Na Europa, os socialistas estão em apuros, cá é a direitapremium

As perspetivas para o regresso da direita ao poder em Portugal não são animadoras. A direita está a reconfigurar-se, mas não está a crescer. Leia o Novo Normal desta semana.

Há poucas semanas, quando o Expresso divulgou a mais recente sondagem feita pelo ICS e pelo ISCTE, João Cotrim Figueiredo, o líder da Iniciativa Liberal, não teve como disfarçar: “Alguma coisa está a falhar e é uma má sondagem para o espaço não socialista. A oposição não está a conseguir fazer o seu trabalho. (...) a oposição está a falhar, o PS está a fazer um trabalho extraordinário de conseguir, numa pandemia mal gerida, com uma Operação Marquês às costas, e com estes atrasos todos, manter as intenções de voto.”

É nestas circunstâncias que a direita portuguesa volta a reunir-se, na semana que vem, num evento promovido por um partner da Delloit Portugal - Jorge Marrão - e um gestor e consultor de empresas - Paulo Carmona -, que este ano é candidato à presidência da câmara de Sintra pela Iniciativa Liberal. São, desde 2019, os rostos do Movimento Europa e Liberdade (MEL), que se assume como fazedor de pontes à direita, entre “todos que não se revejam num governo apoiado por comunistas, trotskistas, extrema-esquerda e novos oportunistas da situação” (foram estes os termos do apelo original, em 2019).

Apesar do sucesso da iniciativa, que este ano conseguiu, pela primeira vez, reunir os quatro líderes dos partidos à direita do PS - Rui Rio, André Ventura, João Cotrim Figueiredo e Francisco Rodrigues dos Santos -, as perspetivas para o regresso da direita ao poder em Portugal não são animadoras. A direita está a reconfigurar-se, mas não está a crescer. A única força política à direita com um crescimento sustentado e robusto é o Chega. A Iniciativa Liberal também parece estar a consolidar posições, mas com números menos vistosos do que os do partido de André Ventura.

A tal sondagem do Expresso que justificou o desânimo de Cotrim Figueiredo dava 37% ao PS e 29% ao PSD. Era, apesar de tudo, uma das mais otimistas para o espaço não-socialista, com a geringonça junta (PS+PCP+BE) a somar 53% (55% juntando o PAN); a direita toda reunida ficava pelos 38%, ou seja, pouco acima do PS sozinho. Com maiores ou menores ajustes, a generalidade das sondagens tem apontado para o mesmo cenário: maioria absoluta à esquerda; PS a valer tanto ou quase como toda a direita - e, para isso, a direita tem de incluir, necessariamente, o Chega, que se tornou indispensável para que esse lado do espectro partidário sonhe em ser competitivo.

No próximo fim de semana Ventura tem mais um congresso do Chega (veremos se será tão embaraçoso como foi o anterior), no qual se apresenta com o estatuto de líder da oposição (numa sondagem do DN, surgiu lado a lado com Rio nessa qualidade). Por circunstância e por natureza, Ventura canta de galo: há uns meses constatava, numa entrevista ao Público, que, sem si, “Rui Rio nunca será primeiro-ministro”. Esta semana, já dizia no seu Twitter que “Isto será taco a taco entre Chega e PSD!”.

Também deixou um desafio público ao seu presuntivo parceiro de coligação num futuro governo de direita: “Vou propor uma reunião a Rui Rio para perceber se a ideia é continuar a permitir este estado de coisas ou fazer oposição dura e a sério, com o objetivo de salvar Portugal.” Para Ventura, não há como fugir ao que dizem as sondagens: “o PSD está em mínimos históricos” e “não há uma [sondagem] que dê um crescimento sustentado do PSD”. “Assim o PSD perceba se quer ser Governo ou se quer ser só um partido para andar ali nos 21%, 22% a protestar e a não querer ser mais nada”, disse à Lusa.

O desafio foi feito (pelo menos em público) poucos dias depois de Rio ter assumido que consigo a extrema-direita não será “ostracizada” - por muito que outros dirigentes sociais-democratas, como David Justino, tentem por água na fervura e manter as distâncias entre “o maior grupo parlamentar da oposição” e “um partido que é um deputado, mais nada”.

O certo é que Rio promete negociar com a extrema-direita, embora impondo “linhas vermelhas”. Mas não especificou quais seriam essas “linhas vermelhas”. Não passam, seguramente, por deixar longe do PSD gente com um discurso igualzinho ao do Chega, como é o caso de Suzana Garcia… (no mesmo webinar em que Rio defendeu que não se pode “ostracizar” a extrema-direita, um jovem da JSD que o questionou sobre a candidata à Amadora faz este comentário: “Se o Chega tentou ir buscá-la duas vezes, por alguma coisa foi... mas para o PSD, desde que ela mantenha isso reprimido já funciona…”. Rio objetou à palavra “reprimido”, mas admitiu que é essa a sua estratégia - trazer para o PSD gente que poderia estar no Chega, e, se preciso, negociar o apoio do Chega. Vale a pena ver, aqui - a parte de que falo está a partir dos 60 minutos.)

Na entrevista que deu esta semana ao Público e à Renascença, David Justino, ao mesmo tempo que desvaloriza a relevância do Chega, rende-se à “necessidade de fazer a aritmética”. Foi isso, explica, que justificou o acordo com o Chega nos Açores: “Havendo essa vontade de mudar, devemos fazer todos os esforços, mesmo que nos tenhamos de revoltar por dentro”. E se esse cenário se repetir nas próximas legislativas? O PSD alia-se ao Chega, ainda que “revoltado por dentro”? Justino não põe isso de parte.

“O diálogo com a extrema-direita é um erro político grave que ainda espero ver corrigido”, dizia Pacheco Pereira à Visão desta semana, que publicou uma grande investigação nos bastidores do namoro entre a direção de Rui Rio e o partido de André Ventura. Pacheco é insuspeito: apoiou a candidatura de Rio à liderança e aceitou, recentemente, integrar um órgão consultivo que colaborará no programa eleitoral do partido. Mas vê qualquer aproximação ao Chega como “um caminho sem retorno”.

Breve revisão de uma liderança ziguezagueante

Vale a pena fazer um curto parêntesis para recordar o sinuoso percurso de Rio desde que se candidatou ao lugar deixado vago por Passos Coelho em 2017:

  • Rio candidatou-se em nome de um recentramento do do PSD, recusando a deriva de direita neoliberal protagonizada por Passos;
  • Nessa lógica de recentramento, afirmou e reafirmou que o PSD não é (“nem nunca foi”) um partido de direita: o seu espaço vai do centro e centro-direita até ao centro-esquerda;
  • Por várias vezes Rio hostilizou a ala mais à direita do PSD, nomeadamente gente mais ligada ao passismo e às teses liberais;
  • Depois de Santana Lopes sair do partido, a direção do PSD incentivou outros que também estivessem desconfortáveis a fazer o mesmo - um recado dirigido ao setor mais à direita, que sempre, desde a fundação, coexistiu no PSD com as correntes mais centristas e social-democratas. Na versão de Rio, um partido “não é um albergue espanhol”.
  • Com este posicionamento, Rio encostou o PSD ao PS (disponibilizando-se para vários acordos de bloco central), e foi muito criticado no partido, incluindo por velhos aliados seus. Não só enfraqueceu a ideia de alternativa, como descuidou e hostilizou o eleitorado mais conservador (e até reacionário) do PSD.
  • Tudo isto coincidiu com a erosão do CDS, já sem Paulo Portas na liderança, e com a emergência de dois novos partidos à direita do PSD, atentos a esse eleitorado que ficava orfão: a IL e, sobretudo, o Chega.
  • Surpresa das surpresas: uma parte do eleitorado de direita que Rio rejeitou… fugiu. Para o Chega, e algum para a IL. O desaparecimento do CDS fez o resto.

Tenho dito que este percurso é como aquela história do rapaz que mata o pai e a mãe e depois se queixa de que, coitadinho, é órfão. Rio, o “centrista”, maltratou a direita do seu partido e, agora, vê-se na necessidade de se aliar à extrema-direita (para cujo crescimento contribuiu) para poder sonhar em voltar ao poder. Não dialogou com os que estavam dentro do partido, para agora dialogar com os que estão fora, como dizia ontem à noite Helena Matos no Expresso da Meia-Noite. Fim do parêntesis.

O barómetro do site internacional Politico, que junta num único gráfico os resultados de todas as sondagens divulgadas em cada país, confirma tanto a incapacidade da direita portuguesa crescer, como a alteração de forças dentro deste espaço político. Metendo na Bimby todas as sondagens divulgadas em Portugal, o resultado atual é este:

  • PS: 38%
  • PSD: 26%
  • BE: 7%
  • Ch: 7%
  • PCP: 5%
  • IL: 3%
  • PAN: 3%
  • CDS: 3%

Olhando para a evolução desde as legislativas de 2019, constatamos que quase não há mudanças: tal como indicam as diversas sondagens, esta “sondagem das sondagens” mostra que a correlação de forças mal se alterou desde outubro de 2019, apesar da pandemia, da crise económica e do expectável desgaste do Governo nestas circunstâncias. A principal alteração, olhando para a evolução das várias linhas, é o rearranjo de forças à direita: o PSD não passa da cepa torta, o CDS vai desaparecendo aos poucos, enquanto a Iniciativa Liberal vai consolidando o seu espaço e o Chega se afirma, sem sombra de dúvida, como a segunda principal força do lado direito da política portuguesa.

Se olharmos para uma série mais longa, é interessante perceber como, desde junho de 2011 (quando começa esta poll of polls do Politico), o PS e o PSD inverteram posições, o CDS caminhou para a quase irrelevância, e novos partidos foram surgindo e afirmando o seu espaço, tanto no centro como à direita.

Às avessas da Europa

Curiosamente, esta é uma história ao arrepio do que está a acontecer e aconteceu na Europa nos últimos anos. Portugal e Espanha são os dois principais outliers num continente onde os partidos socialistas e sociais-democratas têm perdido terreno, nalguns casos levando à quase irrelevância partidos que foram decisivos ao longo de décadas. É verdade que Espanha partilha connosco esta originalidade ibérica de governos socialistas apoiados por partidos de extrema-esquerda, mas a tendência europeia é de desaparecimento ou de travessia do deserto para muitos partidos socialistas ou sociais-democratas.

Os países nórdicos ainda são a exceção que confirma a regra. A social-democracia continua forte na Dinamarca, Suécia e Finlândia. Mas os partidos socialistas estão nas ruas da amargura em França, em Itália e na Grécia, onde durante anos foram a força decisiva do governo ou da oposição.

Na Alemanha, o outrora poderoso SPD não consegue inverter o plano inclinado em que caiu - o desgaste provocado pelo seu estatuto de junior partner na atual “grande coligação” com Merkel deverá lançá-los para um inédito terceiro lugar nas eleições deste ano. A Alemanha é, aliás, um bom ponto de observação de outra tendência europeia que ainda demora a chegar a Portugal: o crescimento dos novos partidos Verdes.

As últimas eleições para o Parlamento Europeu (2019) permitiram constatar isso mesmo: os Verdes apanharam boleia das manifestações dos jovens pelo clima, de uma nova atenção aos direitos dos animais e a estilos de vida saudável, e cresceram um pouco por toda a Europa, da Alemanha à França, do Reino Unido à Finlândia e à Irlanda. Também em Portugal essa tendência teve reflexo, com o PAN a eleger um eurodeputado (que entretanto se desvinculou do partido…), mas nada que se pareça com a verdadeira onda verde que varreu a Europa, crescendo nalguns casos à custa de partidos clássicos de esquerda, e noutros em detrimento do “centrão”.

O Reino Unido é um bom exemplo dos sarilhos em que vive boa parte da esquerda europeia. A vitória de Jeremy Corbyn, sucedendo a vários herdeiros do centrismo de Tony Blair, foi apresentada como o regresso da verdadeira esquerda, trabalhista e operária. Hoje, Labour debate-se para sair do buraco em que os anos de Corbyn o deixaram.

O inglês que fez a mesma aposta que Rui Rio… e perdeu

No início deste mês, o Partido Trabalhista teve o mais recente revés. Várias eleições locais aconteceram na “super quinta-feira” de 6 de maio, e algumas eram mjuito relevantes para medir as hipóteses de relançar eleitoralmente o Labour - à semelhança do que tem dito por cá o presidente do PSD, Rui Rio, também Keir Starmer, o líder do Partido Trabalhista, apontou as eleições locais como o primeiro passo para que o seu partido aspire a voltar ao poder. Em causa estavam sobretudo alguns bastiões tradicionalmente trabalhistas, que o Labour perdeu nos últimos anos, e que precisava de recuperar para solidificar no terreno a sua posição como alternativa nacional a Boris Johnson.

O partido até conseguiu um conjunto de resultados animadores - por exemplo, reforçando o seu peso nalgumas grandes cidades que já controlava, como Londres ou Liverpool - mas os tais bastiões trabalhistas no território que em tempos era conhecido “red wall” (muro vermelho) não só não foram recuperados como fugiram ainda mais para o Partido Conservador.

“Perdemos a confiança da classe trabalhadora”, reconheceu Starmer, o homem que pegou nos cacos do Partido Trabalhista em abril de 2020, depois de Corbyn o ter conduzido à pior derrota em eleições legislativas desde 1935. À guinada esquerdista de Corbyn, Starmer respondeu com o recentramento do partido, à procura do eleitorado que deu as maiorias absolutas à Terceira Via de Blair.

Porém, nem o novo posicionamento moderado do Labour, nem os grandes falhanços de Boris Johnson na gestão da pandemia de covid-19 ao longo de 2020, permitiram aos trabalhistas recuperar esses territórios operários que, em 2019, sucumbiram aos encantos de Johnson. O primeiro-ministro, alavancado numa campanha de vacinação que parece ter feito esquecer todos os erros do ano passado, cantou vitória em circunscrições operárias do Centro e Norte de Inglaterra.

Num dia em que se concentraram eleições no Reino Unido para diversos níveis de poder, um círculo em particular - Hartlepool, no Nordeste de Inglaterra - foi notícia nacional: será representado pelos conservadores pela primeira vez de que essa circunscrição foi criada, em 1974. Ao longo destas décadas, Hartlepool escolheu sempre um candidato trabalhista como seu representante na câmara baixa do Parlamento, em Westminster. Há duas semanas isso mudou, numa eleição intercalar que se tornou o símbolo nacional do fracasso da liderança trabalhista.

Quanto às eleições locais, o Partido Trabalhista perdeu-as para os Conservadores pela vigésima vez, em 28 eleições disputadas desde 1918 - apenas oito vitórias em pouco mais de um século é uma boa medida do quanto o Labour terá de “escalar uma montanha” para poder fazer sombra a Boris Johnson, o homem que conquistou o apoio de milhões de operários graças à sua campanha a favor do Brexit.

Mas Johnson não se limitou a cavalgar o populismo anti-europeu. Rompeu com o paradigma thatcheriano do Governo pequeno e dos impostos baixos. Uma tendência acentuada pela emergência da pandemia. Aos olhos da ala mais conservadora dos tories, Johnson parece cada vez mais “socialista”. Escolheu um ministro das Finanças, Rishi Sunak, cujos orçamentos se destacam pela prodigalidade com que deita dinheiro na economia (a conta, já se percebeu, virá na forma de impostos). Logo em março do ano passado, nos primórdios na pandemia, mal Sunak apresentou a sua proposta de orçamento, Martin Wolf escreveu no Financial Times: “A austeridade e o governo pequeno desapareceram: este [Partido Conservador] é agora o partido da grande despesa e do governo grande. O seu programa é o ‘nacionalismo de bem-estar”.

Passado um ano, Johnson continua a milhas da cartilha neoliberal de Thatcher. Basta ver o programa de governo que anunciou para o pós-pandemia no último discurso da Rainha, como bem nota o Bernardo Pires de Lima no seu texto de hoje no DN.

Não é só no Reino Unido. Já perdi a conta aos artigos publicanos na bíblias liberais e defensoras do mercado - do FT à Economist e ao Wall Street Journal - sobre o fim da era em que o Estado devia ser mínimo, os gastos públicos, magros, e os impostos, baixos. A resposta europeia à pandemia dará teses de doutoramento (podemos começar por esta análise da Economist). Em Itália, Mário Draghi dá mais um contributo para baralhar os velhos pontos cardiais que demarcam esquerda e direita, com a absoluta recusa da austeridade, conforme realça no seu texto de hoje o Jorge Almeida Fernandes, no Público. Portugal, pelo seu lado, apresentou ao mundo outra originalidade: um governo socialista apoiado por marxistas e trotskistas cujo maior triunfo foi o controlo das contas públicas e o “primeiro excedente orçamental da democracia” (foi no ano passado mas já parece pré-história, bem sei…)

O tempo do PSD autárquico terá desaparecido de vez?

Tal como o inglês Starmer, por cá também Rio disse sempre que o desafio eleitoral decisivo para a sua liderança seriam as autárquicas. Por um lado, porque Rio deu, desde o início, as legislativas como perdidas - a sua convicção é que nunca venceria Costa nessas eleições; por outro, porque o ex-autarca do Porto sempre entendeu o poder local como a base da dinâmica de poder do PSD.

Com as fichas todas nas autárquicas, Rio passou por duas eleições nacionais em que registou o pior resultado da história do PSD e o segundo pior em legislativas. Nas europeias de 2019, o partido caiu mais fundo do que nunca: 21,9%. Não foi apenas o pior resultado nacional da história do PSD; foi também a eleição nacional em que ficou mais evidente o desaparecimento do partido nos grandes centros urbanos, esmagado pelo PS. Um desfecho que foi sendo preparado em sucessivas eleições autárquicas.

As autárquicas costumam ser uma espécie de teste intercalar para os partidos que governam. Em 2001, levaram à demissão de António Guterres, permitindo a Durão Barroso chegar ao poder. As últimas, em 2017, acabaram por ser um teste, não ao Governo, mas à oposição: consolidaram o poder de António Costa, com o melhor resultado de sempre do PS, mas provocaram a demissão de Pedro Passos Coelho da presidência do PSD. As próximas, tudo o indicam, podem ser também um teste mais decisivo para o líder da oposição do que para o chefe do Governo.

Rui Rio conhece como poucos o peso que as eleições locais podem ter - foi numas autárquicas que se tornou uma figura nacional, ao conquistar a Câmara do Porto, em 2001, e foi graças a umas autárquicas que chegou à liderança do seu partido, dezasseis anos depois. E sabe que o seu destino político depende destas autárquicas. Não será tarefa fácil. Este é o atual mapa autárquico, definido em outubro de 2017:

Não é só o presente que significa um mau ponto de partida para Rio. É também o passado. Um estudo encomendado pelo PS, a propósito dos 48 anos do partido, e parcialmente divulgado há poucas semanas, mostra bem como os socialistas ganharam terreno no poder local, consolidando aí uma importante base de poder, ao mesmo tempo que o peso dos sociais-democratas ia recuando. Historicamente, “por cada cinco câmaras municipais que o PS ganha numa determinada eleição, tende a manter pelo menos quatro delas na eleição seguinte”, constata o autor do estudo, Raul Lopes, professor do ISCTE. Se assim continuar a ser, o ciclo autárquico do PS está longe de estar esgotado.

Algumas das principais conclusões sobre o peso do PS nas autárquicas:

  • “O PS é hoje o único partido com uma expressão autárquica verdadeiramente nacional, disputando a hegemonia do poder local”.
  • O PS venceu seis das 12 eleições autárquicas realizadas até hoje. Mais: “à excepção de 1979 e de 1985, o PS obteve sempre mais de 1/3 dos votos nas eleições autárquicas, chegando mesmo a superar os 40%”.
  • “O PS governou pelo menos durante 12 anos (em muitos casos mais de 24) as câmaras municipais de 72% dos espaços urbanos”;
    • nos espaços urbano-rurais governou 60% dos municípios,
    • 61% nos espaços rurais e
    • 50% dos espaços metropolitanos
  • Desde 2017 os socialistas dominam 159 autarquias (142 com maiorias absolutas), e o PSD apenas 79.

O enraizamento autárquico do PS começa logo nas primeiras eleições, em 1976, quando o partido tem mais votos, mais presidências de câmara e mais mandatos, embora o mapa do país mostre algum equilíbrio: PS e PSD dominam, cada um, sete distritos, mas o PCP controla três e na Guarda o CDS é quem mais ordena.

Pelos anos subsequentes, o equilíbrio foi pendendo para um lado e para outro, com o CDS, primeiro, e o PCP, a seguir, a denotarem uma significativa erosão do seu peso autárquico. Nos anos 80, o furacão Cavaco limpou boa parte das câmaras CDS e pintou o país de laranja, como vemos no mapa de 1985:

Nos anos 90, após a queda do Muro de Berlim e o fim da URSS, o PCP começou também a derrapar, embora com razoável capacidade de conter os danos.

Em 2001, nas tais eleições que ditaram a demissão de António Guterres, o PSD conquistou 159 presidências de câmara, o recorde de sempre para o partido. O mapa ficou assim:

Não foi só uma noite esmagadora do ponto de vista quantitativo, mas também qualitativo - o PSD conquistou as duas principais câmaras do país (Lisboa e Porto) e outras grandes autarquias, como Sintra, Gaia ou Coimbra. Em 2005, os sociais-democratas mantiveram posições, mas de então para cá, tem sido sempre a descer.

O primeiro sinal surgiu em 2007, quando os sociais-democratas perderam Lisboa para António Costa, em eleições intercalares - os conflitos internos em que o PSD costuma ser pródigo fizeram com que Fernando Negrão, o candidato laranja, tivesse apenas 15%.

Em 2009 começou a queda autárquica do PSD. Manteve o título de partido com mais presidências de câmara, e segurou bastiões, mas perdeu 20 autarquias, enquanto o PS conquistou 23. Quatro anos depois, acentuou-se a tendência, com os dois partidos a trocarem de posições: em 2013 o PS tornou-se a maior força autárquica, com 150 câmaras; e o PSD perdia em números e em relevância, vendo fugir-lhe bastiões como Porto, Gaia e Sintra. 2017 acentuou ainda mais as duas tendências, com o PS a crescer em número de autarquias pela terceira eleição seguida, e o PSD a perder ainda mais terreno no litoral e nos grandes centros urbanos, onde está a maioria do eleitorado.

Para se perceber melhor, atualmente, olhando apenas para os 20 maiores municípios do país em população:

  • o PS governa 11,
  • o PSD 5,
  • a CDU 2 e
  • outros dois são liderados por independentes.
  • Só nesses 11 grandes concelhos governados pelo PS vive um quarto da população portuguesa (2,5 milhões de habitantes).

Se reduzirmos o ranking apenas aos dez maiores concelhos, o resultado não é muito diferente - o PS controla 5, o PSD 2, a CDU 1 e outros 2 estão nas mãos de independentes.

Entre 2013 e 2017 o PSD quase desapareceu nas grandes áreas metropolitanas, tornando-se mais rural e concentrado no Interior e no Norte.

Foi este mapa muito cor-de-rosa que Rui Rio herdou de Pedro Passos Coelho e terá de enfrentar. Tem uma vantagem: o ponto de partida é tão mau, que é quase impossível não melhorar. Apesar disso, as sondagens nacionais não preveem grandes mudanças. As poucas sondagens autárquicas conhecidas até agora também não dão sinal disso… Esta semana, o Expresso tinha uma espécie de guia de sobrevivência autárquica de Rui Rio. Há capitais de distrito onde as atenções estarão concentradas: recuperar Lisboa, Porto, Coimbra, Leiria, Castelo Branco e Viana do Castelo, e segurar a Guarda - de todas estas hipóteses, o mais viável será manter a Guarda (apesar do PSD se apresentar dividido) e talvez conquistar Castelo Branco (onde o PS se dividiu). Há outras apostas fortes de Rio em grandes concelhos - Sintra, Amadora e Gaia; mas em todos estes os socialistas mostram-se seguros de que não haverá surpresas.

Também é verdade que as eleições autárquicas são bastante difíceis para os novos partidos, que até podem conseguir alguma projeção nacional, mas não têm estrutura local suficiente para reproduzir esse impacto ao nível autárquico. A dificuldade dos partidos neste nível de poder vê-se bem pela quase erosão do CDS - que em tempos chegou a ter 4 dezenas de câmaras - e pela falta de implantação local do BE, que apesar do crescimento na AR, não consegue ganhar poder autárquico.

Quer isso dizer que os grandes partidos podem dormir na forma? Claro que não: a ameaça pode não vir dos novos partidos, mas vem dos movimentos independentes, que já são a terceira maior “força política” autárquica do país, com 17 presidências de câmara (entre elas, o Porto e Oeiras). Não será por acaso que PS e PSD se juntaram para as infames alterações à lei autárquica que visavam dificultar a vida aos candidatos independentes.

Crise estrutural ou crise de liderança?

Aqui chegados, percebe-se melhor por que razão o Presidente da República se mostra tão preocupado com a ausência de uma oposição forte à direita, capaz de se apresentar como uma alternativa aos olhos do eleitorado. E, ainda há poucos dias, especulou sobre a hipótese de Rio se manter à frente do PSD, ou sair depois das autárquicas. O problema da direita em geral e do PSD em particular será estrutural ou apenas de liderança?

Não há nenhuma lei cósmica que diga que a esquerda terá eternamente a maioria na Assembleia da República. Os inquéritos sobre o posicionamento dos eleitores no espectro esquerda/ direita indicam, em Portugal, alguma vantagem da esquerda, mas nada de fatal. Os últimos dados do European Social Survey, referentes a 2019, 38% dos inquiridos posicionavam-se à esquerda, contra 32% à direita.

Mas estes dados devem ser lidos com cautelas, por duas razões. Por um lado, um em cada quatro inquiridos recusou responder; por outro, numa escala que vai de 0 (mais à esquerda) a 10 (mais à direita), há 38% que se situam no 5, o ponto médio da escala. Significa isto que a maior fatia do eleitorado é centrista e moderada? “Não necessariamente”, explica o politólogo Pedro Magalhães: “o que sabemos sobre os [que se posicionam no ponto] 5 é que participam politicamente menos, estão menos informados sobre política, menos interessados. O 5 é centrismo para uns e indiferença para outros, daí estarem lá tantos”.

Apesar disso, a vantagem do lado esquerdo do espectro indicia que a direita está condenada a perder eleições nacionais? Também não. Em 2002 e 2011 também havia uma maior inclinação dos inquiridos pela esquerda, o que não impediu a direita de chegar ao poder. A diferença é que, nesse tempo, ainda valia a teoria de que quem ganhava as eleições governava - isso mudou com Costa e a geringonça. Outra diferença: os eleitores que se colocam no meio da escala esquerda/ direita cresceram bastante desde então - sejam moderados ou indiferentes, a sua atitude será decisiva para saber quem governa.

“Não há nada de estrutural” na crise de resultados e de sondagens da direita, garante o vice-presidente do PSD Nuno Morais Sarmento, em declarações publicadas ontem pelo Expresso, num texto que foi tema de capa da revista. Em abono da sua tese, lembra que “Cavaco esteve dez anos no poder e ninguém disse que a esquerda tinha de se reinventar ou que estava numa crise estrutural”.

Não é bem assim: por um lado, basta reler os jornais da época para constatar que não faltou quem alertasse para a “crise estrutural” da esquerda durante esses anos, e para a necessidade desta se reinventar - o PCP levou com o impacto da queda do Muro de Berlim e do fim da URSS, e o PS reinventou-se duas vezes: com Jorge Sampaio, ensaiou o frentismo de esquerda que permitiu a coligação que conquistou Lisboa; com António Guterres reposicionou-se ao centro, seguindo a Terceira Via de Blair.

Por outro lado, havia outra diferença essencial: Cavaco era todo-poderoso no Governo do país, com duas maiorias absolutas, mas teve reveses importantes nas eleições autárquicas, quer em 1989, quando perdeu Lisboa, quer em 1993, quando o PS se tornou o maior partido autárquico. A diferença é que agora o PS domina no Governo e domina nas autarquias.

Mas talvez Morais Sarmento tenha mesmo razão. O problema pode não ser estrutural. Pode ser apenas um problema de liderança. Se assim for, pode ser fácil de resolver: basta mudar de líder. A questão será "apenas" encontrar esse líder.

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