A continha, por favor

No meu coração ficaram as Gili. Era para lá que eu me mudava. Três ilhas onde se pode viver a pé e ser feliz por meia dúzia de mil rupias.

Eis-nos finalmente chegados àquele momento em que eu faço um balanço genérico da viagem, para grande felicidade dos leitores de contra-capa e dos que começam pela última página para confirmar quem foi o culpado. Estão preparados? Cá vai. A Comida!

A comida assassinou-nos o orçamento. Não que comer seja caro nestas ásias, mas decidimos refinar as azias. Na Malásia, por exemplo, não há uma rua que dê tempo à digestão, há restaurantes, barraquinhas e vendedores ambulantes, porta sim, porta não.

É isso que se passa em Concubine Lane, aqui em Ipoh, a antiga rua do desfrute. As concubinas do passado, foram substituídas por comezainas do presente. O prazer ainda mora ao lado e é difícil dar um passo, sem que alguém nos tente com uma iguariazinha. Há tostas de queijo arco-íris, nougats, bebidas fluorescentes, pastéis de nata com sabor a durian, entre outros pecados e fantasias.

Ipoh é uma cidade cenário, adormecida entre incríveis montanhas. Tem um bairro colonial muito parecido ao de George Town: ali então os cafés trendy, aqui os restaurantes Baba e Nyonia (descendentes dos chineses) e por todo o lado grafites interativos a pedir fotografias. Se há sítio para pensar no passado, é aqui neste café pintado.

Malásia. Como eu adorei a Malásia. A Malásia é a personificação, digo, país fixação da expressão, “vai tudo correr bem”. Na verdade, correr é exagero, que nós fizemos tudo bem devagar. “Tudo andou bem”. Desde a futurística e molhada Kuala Lumpur, à tão pitoresca Malaca, passando pela versátil ilha de Penang e pelas nostálgicas e fresquinhas Cameron Highlands. Ficaram por explorar as muitas ilhas paradisíacas e o Bornéu. Diz que a Malásia tem a maior rotunda do mundo, por isso convém deixar desculpas para voltar.

Mas para ver rotundas a valer há que ir a Bali. Mais hindu que indonésia, não é preciso chegar ao templo para ver as cenas mais épicó-espirituais, Bali, oferece a melhor decoração e estatuária, ali mesmo ao pé da estrada. O que faz sentido, já que é ao volante que estes fiéis passam grande parte da sua vida terrena.

Cheguei tarde a Bali, chegámos todos. Bali era bom quando havia mais fé que Wi-Fi. Ainda assim, Ubud fica no coração do viajante, espiritual e verdejante. Como ficam todas as aldeias, arrozais, vulcões e rituais. O problema é que os sítios são as pessoas e Bali sofre de turistismo agudo!

A minha sugestão era que os locais mudassem de ilha e levassem aquela beleza que é só deles para Lombok. Lombok, selvagem e tropical, com belas praias limpinhas e muito terreno para encher de bênçãos.

No meu coração ficaram as Gili. Era para lá que eu me mudava. Três ilhas onde se pode viver a pé e ser feliz por meia dúzia de mil rupias. A cada minuto que passa, esta frase vai-se tornando mentira, por isso apressem-se para ainda encontrarem este paraíso como eu o deixei, belo e desarrumado, entre corais embalado.

Dez anos de viagens mudam o viajante. Já não se vê um sítio novo pela primeira vez, sem o compararmos com cidades, cheiros e sabores passados. A Viagem é uma espécie de Amor. Cada vez é mais difícil ficar apaixonado mas cada vez é mais certo, gostar de verdade. Assim sendo e para finalizar em grande, ficam com uma lista dos meus culpados amantes.

O maroto marisco dos descendentes dos portugueses em Malaca, a sedutora Laksa e os crepes de jicama em George Town, os picantes caris do Banana Leaf, o fogoso satay de qualquer banquinha ambulante, o doce porquinho caramelizado com bolas de arroz de Jonker Street, a safada galinha branca, o patriótico Nasi Lemak, o modesto Roti Canai, o guloso Mee Goreng, o nutritivo Tempe, o excitante Redang, o inocente Babi Guling, as simpáticas Popias, o peixinho das Gili, os incríveis pratos vegan em Bali e as eternas e artísticas smoothie bowls. Isto tudo arrematado com Kopi (cafezinho), nas suas variantes preto, branco e defecado pelos fofos luwaks.

Como veem mais do que ver, os olhos gostam é de comer. E o resto de mim vai atrás. Tenho mais Malásia e Bali no corpo que em qualquer outro lugar. Kilos de memórias! Será que os tenho que declarar?

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