20 mil milhões euros?

A banca continua a ser o principal problema da economia europeia. E não apenas no âmbito económico, com também no político.

Enquanto em Portugal continuamos à espera da solução de venda do Novo Banco, e aguardamos os próximos passos no processo de capitalização da Caixa Geral de Depósitos, em Espanha e em Itália, por exemplo, continuam os processos de reestruturação.

Mas a situação italiana merece especial atenção. Primeiro porque neste país concentra-se uma parte importante dos NPLs da área do euro (1/3), depois porque a solução deixará uma marca única na gestão do problema bancário na Europa, podendo ser um elemento de maior integração ou, finalmente, de desagregação da área do euro, começando por liquidar a (incompleta) União Bancária e a vigência de facto da BRRD (Bank Recovery and Resolution Directive), com efeitos nocivos em todos os instrumentos de partilha de riscos sistémicos no perímetro da moeda única. Só mesmo os mais crédulos acreditam que com 20 mil milhões de euros se resolve o problema de capitalização da banca italiana. O Monti dei Paschi precisará de 8 a 9 mil milhões de euros e, por exemplo, segundo alguns articulistas, só o Unicredit deverá requerer 15 mil milhões de euros.

Foi o Primeiro-Ministro português, António Costa, que procurou no último Conselho Europeu que a União Bancária voltasse a ser inscrita nas conclusões da reunião. E sabe bem, por experiência própria, que é impossível resolver todos os problemas de uma vez, mas que se formos capazes de resolver os mais urgentes provavelmente damos passos seguros para uma arquitetura final de uma área monetária não-ótima.

A incompletude da União Bancária reside num quadro onde os Estados-membros do Norte da Europa não querem, desde já, assumir um Fundo de Resolução e um Fundo de Garantia de Depósitos (mesmo na versão seguro de depósitos) que os obrigue a pagar o resgate do setor bancário dos países do Sul. A questão central sempre foi: primeiro uma supervisão comum, um quadro resolutivo igualmente comum, e uma partilha de responsabilidades de resolução e recuperação atirada para as calendas, quando os contribuintes (e o volume de dívida) dos Estados-Membros do Sul financie aquilo que os credores seniores da banca local não conseguirem suportar.

O efeito sistémico da queda da banca no Sul da Europa será amortizado inevitavelmente, caso se verifique, pelos contribuintes, e a Comissão Europeia e o BCE sabem bem que se não for assim a Europa correrá riscos de desagregação, com efeitos políticos que se vão antevendo a cada eleição. É por isso que a recuperação e a resolução bancária e a mutualização da dívida pública são questões ‘gémeas’.

Quando a Comissão Europeia e o BCE atiraram o problema da banca portuguesa para mais tarde, com a conivência de circunstância do Governo de Passos e Portas, foi porque não tinham outra solução. Abrir a discussão da recapitalização bancária, com evidentes dificuldades de acesso aos mercados financeiros é equivalente a uma nacionalização com efeito imediato no volume da dívida. E para resolver um dos problemas é necessário solucionar o outro. Outro resgate não seria uma solução em 2014. Ninguém queria e ninguém quer.

Por isso, a mutualização da dívida pública – os alemães sabem-no bem – pode ser feita em primeira instância por via da mutualização da recuperação e resolução bancária. E com um fundo de resolução e de garantia de depósitos comum. 20 mil milhões de euros? Sabemos todos que não chega. Mas podemos continuar a fingir que sim, e esperar que das (necessárias) derrotas da Frente Nacional da Srª. Le Pen em França e do AfD da Srª. Petry na Alemanha não surja um ‘renovado’ torpor europeu.

Uma carta aos nossos leitores

Vivemos tempos indescritíveis, sem paralelo, e isso é, em si mesmo, uma expressão do que se exige hoje aos jornalistas que têm um papel essencial a informar os leitores. Se os médicos são a primeira frente de batalha, os que recebem aqueles que são contaminados por este vírus, os jornalistas, o jornalismo é o outro lado, o que tem de contribuir para que menos pessoas precisem desses médicos. É esse um dos papéis que nos é exigido, sem quarentenas, mas à distância, com o mesmo rigor de sempre.

Aqui, no ECO, estamos a trabalhar 24 horas vezes 24 horas para garantir que os nossos leitores têm acesso a informação credível, rigorosa, tempestiva, útil à decisão. Para garantir que os milhares de novos leitores que, nas duas últimas semanas, visitaram o ECO escolham por cá ficar. Estamos em regime de teletrabalho, claro, mas com muita comunicação, talvez mais do que nunca nestes pouco mais de três anos de história.

  • Acompanhamos a cobertura da atualidade, porque tudo é economia.
  • Escrevemos Reportagens e Especiais sobre os planos económicos e as consequências desta crise para empresas e trabalhadores.
  • Abrimos um consultório de perguntas e respostas sobre as mudanças na lei, em parceria com escritórios de advogados. Contamos histórias sobre as empresas que estão a mudar de negócio para ajudar o país
  • Escrutinamos o que o Governo está a fazer, exigimos respostas, saímos da cadeira (onde quer que ele esteja) ou usamos os ecrãs das plataformas que nos permitem questionar à distância.

O que queremos fazer? O que dissemos que faríamos no nosso manifesto editorial

  • O ECO é um jornal económico online para os empresários e gestores, para investidores, para os trabalhadores que defendem as empresas como centros de criação de riqueza, para os estudantes que estão a chegar ao mercado de trabalho, para os novos líderes.

No momento em que uma pandemia se transforma numa crise económica sem precedentes, provavelmente desde a segunda guerra mundial, a função do ECO e dos seus jornalistas é ainda mais crítica. E num mundo de redes sociais e de cadeias de mensagens falsas – não são fake news, porque não são news --, a responsabilidade dos jornalistas é imensa. Não a recusaremos.

No entanto, o jornalismo não é imune à crise económica em que, na verdade, o setor já estava. A comunicação social já vive há anos afetada por várias crises – pela mudança de hábitos de consumo, pela transformação digital, também por erros próprios que importa não esconder. Agora, somar-se-ão outros fatores de pressão que põem em causa a capacidade do jornalismo de fazer o seu papel. Os leitores parecem ter redescoberto que as notícias existem nos jornais, as redes sociais são outra coisa, têm outra função, não (nos) substituem. Mas os meios vão conseguir estar à altura dessa redescoberta?

É por isso que precisamos de si, caro leitor. Que nos visite. Que partilhe as nossas notícias, que comente, que sugira, que critique quando for caso disso. O ECO tem (ainda) um modelo de acesso livre, não gratuito porque o jornalismo custa dinheiro, investimento, e alguém o paga. No nosso caso, são desde logo os acionistas que, desde o primeiro dia, acreditaram no projeto que lhes foi apresentado. E acreditaram e acreditam na função do jornalismo independente. E os parceiros anunciantes que também acreditam no ECO, na sua credibilidade. As equipas do ECO, a editorial, a comercial, os novos negócios, a de desenvolvimento digital e multimédia estão a fazer a sua parte. Mas vamos precisar também de si, caro leitor, para garantir que o ECO é económica e financeiramente sustentável e independente, condições para continuar a fazer jornalismo de qualidade.

Em breve, passaremos ao modelo ‘freemium’, isto é, com notícias de acesso livre e outras exclusivas para assinantes. Comprometemo-nos a partilhar, logo que possível, os termos e as condições desta evolução, da carta de compromisso que lhe vamos apresentar. Esta é uma carta de apresentação, o convite para ser assinante do ECO vai seguir nas próximas semanas. Precisamos de si.

António Costa

Publisher do ECO

Comentários ({{ total }})

20 mil milhões euros?

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião