rangel é escolher uma via incerta, que pode revelar-se certeira para ganhar mais votos e deputados ou, pelo contrário, perdedora. Mas mesmo o PSD não ganhando, um líder novo terá mais margem para crescer e disputar as eleições seguintes.

Rio quer convencer os militantes convencendo o país de que é a escolha responsável, moderada e capaz de assegurar a estabilidade política depois de 30 de janeiro. Rangel quer mostrar que é quem melhor corporiza uma política de centro direita, alternativa à do PS.

Qual das duas laranjas abaixo vão os militantes sociais-democratas escolher este sábado?

Black friday nas bolsas

Lembra-se do pós-covid. Ainda não é desta. Do modo recuperação, há partes da Europa a saltar de cabeça outra vez para o modo resiliência, com a nova vaga da pandemia a levar a confinamentos que vão travar a economia. Na Alemanha já se espera uma estagnação do crescimento neste trimestre.

A ameaça pode tornar-se global. A descoberta de uma nova variante na África do Sul, com mais de 30 mutações no vírus, potencialmente mais transmissível e resistente às vacinas, lançou o pânico nos mercados. Foi uma black friday nas bolsas, com fortes quedas nas ações e nas matérias-primas (o petróleo chegou a perder 10%). Lisboa caiu 2,5%, metade dos 5% perdidos pelas praças de Paris e Madrid. União Europeia e Reino Unido já impuseram restrições às viagens a partir do sul do continente africano, o suficiente para os títulos das companhias aéreas aterrarem.

A reação epidérmica à B.1.1.529, que recebeu entretanto o nome de Omicron, pode ser exagerada. A OMS já está em campo, mas vai dizendo que é demasiado cedo para medidas drásticas, pedindo uma "abordagem científica e baseada no risco". Ou seja, não há ainda dados científicos suficientes para confirmar que a nova estirpe é tudo aquilo que se acha que ela pode ser. Mas concedeu na sexta-feira que se trata de uma "variante que suscita preocupação". Como uma má notícia nunca vem só, soube-se também esta sexta-feira que um antiviral da Merck contra a covid-19 é menos eficaz do que se pensava.

Tantos meses depois, a Europa continua a estar atrás da curva na luta contra a covid-19, incluindo nações de quem se esperava que estivessem à frente, como a Alemanha, que regista um número de casos recorde, em boa parte devido ao fracasso da política de vacinação. O mundo continuar a desperdiçar a ciência e as armas que ela lhe dá. Onde as vacinas existem, não se aproveitam. Onde elas quase não existem, surgem novas variantes.

A mensagem foi repetida vezes sem conta. Enquanto as vacinas não chegarem a todos os países, o risco de surgirem estirpes resistentes às vacinas é muito maior, ameaçando o investimento de centenas de milhares de milhões entretanto já feito. É o que agora se teme com a Omnicrom.

Portugal, pelo contrário, foi um exemplo no recurso à ciência. A situação, agora e nas próximas semanas, seria bem mais difícil não fosse um dos países com a taxa de vacinação mais alta do mundo. Também as medidas anunciadas pelo Governo, a que os especialistas parecem ter dado suporte, seriam mais gravosas. Ainda assim, também por cá se ficou atrás da curva. A vacinação com a terceira dose podia e deveria ter começado mais cedo e mais rápido.

Além da saúde dos portugueses, António Costa tem de se preocupar com a sua: um janeiro igual ao de 2020 poderá ter consequências eleitorais. Por outro lado, um país agarrado aos números da covid e sem muita cabeça para discussões eleitorais pode ser um aliado do status quo. Além de que uma semana (será só uma?) de confinamento geral em cima do arranque da campanha oficial para as legislativas não é propriamente favorável para as candidaturas rivais.

Tivemos o açambarcamento das vacinas, o nacionalismo das vacinas e agora a diplomacia das vacinas, mas a verdade é que o mundo não foi capaz de se juntar.

António Guterres

Secretário-geral da ONU, em outubro.

 

Boas e más notícias na zona euro

Primeiro as boas notícias. O índice dos gestores de encomendas (PMI) da IHS Markit, que funciona como indicador avançado da atividade económica, acelerou de forma inesperada em novembro, atingindo os 55,8 pontos (acima de 50 indica crescimento). Já o índice que mede as expectativas futuras baixou de 69 pontos em outubro para 66,6 este mês, refletindo já o receio do impacto da nova vaga da covid-19 e dos confinamentos na economia. O PMI do Reino Unido desceu ligeiramente, assim como o dos EUA, com a falta de trabalhadores e os problemas nas cadeia de abastecimento a penalizarem a atividade.

Alemanha pode estagnar no quarto trimestre
A quarta vaga da pandemia está já a ter reflexo na confiança dos agentes económicos. O índice de clima de negócios IFO desceu pelo quinto mês consecutivo, caindo para os 96,5 pontos, o nível mais baixo desde fevereiro. Klaus Wohlrable, economista do instituto IFO, disse à Reuters que a maior economia europeia está a caminho da estagnação no quarto trimestre. O ING vê mesmo o risco de uma pequena recessão.

Emissões de CO2 baixam na China
É uma boa notícia para o ambiente, mas um sinal negativo para a economia. As emissões de dióxido de carbono desceram 0,5% no terceiro trimestre, segundo dados da Carbon Brief, citados pelo Financial Times. A evolução é atribuída aos problemas no fornecimento de eletricidade e ao impacto da crise no imobiliário na produção de aço e cimento. É a primeira diminuição desde o confinamento do primeiro trimestre de 2020, depois do surto em covid-19 em Wuhan.

 

Magdalena foi primeira-ministra por sete horas, mas não desiste

EPA/Erik Simander/TT SWEDEN OUT

A líder do Partido Social-Democrata (sentada, na foto) tornou-se, aos 54 anos, a primeira mulher a ser eleita primeira-ministra da Suécia, 100 anos depois do voto feminino ter sido instituído no país. Magdalena Andersson esteve apenas sete horas no cargo, demitindo-se na sequência do chumbo da proposta orçamental no Parlamento e da saída dos Verdes da coligação governamental. Mas não atirou a toalha ao chão. Andersson terá o apoio dos deputados dos Verdes, Partido do Centro e Partido da Esquerda para liderar um governo social-democrata, impedindo a direita e os Democratas Suecos (populistas) de chegar ao poder. EPA/Erik Simander/TT SWEDEN OUT

Outros temas

No país dos unicórnios
Portugal já era o país da Europa com mais unicórnios per capita, segundo a estatística várias vezes repetida pelo fundador e CEO da Web Summit, e reforçou agora esse estatuto. Para ostentar a classificação do animal mítico, as empresas têm de atingir uma valorização de mil milhões de dólares. A portuguesa Sword Health fechou esta semana uma ronda de investimento de 189 milhões de dólares, que avalia a empresa em dois mil milhões. A startup de fisioterapia digital para patologias músculares-esqueléticas, criada em 2015 por Virgílio Bento, tem já mais de 250 colaboradores e foi uma das startups de maior crescimento nos EUA no último ano. O dinheiro será usado para recrutar mais 300 colaboradores, em Portugal e não só, acelerar a expansão global e desenvolver novas terapias digitais. Qual o segrego do sucesso? "Se o talento for liderado de forma meritocrática, o resultado são empresas como a Sword", diz o fundador em entrevista ao ECO. Este é o sexto unicórnio com ADN nacional, depois da Farfecht, OutSystems, Feedzai, Talkdesk e Remote.

Mãos sujas no futebol
Alexandre Pinto da Costa, filho do presidente do FC Porto, e Pedro Pinho, terão recebido comissões indevidas e avultadas na transferência de jogadores do clube e pelo contrato de venda de direitos televisivos à Altice, dinheiro que foi escondido do Fisco. Suspeitas que na segunda-feira motivaram buscas à SAD do Porto, à casa de Pinto da Costa e ao Banco Carregosa, entre outros locais. Em causa está a possível prática de crimes de fraude fiscal, burla, abuso de confiança e branqueamento. Apesar das muitas e antigas suspeitas, os sócios do FC Porto optaram em junho do ano passado por manter em jogo Pinto da Costa, reeleito com 68,7% dos votos. Na quarta-feira, foram visadas as SAD do Braga e do Guimarães, bem como a Gestifute de Jorge Mendes, por suspeitas da realização de negócios simulados entre clubes de futebol. No dia seguinte, o visitado foi o Tondela, por causa da venda do passe de um jogador ao FC Porto. A sujeira de quem o dirige continua a manchar o futebol.

CNN Portugal apostou em Rendeiro
O país viu nascer esta semana viu um projeto de comunicação social de grande fôlego, com bons jornalistas, o que é de saudar. A aposta em João Rendeiro garantiu uma audiência bem acima da rival SIC Notícias (3,1% contra 1,4%). O efeito secundário indesejável é ter dado também enorme audiência e antena ao banqueiro foragido e aos seus dislates.

Variante da covid fez o que Biden não conseguiu
O preço elevado do petróleo e a inflação por ele provocada não está apenas a “comer” o poder de compra das famílias norte-americanas. Está também a penalizar fortemente a popularidade do Presidente dos EUA. Depois de condenar a atuação da OPEP+, dominada pela Arábia Saudita e a Rússia, Joe Biden anunciou esta semana a libertação de 50 milhões de barris (o equivalente a 2,5 dias de consumo nos EUA) da reserva estratégica, alojada em cavernas subterrâneas, numa ação concertada com outros países, como o Japão, Reino Unido e China. É a quarta vez que este expediente é usado: antes da Guerra do Golfo, em 1991, depois dos furacões Katrina e Rita em 2005 e durante a guerra na Líbia, em 2011. O tiro foi, no entanto, de pólvora seca: a cotação manteve-se em redor dos 78 dólares. Politicamente, ajudou Biden a mostrar preocupação e esforço em baixar as despesas dos americanos antes do Dia de Ação de Graças, período marcado por longas viagens de carro para visitar a família. O preço da matéria-prima acabaria por ceder, mas por causa dos receios de alastramento da pandemia, caindo para 73 dólares nos EUA e 78 em Londres.

Jerome Powell, a cartada segura
Joe Biden decidiu conceder a Jerome Powell um segundo mandato à frente da Reserva Federal. O presidente dos EUA optou pela continuidade, num momento em que a política monetária atravessa um período particularmente desafiante, com taxas de inflação em máximos de três décadas e juros ultrabaixos. A escolha afronta a ala mais à esquerda do Partido Democrata -- Elizabeth Warren disse que Powell, escolhido por Trump, era "um homem perigoso" -- mas facilita a aprovação no Senado, dividido ao meio entre Republicanos e Democratas. Para agradar ao seu partido, Biden nomeou Lael Brainard, conhecida por ter posições mais duras na regulação do sistema financeiro, para a vice-presidência. Os analistas antecipam que, clarificada a liderança, Powell seja mais agressivo no regresso às subidas de juros.

Semáforo acende-se na Alemanha
SPD (vermelho), Liberais da FDP (amarelo) e Verdes chegaram a acordo para a formação de um governo de coligação liderado pelo social-democrata Olaf Scholz, atual vice-chanceler e ministro das Finanças no Executivo de Angela Merkel. A combinação tripartida é inédita na Alemanha e chega com uma forte mensagem de modernização do país, apostando na digitalização e na transição climática. Aumento do salário mínimo para 12 euros por hora, fim da produção de carvão até 2030, voto a partir dos 16 anos ou facilitar a naturalização de emigrantes são algumas das medidas-bandeira. Para a Europa, a coligação defende um aprofundamento da integração na UE e a defesa intransigente do "Estado de Direito", num recado para países como a Polónia e a Hungria. Apesar de querer um regresso aos limites do Pacto de Estabilidade em 2023, há abertura para uma reforma que incentive o investimento na modernização dos países. No Eurogrupo e no Ecofin estará Christian Lindner, o líder dos liberais, que será o novo ministro das Finanças. É de esperar alguns choques entre Lindner e a Robert Habeck, o co-líder dos Verdes, apontado para liderar o superministério da Economia e Ambiente. A colega Annalena Baerbock ficará com os Negócios Estrangeiros e não lhe faltarão crises para resolver.

Conta-corrente com o Fisco avança
É uma boa notícia para as empresas e uma medida de elementar justiça tributária. A última sessão parlamentar desta legislatura aprovou a conta-corrente entre o Fisco e os contribuintes. Quem tenha dívidas fiscais, mas também reembolsos a receber, passa a poder usar os segundos para saldar as primeiras. O pedido é feito no Portal das Finanças e a Autoridade Tributária terá dez dias para se pronunciar. Se nada disser, considera-se que há um diferimento tácito. O diploma só entrará em vigor a 1 de julho do próximo ano. A semana parlamentar foi ainda marcada pela aprovação da gratuitidade progressiva das creches, uma medida que constava da proposta de Orçamento do Estado do PS. Já as propostas do PCP para a alteração das leis laborais foram chumbadas. Também pelo caminho ficou a proposta de regulação do lóbi, que tinha sido negociada entre PS, CDS e PAN, depois do PSD apresentar uma proposta de alteração para incluir os advogados. Sexta-feira foi também o adeus de Ferro Rodrigues, Jorge Lacão e Telmo Correia ao Parlamento.

A seguir na próxima semana

  1. O primeiro-ministro marca presença este domingo na entrega do Prémio Manuel António da Mota, no Porto. No mesmo dia, o Bloco de Esquerda reúne a mesa nacional para discutir e votar o programa eleitoral.
  2. Na segunda-feira o INE publica os inquéritos de conjuntura às empresas e consumidores. Sai também o inquérito à avaliação bancária, referente a outubro. No mês anterior foi batido um novo recorde de 1.236 euros por metro quadrado. Terça-feira sai a estimativa rápida da inflação e as estimativas mensais de emprego e desemprego. Há também dados do turismo. O dado mais relevante é mesmo a publicação das contas nacionais trimestrais do terceiro trimestre, que trará informação mais detalhada sobre comportamento da economia naquele período.
  3. Se por acaso ainda não pagou a última prestação do IMI, saiba que dia 30 é o último do prazo para o fazer.
  4. Voltando à estatística, a semana começa com a divulgação da inflação na Alemanha, que deverá subir 4,7% em novembro, face ao mesmo mês do ano anterior. A nova coligação de governo tem na estabilidade dos preços uma das suas prioridades e é de esperar a continuação da pressão sobre o BCE. Na terça-feira sai a taxa de desemprego, que deverá manter-se nos 5,4%.
  5. Depois da divulgação dos PMI (indicadores avançados da atividade económica) das principais economias europeia esta semana, na próxima terça-feira serão conhecidos os índices na China. O PMI da indústria deverá subir para 49,8 pontos, enquanto o dos serviços poderá recuar para 52 pontos. Terça-feira sai também a primeira estimativa da inflação na zona euro em novembro (4,4% anual). No mesmo dia é divulgado o índice de confiança dos consumidores americanos, estimando-se um recuo para os 111,8 pontos.
  6. A sofrer com a pandemia está a Austrália. O PIB terá contraído 4% no terceiro trimestre, face ao anterior. Em termos anuais o crescimento baixa para 1,5%.
  7. Quinta-feira há reunião da OPEP. O cartel vai discutir a possibilidade de aumentar a produção e a pressão que tem sido feita pelos EUA. Mas o recuo das cotações e a renovada preocupação com a pandemia podem deixar tudo na mesma.
  8. A fechar a semana há eleições na Ordem dos Economistas para o quadriénio 2022 a 2025. Concorrem Pedro Reis, antigo presidente da AICEP e António Mendonça, ex-ministro dos Transportes.

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