Ser o bom aluno da UE ou salvar o turismo? Hum… escolhemos a 2ªpremium

E eis que, na hora da recuperação, Portugal se vê em posição privilegiada em relação aos destinos concorrentes, graças à boleia da lista verde inglesa. Leia o Novo Normal desta semana.

O título deste texto, quando comecei a escrevê-lo, era “Vai vir charters de ingleses”, inspirado na célebre promessa de Paulo Futre nas eleições do Sporting em 2011. A ideia de Futre era que se o Sporting contratasse o melhor jogador de futebol chinês, chegariam a Portugal “charters de chineses” para o ver jogar em Alvalade. A história foi outra, mas a frase ficou. E é acertada para o que se espera que aconteça a partir de segunda-feira, não com fãs de futebol chineses, mas com turistas ingleses à procura de sol, mar, esplanadas com cerveja fresca e, enfim, tudo o que seja la vida loca longe do Reino Unido (RU).

Hoje sabemos que, literalmente, “vai, vir charters” de ingleses. E muitos. Mas até à hora do almoço de sexta-feira essa invasão de turistas estava em dúvida, por causa de um problema diplomático que Portugal não sabia como resolver, conforme explico mais abaixo. Só depois de sair um take da agência Lusa, por volta da 1 da tarde de sexta-feira, se abriram mesmo as portas para o desembarque dos ingleses.

Ontem, as contas eram impressionantes. Só para esta segunda-feira, primeiro dia de luz verde para os ingleses viajarem para Portugal sem restrições e sem quarentena no regresso às Ilhas Britânicas, estavam previstos acima de 30 voos do Reino Unido para Portugal:

  • mais de 20 com destino a Faro (crescem todos os dias)
  • 6 para Lisboa
  • 3 para o Porto
  • 3 para o Funchal

Para a primeira semana de reabertura aos turistas ingleses, entre esta segunda-feira e o domingo seguinte, dia 23, estavam anunciados mais de 110 voos entre Inglaterra e Portugal. Por estes cálculos, só nesta primeira semana chegarão bem mais que 20 mil ingleses aos aeroportos portugueses. Estas eram as contas de quinta-feira, mas mais voos estão a ser acrescentados todos os dias.

Estas contas ainda não somavam o aumento dos voos a partir da Escócia. Na terça-feira também o governo de Nicola Sturgeon incluiu Portugal na lista verde de destinos seguros para os escoceses, que mostraram um súbito interesse por férias em Portugal - também neste caso, o nosso país é o único grande destino de férias que recebe luz verde (a lista escocesa copiou a dúzia inglesa). A Ryanair anunciou, a partir de 24 de maio, 19 voos por semana para Faro, Porto e Lisboa, a partir de Edimburgo, Aberdeen e Prestwick. Só a operação da Ryanair para Faro a partir da Escócia cresceu 20 mil lugares desde o anúncio de terça-feira.

Ainda está longe dos valores pré-covid, mas é um bom começo - e antes de toda a concorrência. Nas 24 horas após o anúncio de Boris Johnson, as reservas dos operadores britânicos Jet2 e Jet2holiday para a Madeira e os Açores cresceram 600%, segundo a informação do Daily Mirror - a taxa de crescimento é de 1300% em comparação com o mesmo período da semana anterior.

A resposta dos operadores turísticos e das companhias de aviação não foi mais do que a reação à Portugalmania que tomou conta de milhares de britânicos desde que, no dia 7, o governo de Boris Johnson anunciou que Portugal é o único país da União Europeia incluído na lista de 12 destinos seguros para os turistas ingleses. Nas próximas semanas, os britânicos que fizerem férias em destinos que não estejam na “lista verde” terão de cumprir quarentena obrigatória - na UE, Portugal é, para já, o único destino que não implica esse “castigo” no regresso ao Reino Unido.

Logo nos primeiros 10 minutos após o anúncio da lista de destinos seguros, as pesquisas de utilizadores do Google no Reino Unido sobre destinos de férias em Portugal cresceram 3.233% (em comparação, no mesmo período, a busca por férias em Israel e Gibraltar, que também estão na lista verde, cresceu 1,329% e 488%). Nos dias seguintes, a Ryanair aumentou a oferta para Portugal em 175 mil lugares; e a easyJet em mais 80 mil lugares. Convém não desvalorizar as decisões destas duas companhias aéreas: segundo os dados do Turismo de Portugal, Ryanair, esayJet e TAP são responsáveis por 74% do tráfego total entre o RU e Portugal. E convém olhar com especial cuidado para Londres, cidade de onde parte 56% da operação aérea entre os dois países.

A 'Portugalmania' vai contagiar outros países europeus?

Voltando às notícias da euforia: o site de reserva de viagens e turismo Skyscanner registou, até quinta-feira, um aumento de 616% nas pesquisas por destinos portugueses, em comparação com a semana anterior. Logo na sexta-feira, dia 7, mal o ministro britânico dos transportes anunciou a lista dos 12 destinos seguros, as reservas online para Portugal através dos operadores Thomas Cook e Club Med subiram 250%. A Thomas Cook deu conta de que, numa hora, fez mais reservas para Portugal do que em todo o mês de abril. A TUI, o maior operador europeu de pacotes de férias, canalizou grande parte da sua operação para Portugal.

Para além do reforço de voos e de pacotes turísticos para Portugal, os operadores mobilizaram os aviões com maior capacidade que possam aterrar em cada um dos aeroportos portugueses. A TUI decidiu colocar nas rotas para Portugal o Boeing 787 Dreamliner (com capacidade até 330 passageiros), que normalmente assegura rotas mais longas, em vez do 737, que tem menos capacidade. “Vamos pôr os Dreamliners em vez do 737, porque nem estamos a conseguir slots”, disse o chief executive da TUI, Fritz Joussen, na quarta-feira.

A espectativa é que a loucura britânica se estenda a outros países emissores de turistas. A decisão do RU foi noticiada por toda a Europa, assim como o facto de Portugal ser a exceção europeia enquanto destino seguro. Da Alemanha a Itália, passando pela Holanda, França, Irlanda ou a Escandinávia, foi notório, ao longo desta semana, o crescimento de pesquisas online sobre férias em Portugal. Apesar de a maioria das reservas de hotéis poder ser cancelada sem direito a reembolso, o otimismo é grande entre operadores, hoteleiros e outros players ligados ao turismo em Portugal.

As perspetivas para o mercado nacional são igualmente boas. No ano passado, com os aviões parados nas pistas, foram os turistas portugueses que salvaram o setor do desastre total, e este ano, o turismo interno volta a ser uma das apostas decisivas do Turismo de Portugal, outra vez com campanhas de “Vá para fora cá dentro”. Para já, as reservas de turistas nacionais estão ao nível de 2020.

Segundo uma sondagem divulgada ontem pelo Público, este ano o sentimento dos portugueses em relação às férias é mais otimista do que em 2020, e são mais os portugueses que planeiam fazer férias no seu país. De acordo com o estudo, 72% dos inquiridos farão férias fora de casa de certeza ou provavelmente. Há um ano, mais de metade respondeu negativamente - agora é só um quarto. Dos que planeiam sair nas férias, menos de 20% tenciona ir para fora do país. Os restantes optam pelo turismo interno.

Bastidores de um imbróglio português

Apesar do entusiasmo dos britânicos, só ontem houve certeza de que “a grande invasão dos bifes” irá mesmo acontecer. Já se sabia que o seu governo os deixava sair com destino a Portugal, mas não se sabia se Portugal os deixaria entrar. Assim será, conforme o Ministério dos Negócios Estrangeiros adiantou ontem à agência Lusa - os turistas apenas terão de apresentar teste PCR negativo feito 72 horas antes.

A decisão de Portugal surgiu através de uma notícia da Lusa, um dia depois de um Conselho de Ministros que devia ter tomado posição sobre o assunto, mas que acabou por não o fazer. Mesmo sem haver decreto, a notícia, citando uma fonte dos Negócios Estrangeiros, foi o suficiente para travar uma onda de cancelamentos que começava a ganhar forma. Poucas horas antes desse take da Lusa, João Fernandes, presidente do Turismo do Algarve, avisava que o atraso na clarificação do lado português estava a deixar os britânicos nervosos, e já havia reservas canceladas. Afinal, faltavam pouco mais de 48 horas para o dia D.

A hesitação de Portugal explica-se por um estranho imbróglio nos bastidores políticos e diplomáticos. Até este domingo Portugal não permitia a chegada de passageiros do Reino Unido a não ser em “viagens essenciais” - e o turismo, apesar de ser essencial à economia portuguesa, não cabe neste conceito. O decreto com as restrições às viagens entre o Reino Unido e Portugal é revisto a cada 15 dias, e o que está em vigor é válido até dia 16. Mesmo a jeito para abrir o país aos turistas britânicos a partir de segunda-feira, certo?

Mas havia um problema: a Comissão Europeia decidiu, na quarta-feira passada, que as viagens do Reino Unido para a UE devem continuar restritas a razões “essenciais”. Ou seja, Bruxelas recomendou que os 27 continuem de portas fechadas aos turistas britânicos. Foi uma decisão surpreendente, tendo em conta o excelente desempenho do RU tanto no controlo da pandemia, como na campanha de vacinação.

A taxa de incidência no RU está ao nível da de Portugal, abaixo de 50 novos casos diários por cem mil habitantes na média ponderada a 14 dias. Ou seja, muito melhor do que a generalidade dos países europeus.

E a taxa de vacinação, já se sabe, também deixa a milhas o que se passa nos 27, como se pode ver no gráfico abaixo, sobre a percentagem de população já abrangida pela primeira e segunda doses no RU, em Israel, na média da UE e em 5 países da União.

Note-se que o que está aqui em causa não é a circulação entre cidadãos dos países da UE - sobre esses, a Comissão já recomendou que sejam levantadas as restrições, embora boa parte dos estados-membros esteja a fazer orelhas moucas a essa recomendação. O arranque, previsto para junho, do “certificado verde” que vai uniformizar as regras entre os vários países e atesta que o portador está imunizado ou testou negativo à covid-19, é esperado como o momento em que a circulação dentro da UE voltará a alguma normalidade, impulsionando a retoma do turismo. Ontem, o comissário europeu do mercado interno considerou que, com o avanço da vacinação e a implementação do certificado verde, haverá condições para a “reabertura segura” do turismo europeu no verão.

Mas há muitas empresas para as quais o verão pode ser demasiado tarde, sobretudo em economias, como a portuguesa, muito dependentes do setor do turismo. Os números do INE, divulgados ontem, resumem essa história: o turismo é responsável por 75% da histórica queda do PIB em 2020. Pode ler neste artigo do ECO. No ano passado, a pandemia tirou 16,5 mil milhões ao negócio do turismo em Portugal.

E eis que, na hora da recuperação, Portugal se vê em posição privilegiada em relação aos destinos concorrentes, graças à boleia da lista verde inglesa.

Brexit, vacinas… e vingança

O problema é a atitude da Comissão Europeia em relação à entrada de turistas oriundos de “países terceiros”, que não são abrangidos pelo certificado verde (este, inclui, para além dos 27, Islândia, Noruega, Suíça e Listenstaine). Na quarta-feira, quando se esperava que a CE recomendasse a abertura de fronteiras aos turistas britânicos e israelitas, pois os dados de ambos os países são muito positivos, a decisão incluiu apenas Israel, por ser o único país que cumpria o exigente critério fixado por Bruxelas: menos de 25 novos casos por cem mil habitantes a 14 dias.

Para se perceber o quão restritiva é esta regra, basta dizer que nenhum país da UE está sequer perto de cumprir essa fasquia - nem o nosso país, que está nos melhores indicadores europeus. Portugal, o único destino europeu que pode beneficiar de imediato da abertura de fronteiras aos turistas britânicos, defendeu que não fazia sentido deixar o RU de fora da revisão de regras - mas ficou sozinho nessa posição.

Fontes conhecedoras do processo não têm dúvidas de que a decisão sobre os britânicos se deve mais às feridas do Brexit, que ainda não sararam em muitas capitais europeias, e à “guerra das vacinas”, que continua bem viva, do que a critérios sanitários. Tanto, que se admite que a decisão europeia possa ser revista já na próxima quarta-feira, quando o assunto voltar a ser discutido. Mas não há garantias de que tal aconteça.

Mesmo que na quarta-feira a Comissão mude de atitude em relação aos turistas ingleses (por exemplo, subindo a fasquia da taxa de incidência), isso é dois dias depois de dia 17, o dia em que os turistas ingleses têm luz verde de Londres para viajarem para Portugal. E, para isso, Portugal teria de os deixar entrar… mas, para o fazer, estaria a contrariar uma recomendação da Comissão Europeia, num momento em que é portuguesa a presidência rotativa dos 27…

Foi este o imbróglio que esta semana agitou discretamente os bastidores do Governo português e da presidência portuguesa da União. Por um lado, o setor do turismo precisa desesperadamente dos milhares de britânicos que estão de malas feitas com destino aos aeroportos nacionais; por outro, Portugal sempre se orgulhou de ser o “bom aluno” da Europa - e ainda mais no semestre em que preside ao Conselho da UE. Por estranho que pareça, provocou grandes dores de cabeça esta espécie de dilema entre ser bom aluno ou aproveitar já a vantagem competitiva de Portugal, por estar na lista verde do Reino Unido, para relançar de imediato a atividade do setor do turismo...

O primeiro jornal a noticiar este dilema foi o The Times de quinta-feira, dando conta de que Portugal poderia estar de portas fechadas aos ingleses nesta segunda-feira. “Esta é uma posição desconfortável para um país que preside à UE”, admitiu um responsável do Governo português citado pelo diário londrino. Foi um balde de água fria tanto cá como lá. “Tivemos um enorme boom de procura por Portugal, um crescimento enorme de pesquisas no Google e de reservas nos nossos hotéis, mas com estas notícias começou a haver ameaças de desistência”, constata João Fernandes, do Turismo do Algarve, a região do país onde os turistas britânicos têm maior peso.

Uma fonte governamental com quem falei reconhecia as dificuldades, que justificaram a demora na decisão: “Portugal, tendo a presidência, tem que articular posições na Europa, já que sempre nos batemos pela harmonização na UE das viagens. A prática tem que corresponder à teoria...” Por isso, a decisão teve de ser tomada “ao mais alto nível político” - com o aval do primeiro-ministro. E a decisão foi… contrariar a recomendação europeia.

Algarve no olho do furacão

Esta questão é particularmente crítica para o Algarve, que tradicionalmente recebe mais de metade dos turistas britânicos que rumam a Portugal. Só na última semana, pelo menos três cadeias hoteleiras tiveram um aumento de reservas para o Algarve no valor de cerca de 1,5 milhões de euros cada uma.

O Reino Unido não é um país qualquer quando falamos de turismo. Em 2019, o último ano de normalidade antes da covid, foi:

  • 4.º maior mercado emissor de turistas a nível mundial
  • 2.º maior da Europa, tendo gerado 93 milhões de viagens (+2,8% face ao ano anterior),
  • vale 6,3% do total da procura turística mundial
  • Portugal é 7º principal destino desses turistas (2,1 milhões de viagens em 2019)

Mesmo na penúria que foi o ano de 2020, e apesar das viagens terem caído mais de 70%, para apenas 1 milhão de chegadas, o Reino Unido continuou a ser:

  • 1º mercado turístico da procura externa para Portugal (2 milhões de dormidas; quota de 16,3%)
  • 2º principal mercado emissor em receitas turísticas para Portugal (1,2 mil milhões de euros; quota de 15,5%)
  • 3º principal pelo número de hóspedes (460 mil; quota 11,6%)

O peso do RU não é igual em todas as regiões turísticas de Portugal. Trata-se do principal mercado para o Algarve e para a Madeira (aqui, partilha o título com a Alemanha), mas tem posições muito modestas noutras regiões. Olhando, mais uma vez, para o ano de referência de 2019, foi esta a quota dos turistas do Reino Unido na diferentes regiões de turismo:

  • Algarve: 37% (principal mercado emissor)
  • Madeira: 26,7% (Alemanha: 26,9%)
  • A.M. Lisboa: 7% (Brasil: 10,8%)
  • Norte: 6,6% (Espanha: 20%)
  • Alentejo: 6,4% (Espanha 21%)
  • Açores: 5% (Alemanha: 22%)
  • Centro: 4,1% (Espanha: 26%)

Em 2020, a posição relativa alterou-se pouco, como podemos ver na infografia abaixo, mas as restrições da pandemia acabaram por tornar os britânicos ainda mais importantes no mercado madeirense (onde alcançaram um quota de mercado de 31%).

O Algarve é a região do país com maior dependência em relação a um único mercado. Em circunstâncias normais, mais de um terço dos turistas estrangeiros que visitam o Algarve vêm das ilhas britânicas: apesar do ligeiro recuo no ano passado (25%), em 2019 os britânicos representaram uma quota de 33% dos hóspedes e 37% das dormidas.

O mais parecido que encontramos em Portugal, em termos de dependência em relação a um único mercado emissor de turistas, é a relação entre a região Centro e os espanhóis (quota de 26,4% de dormidas). Ao invés, o Centro é a região de turismo portuguesa onde os britânicos pesam menos. A seguir aos espanhóis, quem mais visita o Centro são franceses e brasileiros.

Já a Madeira, reforçou no ano passado a dependência em relação aos turistas ingleses, no que é já uma história secular. Mas o caso desta região autónoma é curioso, pois, antes da pandemia, tinha uma enorme dependência de dois mercados, que tinham quase o mesmo peso e representavam metade de todos os visitantes estrangeiros: em 2019, os alemães asseguraram 26,8% das dormidas, e os britânicos ficaram logo atrás (26,6%)

Concorrentes de Portugal dão tudo... mas não chega

Sejamos francos: não é como se a atual aposta dos operadores e companhias aéreas britânicas no destino Portugal fosse arriscada ou difícil - a falta de alternativas ajudou. Nem o minúsculo território de Gibraltar nem a Islândia são irresistíveis destinos de verão.

Israel seria uma boa alternativa para muitos ingleses à procura de praias, bares e vida noturna. Logo após o anúncio de dia 7, Telavive e as estâncias de praia do sul, no Mar Vermelho, registaram um forte crescimento de procura. Porém, o reacendimento do conflito israelo-palestiniano, com insurreições em várias cidades, e rockets a cair sobre Telavive (o que já obrigou a desviar os aviões com destino ao principal aeroporto do país), refreou o interesse por esse destino de férias, para mais quando até Eilat, a estância de praias do sul, já foi alvo de um foguete disparado da Faixa de Gaza (a agência de rating Fitch já avisou que o clima de guerra terá “repercussões económicas significativas” em fase de recuperação da pandemia).

Para além de estar perto, ser seguro e bem conhecido dos ingleses, Portugal oferece “pechinchas de 5 estrelas”, conforme escreviam esta semana tanto os jornais populares como o The Times. Mais: as viagens para Portugal têm preços competitivos, como se pode ver nesta tabela, também publicada no The Times. Voar para Israel ou Islândia sai mais em conta, mas os preços para Portugal são bem mais convidativos do que para a Austrália, a Nova Zelândia, Singapura ou o Brunei.

Analistas citados por estes dias nos jornais ingleses dizem que a corrida dos britânicos para Portugal só não é maior porque muita gente estará à espera da revisão da lista verde, que acontece a cada três semanas. A partir de 7 de junho, poderá haver mais países (ou menos...) considerados seguros pelo governo inglês, sem obrigação de quarentena no regresso. Para além do anúncio de novos territórios "verdes", a cada três semanas podem ser também revelados quais os países que estão sob "vigilância verde" - ou seja, que estão no bom caminho e podem vir a ser acrescentados à lista.

Porém... dificilmente algum dos grandes concorrentes de Portugal no Sul da Europa conseguirá nos próximos tempos acesso à lista reservada.

O governo inglês definiu uma matriz com quatro critérios para avaliar a situação de risco de cada país: percentagem de população vacinada, incidência de novos casos, prevalência das novas variantes de preocupação e a fiabilidade da informação científica desse país.

A situação pandémica em destinos como Espanha, Grécia, França, Itália, Chipre ou Croácia - outros destinos de verão muito apreciados pelos súbditos de Sua Majestade - está muito longe de cumprir os critérios definidos pelas autoridades de Londres. Basta ver a diferença na incidência de novos casos entre Portugal e Reino Unido, e os outros grandes destinos de férias europeus (nem incluí a Turquia, um destino forte para os ingleses, mas que atualmente está na zona "vermelha")

A expectativa para a primeira revisão da lista verde é que sejam acrescentadas algumas ilhas, nomeadamente nas Caraíbas. Não novos destinos europeus.

Espanhóis e gregos estão a fazer tudo por isso. As autoridades espanholas estão a fazer uma grande ofensiva de relações públicas junto dos britânicos, e têm a esperança de que pelo menos as ilhas Baleares e Canárias possam receber luz verde em breve. E o presidente da câmara de Benidorm promete que os ingleses estarão de volta às suas praias nas próximas semanas. Não parece que tal vá acontecer, conforme assinalou o Daily Mirror, sempre atento às prioridades dos seus leitores.

A Grécia, apesar de estar com dificuldades em controlar a terceira vaga da pandemia (esta semana houve dias com mais de 3 mil novos casos), está a preparar a reabertura ao turismo, desde logo com uma campanha internacional milionária de promoção do país como destino de férias. "Tudo o que você quer é a Grécia", diz a campanha, apontada aos mercados decisivos para o turismo grego, que vale 20% do PIB do país e é responsável por 20% dos empregos. "Estamos a abrir a nossa indústria de turismo ao mundo", proclamou o ministro grego Haris Theoharis.

O governo de Atenas pôs em andamento outra campanha, essa para a vacinação prioritária nas ilhas, o grande chamariz de turistas. O objetivo é ter toda a população das ilhas gregas vacinada com as duas doses até ao fim de junho. A campanha começará pelas ilhas até dez mil habitantes - em 32 já está toda a gente vacinada, noutras 36 esse objetivo estará cumprido até ao fim de maio. A vacinação nas ilhas maiores acelerou este mês. No fundo, é a mesma estratégia que o Algarve tem reclamado: priorizar a vacinação nos grandes bastiões do turismo.

No caso inglês, o esforço de Atenas choca de frente com os números da pandemia e... com um crime. Um assalto num dos subúrbios ricos de Atenas resultou na morte de uma inglesa de 20 anos, torturada e assassinada em frente ao marido, que estava amarrado, e à filha, uma bebé de 11 meses. Desde quarta-feira o caso tem merecido destaque nos tabloides ingleses, cada um com mais pormenores sórdidos do que a concorrência… (por coincidência, no mesmo dia os diários populares ingleses voltaram à Praia da Luz, para assinalar o que seria o 18º aniversário de Madeleine McCann...).

Espanha e Grécia não são os únicos estados europeus com pressa de reabrir aos turistas. Entre os membros da UE, Croácia e Chipre já estão a receber visitantes estrangeiros, nomeadamente de fora da União, incluindo norte-americanos. E Emmanuel Macron já anunciou que, se a França mantiver a tendência de descida de casos, voltará a receber turistas de todo o mundo a partir de 9 de junho, desde que comprovem que estão imunizados ou têm teste negativo. Mas França, apesar de ser o principal destino de férias do Mundo, está sobretudo virada para dentro, tendo lançado uma grande campanha de turismo interno - ter muitos atrativos turísticos e uma população de 63 milhões ajuda...

Próxima prioridade: Estados Unidos

Com Portugal em regime de quase monopólio no turismo inglês até 7 de junho (e, provavelmente, até julho ou agosto), a exiguidade da lista verde tem provocado o protesto dos operadores de viagens, das companhias aéreas e outros players do setor no Reino Unido. Os tablóides exigem mais variedade de destinos de férias (mas também exigem que os números da pandemia não disparem...). A British Airways e o Aeroporto de Heathrow (o maior do país) pediram ao Governo que alargue o rol de destinos na revisão prevista para a primeira semana de junho. O pedido foi mais longe, reclamando que:

  • todos os britânicos vacinados possam viajar sem restrições para qualquer destino
  • o governo anuncie previamente que países estarão em condições de vir a integrar a lista verde a tempo das férias de verão “para que os passageiros não se vejam confrontados com os preços mais altos das reservas de última hora”.

A grande batalha, para além das praias de Espanha, Grécia e arredores, são os Estados Unidos, o quarto principal destino de viagem dos ingleses. O argumento é que EUA e RU têm taxas altas de vacinação e têm a incidência de novos casos a baixar. A ideia de uma "ponte aérea" transatlântica é apoiada por cada vez mais gente nos media britânicos.

Eis uma ideia que agrada aos responsáveis pelo turismo em Portugal. Depois da abertura aos ingleses, a próxima prioridade para o turismo português, fora da UE, é permitir a entrada de turistas americanos. Tal ainda não está autorizado porque, apesar da boa taxa de vacinação, a situação epidemiológica dos EUA ainda é grave, e bastante pior do que a do Reino Unido.

Antes da pandemia, o mercado norte-americano era o que mais estava a crescer em Portugal. Entre 2018 e 2019, a dormidas em Portugal de turistas oriundos dos EUA cresceram 21,4%, a maior subida nesse período (foram 2,7 milhões de dormidas, o correspondente a 5,5% do total). Não só se trata de um país enorme, que começa a dar mais atenção a Portugal, como de turistas com elevado poder de compra. Os gastos de turistas americanos em Portugal cresceram, também entre 2018 e 2019, praticamente 30%, atingindo 1,3 mil milhões de euros - uma quota de 7% (também neste caso, foi a maior subida registada nesse período).

O potencial é imenso. O primeiro passo será deixá-los entrar, assim que a incidência de covid-19 nos EUA o permita.

Assine para ler este artigo

Aceda às notícias premium do ECO. Torne-se assinante.
A partir de
5€
Veja todos os planos