A casa de papel de Marcelo

Quem se inspira num Excel nunca conseguirá compreender as pessoas e um País, e esse é o pecado original de Rui Rio.

Dá imenso jeito a Marcelo Rebelo de Sousa a comentada e divulgada por ele crise da direita. A sondagem publicada esta semana pelo JN, que dá ao PS o dobro das intenções de voto do PSD, com os socialistas a poderem beijar a maioria absoluta, fê-lo sorrir em Belém. Não só pelo seu pulsar inato de “menino traquinas”, que avaliava livros que nunca leu na TVI ou que elogiava desconhecidos para semear proximidade e afectos enquanto ladrilhava tranquilamente o seu caminho para Presidente da República, mas porque o deserto de ideias e de eleitores o deixam como figura tutelar de um espaço político que está em reconstrução – e assim continuará em trabalhos pós-legislativas – no seguimento dos evidentes sinais de ruína.

Deixando de lado os novos partidos que por ali surgiram – nomeadamente Aliança (que conseguirá eleger Pedro Santana Lopes) e Iniciativa Liberal – é de todo evidente que o CDS arrisca uma percentagem ao nível dos tempos de Adriano Moreira, fruto de um desgaste de Assunção Cristas que após o melhor resultado de sempre em Lisboa não conseguiu crescer como ameaçava, enrolando-se num caminho de iniquidade e de vazio do qual será difícil despertar. Não sei quem a aconselha, porém, deve ser algum “jeitoso da comunicação política” que entende que um concurso de penteados no Facebook lhe é útil. Não, esse amador ou incompetente devia saber que a reputação é muito mais importante que a notoriedade no caminho de uma alternativa credível, pode enfrentar uma estrada de pedras, no entanto, isso trar-lhe-á um retorno muito superior a 300 likes, evita-lhe o índice de rejeição que neste momento já está nos 70 por cento. E o índice de rejeição é como ver uma formiga, quando vemos uma já sabemos que vêm mais atrás e esse indicador é um ponto sem retorno, impossível de recuperar.

Sobre Rui Rio quase que é um exercício de bater no ceguinho, o que não é nada simpático. O chefe do PSD é um equívoco, um desastre, um erro histórico. Só ele neste momento acha que tem talento para comandar o maior partido português, uma espécie de Napoleão Bonaparte, mas daqueles que se encontram nos hospícios, tendo-se ele próprio em alta conta mas cada vez mais sozinho. Repetitivo nos ataques aos jornalistas, algo que o acompanha como uma sombra, mesquinho no debate, autocrata com medo de um qualquer minúsculo vulto que ele entende ser um gigante que quer o seu mal. Rio nunca será um Simón Bolívar libertador da ameaça de uma hegemonia da esquerda, apenas um pálido coronel Tapioca que enterrará o PSD no rodapé do qual sairá o seu epitáfio. Rio é a imagem clara da máxima de Tolstoi: «há quem passe pelo bosque e apenas veja lenha para a fogueira». Porque quem se inspira num Excel nunca conseguirá compreender as pessoas e um País, e esse é o pecado original de um homem sem talento que nasceu para contabilista e não para ser líder de nada.

António Costa será Primeiro-Ministro, só não sabemos se com maioria absoluta ou nova Geringonça com sabor a Animais e Natureza, pois o PAN nas principais cidades poderá ultrapassar PCP e CDS e com isso tornar-se um parceiro viável para a governação. E o PS tem tido um aliado notável: Marcelo Rebelo de Sousa. Quatro anos de braço-dado, enquanto na surra continuava a urdir, com a trágica colaboração de Rio e Cristas que nunca perceberam a armadilha, o desmoronamento de PSD e CDS para criar o cimento da sua figura salvadora para um futuro que ninguém sabe muito bem o que vai ser. Mais vale regressar a Abraham Lincoln: «uma casa dividida contra si mesma não subsistirá». Hoje, a direita é uma casa de papel.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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