Portugueses aproveitam poupanças recorde da pandemia para investir com maior risco

A “elevada procura por parte dos aforradores portugueses” foi determinante para “um dos melhores anos da história dos fundos de investimento mobiliários”, diz o presidente da APFIPP.

Historicamente conservadores na altura de aplicar as suas poupanças, os portugueses alteraram o padrão dos seus investimentos nos últimos tempos, aproveitando as várias dinâmicas provocadas pela pandemia para assumir um risco mais elevado. O nível de apetência por ativos de maior risco por parte dos aforradores portugueses é difícil de aferir. A análise aos fluxos observados nos fundos de investimento mobiliários (FIM) é uma das melhores opções, uma vez que estes produtos oferecem soluções para todo o tipo de investidores, dos mais conservadores aos mais agressivos.

Começando pelos montantes captados pelos FIM, 2021 foi o terceiro ano consecutivo em que as subscrições superaram largamente os resgates, tendo sido fixado um recorde acima de 4 mil milhões de euros. Para se ter uma ideia da dimensão, o valor captado quase duplicou o anterior recorde (2,2 mil milhões de euros em 2009). Como a generalidade dos ativos valorizou, as carteiras dos FIM geridos pelas instituições portuguesas fecharam 2021 muito perto dos 20 mil milhões de euros. Trata-se de um crescimento acima de 5 mil milhões de euros (+35%) no espaço de um ano e de 77% face ao registado no final de 2018.

“O ano passado foi, sem dúvida, um dos melhores anos da história dos Fundos de Investimento Mobiliário”, diz ao ECO o presidente Associação Portuguesa de Fundos de Investimento, Pensões e Patrimónios (APFIPP), João Pratas, salientando que “uma parte significativa desse crescimento deveu-se a uma elevada procura por parte dos aforradores portugueses”.

O valor dos ativos geridos pelos FIM atingiram em 2021 o nível mais elevado desde o final de 2007, pelo que só 14 anos depois o mercado conseguiu recuperar da sangria de quase 9 mil milhões de euros gerada pela crise financeira de 2008. Uma tendência bem percetível no gráfico em baixo, com a evolução anual dos ativos sob gestão e das subscrições líquidas (subscrições brutas menos resgates).

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Mas quais são as razões que explicam a maior apetência dos aforradores portugueses pelos fundos de investimento para aplicar as poupanças? O ECO falou com o presidente da APFIPP, a Caixa Gestão de Ativos (líder destacada do mercado português) e o professor Pedro Brinca, da Nova SBE. As conclusões convergem para três fatores principais: 1) aumento da poupança durante a pandemia; 2) valorização dos ativos cotados nos mercados; 3) reduzido nível das taxas de juro, que afastam os aforradores dos produtos tradicionais como os depósitos.

Tal como noutros países, a taxa de poupança dos portugueses disparou desde o início da pandemia, tendo atingido um recorde de 14,4% no primeiro trimestre do ano passado, mantendo-se em níveis historicamente acima da média nos últimos trimestres apesar da reabertura da economia e retoma do consumo. “O aumento dramático da taxa de poupança por via das restrições ao consumo levadas a cabo pelas estratégias de controlo sanitário terá proporcionado uma muito maior disponibilidade de fundos para investimento”, explica Pedro Brinca.

O “crescimento extraordinário” do mercado de FIM em 2021 pode ser explicado pelo “elevado crescimento da poupança, ainda assim, em níveis inferiores aos da Europa”, salienta Filipa André, diretora de Marketing e Comunicação da Caixa Gestão de Ativos, citando ainda outras causas, como “a baixa remuneração oferecida por outras aplicações, como os depósitos a prazo ou os certificados do tesouro e de aforro”, que tornam “estes produtos de poupança tradicional em Portugal menos apelativos financeiramente”. Por outro lado, “a fase de expansão do ciclo económico, caracterizada por registos de crescimento real robusto, nos últimos dois anos, associada a um ambiente de taxas de juro reais historicamente baixas ou negativas, favoreceu um comportamento positivo dos mercados financeiros, reforçando o sentimento positivo dos investidores”.

Além do ano histórico em termos de captação de investimento, 2021 foi também um ano muito positivo para os fundos portugueses em termos de rendibilidades. Entre os 34 FIM que têm ações nas carteiras, cerca de dois terços fecharam o ano com rendibilidades acima de 20%. “Os depósitos, tradicionalmente o instrumento preferido dos portugueses para aplicar as suas poupanças”, oferecem “níveis de remuneração próximos de zero”, diz João Pratas, destacando que “aliado a esse fator, a boa performance dos mercados de capitais, em particular do segmento acionista, permitiu que os portugueses voltassem a considerar os fundos de Investimento como veículo de aplicação das suas poupanças”.

Depois das fortes valorizações das bolsas em 2020 e 2021, “primeiro trimestre de 2020 viu uma queda bastante acentuada devido ao começo da pandemia, mas a partir daí a recuperação de muitos ativos, com ações à cabeça, terá criado um forte momentum em que os investidores, que tipicamente andam sempre atrás da curva, foram seguindo as rendibilidades crescentes, eventualmente até reforçando por esse comportamento as próprias rendibilidades”, explica o professor da Nova SBE, adiantando que “estes fenómenos de ‘herd behavior’ levam a que os mercados de valores mobiliários ganhem ciclos muito persistentes em termos de dinâmicas”.

A boa performance dos mercados de capitais, em particular do segmento acionista, permitiram que os portugueses voltassem a considerar os Fundos de Investimento como veículo de aplicação das suas poupanças.

João Pratas, presidente da APFIPP

Investimento em ações supera obrigações pela primeira vez

O maior fluxo de investimento em FIM, só por si, diz pouco sobre o nível de risco que os portugueses estão a assumir na aplicação das suas poupanças. Mas a análise à distribuição dos investimentos pelas diferentes categorias de fundos mostra bem como as aplicações estão a crescer nas ações e a baixar nas obrigações. A tendência acentuou-se em 2021, com o valor aplicado em fundos de ações a superar pela primeira vez o investimento em fundo de obrigações (os dados da APFIPP remontam a 1999).

“Os elementos de que dispomos parecem indiciar” que os portugueses estão mais propensos a investimentos de maior risco, pois “temos verificado, nas aplicações em FIM, uma maior procura por fundos com um perfil de risco mais agressivo”, diz o presidente da APFIPP. João Pratas assinala que, em 2019, cerca de um terço do total de FIM correspondia a fundos sem qualquer exposição acionista (fundos do mercado monetário, fundos de curto prazo e fundos de obrigações), enquanto, no final de 2021, as mesmas tipologias de fundos representavam apenas 25%. Reforça que os “fundos de ações, que em 2019 pesavam 14%, aumentaram para 18%” e os “fundos multi-ativos e fundos flexíveis passaram de 35%, em 2019, para 39%, em 2021”.

As carteiras dos fundos de ações geridos em Portugal tinham ativos no valor de 3,34 mil milhões de euros no final de 2021, superando em mais de 600 milhões de euros os montantes aplicados em fundos de obrigações. O peso dos fundos de obrigações no total dos FIM baixou para 14% no ano passado, o que até é superior ao registado em 2015 e 2016, mas bem inferior ao que se verificava antes da crise do Lehman Brothers. No final de 2007, mais de um quarto dos investimentos em FIM estavam direcionados para fundos de obrigações.

O mau desempenho desta classe de ativos nos últimos anos explica a menor apetência por fundos de obrigações por parte dos portugueses, que estão a reforçar a aposta nos fundos de ações à boleia do desempenho positivo dos mercados acionistas nos últimos anos. Os mais de 3 mil milhões de euros geridos pelos fundos de ações representam um crescimento de 76% face a 2020 e triplicam o montante registado em 2016, enquanto o peso no total dos FIM é o mais elevado de sempre, como é percetível no gráfico em baixo.

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O presidente da APFIPP destaca ainda os Fundos PPR, “pela sua natureza de poupança de longo prazo, vocacionada para a reforma” que, entre 2019 e 2021, “registaram um crescimento de mais de 67% nos montantes sob gestão, atingindo os 4.300 milhões de euros, no final de 2021, o que representa 23% do total de FIM”.

João Pratas reconhece que o crescimento do interesse dos portugueses pelos fundos “não pode ser dissociado da conjuntura de taxas de juro baixas e do bom desempenho dos mercados de capitais, em particular do segmento acionista, que levou muitos aforradores a procurar os fundos de investimento para aplicação das suas poupanças em alternativa aos depósitos bancários e outros instrumentos de baixo risco”. O presidente da APFIPP, que respondeu ao ECO antes da invasão da Ucrânia por parte da Rússia, acredita que “o crescimento se manterá, embora talvez a um menor ritmo, mesmo quando os juros começarem a subir, ou quando os mercados de capitais apresentarem valorizações menores e/ou uma maior volatilidade”.

Os fundos de investimento, sobretudo os de maior risco, são produtos em que os investidores devem selecionar tendo em conta horizontes temporais alargados, de preferência não inferior a três anos, precisamente para mitigar o risco da volatilidade.

A APFIPP e a Caixa Gestão de Ativos destacam a necessidade de os portugueses reforçarem os níveis de literacia dos investidores. “É determinante para a correta compreensão, por parte dos aforradores, do significado do risco”, salienta Filipa André. “É fundamental continuar a investir no aumento da literacia financeira dos portugueses, de modo a permitir que melhor compreendam as características dos diferentes produtos financeiros e, desse modo, escolher o ou os mais adequados às suas circunstâncias”, assinala João Pratas.

Sendo evidente que os portugueses estão a apostar em ativos com maior risco, devido em grande parte à conjuntura, é ainda cedo para concluir que esta é uma mudança estrutural nos hábitos de investimento. “Muitas destas dinâmicas podem estar associadas a alguma mudança estrutural de comportamentos e atitudes dos portugueses relativamente a estes instrumentos, mas não consigo identificar nenhum indicador que possa dar substância a essa hipótese”, refere Pedro Brinca.

“Parece-nos que o crescimento da captação dos fundos de investimento é muito explicado pela atual conjuntura de mercado, podendo não se tratar de uma mudança estrutural nos hábitos de investimento dos portugueses”, assinala Filipa André, acrescentando que “o regime de taxas de juro baixas deverá permanecer uma realidade por algum tempo, devendo conduzir à manutenção dos fundos de investimento como um produto atrativo para clientes com alguma apetência ao risco”. Destaca os fundos multi-ativos, “adequados para ‘navegar’ nos mercados financeiros”, pois permitem assumir “riscos de forma controlada e consciente”, com “elevados níveis de diversificação e consequente minimização do risco específico”.

João Pratas destaca os FIM como sendo “dos instrumentos de aforro mais transparentes e sujeitos a maiores regras em relação à proteção dos investidores”, com uma “grande liquidez” e com políticas de investimentos “norteadas por princípios de diversificação de investimento, de modo a que haja uma dispersão do risco”.

O regime de taxas de juro baixas deverá permanecer uma realidade por algum tempo, devendo conduzir à manutenção dos fundos de investimento como um produto atrativo para clientes com alguma apetência ao risco.

Filipa André, diretora de Marketing e Comunicação da Caixa Gestão de Ativos

O arranque de ano está a ser negativo para os mercados acionistas, com as quedas de janeiro devido ao receio com a subida de juros a somarem ao desempenho negativo de fevereiro motivado pela invasão da Ucrânia

João Pratas aconselha os investidores a “definir as suas estratégias de investimento em função dos seus objetivos e do seu horizonte de investimento”, sendo que “quem investe no longo prazo, por exemplo, com o objetivo de poupar para a reforma, não deve estar preocupado com os condicionalismos de curto prazo”. Isto porque, “historicamente, no longo prazo, em média, o risco assumido tenderá a conduzir a um retorno mais elevado”. Já quem investe “numa lógica de curto prazo, sabendo que poderá necessitar de desmobilizar essa poupança, deverá ser mais cauteloso no nível de risco que assume”.

A Caixa Gestão de Ativos “recomenda que a atuação dos investidores seja pautada pela adoção de posições de médio e longo prazo, devendo estes considerar que quanto maior for o prazo recomendado, maior será o risco e o potencial retorno do investimento”. Filipa André adverte que “os mercados financeiros são feitos de ciclos”, pelo que os investidores não devem “assumir que o crescimento dos últimos três anos se irá perpetuar no tempo sem alguns sobressaltos”. Mas assinala que a Caixa Gestão de Ativos “permanece com uma perspetiva positiva da evolução dos mercados financeiros, sendo possível que os ativos sob gestão da indústria continuem a apresentar crescimentos relevantes”.

Ainda assim, tendo em conta o atual movimento negativo dos mercados acionistas, é expectável um nível superior de resgates. “A maior turbulência de mercados causa sempre impacto no comportamento dos investidores, provocando um maior nervosismo que se poderá refletir num nível superior de resgates”, admite Filipa André, salientando que “a Caixa Gestão de Ativos tem estado presente junto dos seus clientes em todos os momentos de mercado, procurando fundamentar as flutuações existentes e revendo a sua visão da economia e mercados sempre que tal se justifica”.

A recuperação de muitos ativos, com ações à cabeça, terá criado um forte momentum em que os investidores, que tipicamente andam sempre atrás da curva, foram seguindo as rendibilidades crescentes, eventualmente até reforçando por esse comportamento as próprias rendibilidades

Pedro Brinca, professor da Nova SBE

Caixa reforça liderança com quota de 35%

O mau momento da indústria dos fundos de investimento em Portugal nos anos posteriores à crise financeira e durante a crise de dívida, com a queda nos volumes sob gestão, motivou a saída de várias gestoras do mercado português e o encerramento de muitos fundos. Um movimento que foi aproveitado pela Caixa Gestão de Ativos para reforçar a liderança.

A tendência foi notória sobretudo em 2021, com a gestora do banco estatal a conquistar mercado às três gestoras que lhe seguem no ranking. A Caixa Gestão de Ativos fechou 2021 com 6,9 mil milhões de euros de ativos sob gestão, o que traduz uma quota de 35% e um crescimento de 45% face ao ano anterior. A quota de mercado deu um salto de mais de dois pontos percentuais face a 2020, situando-se já bem longe do registado há 10 anos (quota de mercado de 23% em 2011, com 2,5 mil milhões de ativos sob gestão).

Depois da Caixa Gestão de Ativos, surgem a IM Gestão de Ativos (quota de mercado de 21,7%), BPI Gestão de Ativos (17,1%) e Santander Asset Management (16,6%). Todas as gestoras aumentaram os volumes sob gestão no ano passado, mas baixaram a quota de mercado.

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A gestora da CGD tem também o maior fundo de investimento entre as gestoras portuguesas. O Caixa Ações Líderes Globais tem uma carteira de quase 2 mil milhões de euros, tendo conseguido figurar na lista dos 10 FIM mais rentáveis do mercado português em 2021 (retorno de 30,7%).

“A estabilidade da carteira assume-se como uma das características da abordagem de investimento seguida na gestão do fundo, em paralelo com a clareza da sua estratégia que privilegia o investimento em 25 empresas de referência a nível mundial, frequentemente associadas a produtos e marcas de grande notoriedade social, líderes incontestadas no seu negócio e com uma solidez financeira testada e reforçada com um historial de consistência em várias fases do ciclo económico”, explica a responsável da gestora. O Caixa Ações Líderes Globais está exposto sobretudo ao mercados norte-americano e europeu e aos setores tecnológico e de consumo, uma aposta “que é complementada, por exemplo, com empresas dos setores farmacêutico, industrial e de comunicações”.

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