A crise espanhola

Do ponto de vista político, Espanha aparece dividida e em crise. E apesar do crescimento económico da ordem dos 3%, Espanha vive uma crise profunda.

À hora a que escrevo esta crónica (22h00 de domingo), estão contados 80% dos votos em Espanha. O PSOE lidera, com menos de 30% dos votos. Precisa neste momento para governar com maioria no Parlamento de uma de duas “geringonças”: ou com o Unidas Podemos mais os independentistas (bascos e catalães) ou com o Ciudadanos. Diga-se que as duas parecem-me improváveis e dificilmente constituem uma solução de governo estável.

Do ponto de vista político, Espanha aparece dividida e em crise. Por um lado, a esquerda e a extrema-esquerda somam tantos votos como a direita e a extrema-direita. Ou seja, PSOE e Podemos juntos valem tanto como PP + Ciudadanos + VOX. Um sinal preocupante. A ascensão do VOX deve preocupar-nos. Mas não menos que a ascensão há uns anos do Podemos.

Sanchez fará tudo para se manter no poder, inclusive levar o Podemos para o governo. E dar-lhe as pastas que a extrema-esquerda sempre quer, a começar na Educação e na Administração Interna (lá tem a designação de Interior). Isto porque Sanchez é o político mais sem vergonha que me lembro de ter visto. Bate qualquer um. O plágio na tese de Doutoramento é quase uma irrelevância face ao que fez desde 2017. Tomou o poder aliando-se à extrema-esquerda e aos independentistas.

Deitou abaixo um governo para, depois, nem ser capaz de fazer um Orçamento do Estado. Sim, Espanha está há 5 meses sem Orçamento aprovado. Não teve a honestidade de convocar eleições, dado que as sondagens lhe eram desfavoráveis. Sanchez tomou posse em julho de 2018 num governo de transição, prometendo convocar eleições rapidamente. Mas levou um ano. Em que usou todo o dinheiro que tinha para, à boa maneira socialista, ir comprando votos. A subida do salário mínimo nacional em 30% tem agora como consequência que mesmo a crescer 3% ao ano o desemprego tem subido. Mas a situação em Espanha é bem mais grave.

Apesar da performance da economia espanhola, que cresce 3% ao ano, a verdade é que Espanha perdeu a pujança e a dinâmica que tinha nos anos 80, mas sobretudo nos anos 90 e início deste século. Com Felipe Gonzalez e depois com José Maria Aznar, Espanha deu um enorme salto no seu desenvolvimento. Usou, e muito bem, a sua dimensão e os apoios comunitários para se desenvolver de uma forma extraordinária. E criar grupos económicos que nos anos 90 e no início do século XXI dava cartas a nível europeu e mundial. Mas em 2004 tudo começou a mudar.

Aznar saiu e o PP perdeu as eleições. Diga-se que em grande medida pela forma surreal como o governo de então reagiu aos atentados de Atocha. A condenação prematura da ETA quando na realidade já sabiam ter sido um atentado terrorista da Al-Qaeda levou a uma rejeição nas urnas do PP e de Rajoy.

Só que Espanha elegeu em 2004 um péssimo político que ficava a milhas de Gonzalez. Zapatero deixou que a economia espanhola perdesse fulgor. Destapou velhas feridas sobre o regime anterior. Não soube, ou não quis, proteger a Monarquia dos escândalos.

Rajoy, por seu lado, lidou pessimamente com a questão catalã. E deixou que o seu governo e ele próprio fossem minados por escândalos de corrupção. Salve-se ter evitado um pedido de resgate à semelhança de Portugal, Grécia e Irlanda. Ter estabilizado a banca espanhola (mais uma vez a dimensão de Espanha foi usada de forma inteligente para um “resgate” à medida) e sobretudo uma transição suave de Soberanos, com a coroação de Felipe. E se tinha tudo para correr mal….
Mas a questão espanhola é mais profunda.

A transição para a Democracia em Espanha foi bastante diferente de Portugal. Enquanto nós, fruto da guerra do Ultramar, fizemos uma revolução militar a 25 de abril de 1974, Espanha fez uma transição sem armas. O ditador Franco, tendo visto o seu sucessor, o Almirante Carrero Blanco, ser morto num atentado da ETA, optou por nomear Juan Carlos como Rei e seu sucessor.

O Rei conduziu Espanha na transição para a Democracia, defendendo-a inclusive na Tejerada, o golpe militar de de 21 de fevereiro de 81. Onde contou com um político extraordinário que era Adolfo Suarez. A transição tinha tudo para ser muito mais difícil que a portuguesa. É verdade que Espanha não tinha o problema do Ultramar nem da Descolonização. Mas por outro lado tinha (e tem) o problema das regiões. Ao contrário, Portugal mesmo no período mais quente da Revolução, nunca apresentou perigo de secessão. E, depois, Espanha tinha um segundo problema: o regime Franquista tinha-se imposto após uma guerra civil extremamente violenta. Já o Estado Novo impôs-se com um golpe, o 28 de Maio, sem grande oposição.

Ora, em grande medida aquilo que permitiu manter Espanha unida é o que falta hoje: lideres moderados que percebem que o mais importante é o interesse nacional e não o poder pessoal.
E Espanha teve líderes extraordinários nesses anos de transição. Primeiro, o Rei que soube escolher o caminho da Democracia. Depois um primeiro-ministro, Adolfo Suarez, que soube conduzir o país nesses tempos difíceis. Também um líder do PSOE que se afirmou e liderou o governo Espanhol a partir de 1982 até 1996. Um líder Catalão, Jordi Puyol que soube afirmar a autonomia, mas que no golpe de 1981 manteve-se ao lado da Democracia e de Espanha, tendo sido outra peça fundamental para impedir a tentativa de restauração do Franquismo por parte do Tenente-Coronel Tejero. Um líder que soube reconstruir a direita democrática, o galego Fraga Iribarne.

Mas houve outra figura, que apesar de comunista, mostrou um elevado sentido patriótico e uma grande moderação. Santiago Carrillo liderou os comunistas espanhóis entre 1960 e 1982. Mas durante todo o período de transição manteve sempre o princípio que a unidade de Espanha e a Democracia eram o mais importante. Ao contrário de Cunhal, que não hesitou em defender os interesses de Moscovo, sobretudo na descolonização de Angola e Moçambique. Se a transição em Espanha foi pacífica, deve também a Carrillo.

Se a transição em Portugal foi de conflito, com o golpe do 11 de março, as nacionalizações, o COPCON e as prisões, tendo o país evitado uma ditadura comunista com o 25 de novembro, resultou em grande medida da ação de Cunhal.

Aliás, no golpe de 1981, quando o Tenente Coronel Tejero entrou no parlamento foi imediatamente repreendido pelo vice-presidente do Parlamento, o Tenente-General Gutiérrez Mellado. Quando Tejero disparou para o ar (e com um dos seus militares a disparar uma salva de metralhadora para o teto do Parlamento), todos os deputados se baixaram imediatamente. Só três pessoas não o fizeram: Gutiérrez Mellado, Adolfo Suarez, que se levantou para ajudar Mellado, e Santiago Carrillo que permaneceu calmamente no seu lugar.

Conta-se também que Carrillo teria um dia tido uma conversa com Estaline. O ditador sanguinário soviético, a determinado momento, exaltou-se e berrou a Carrilo: “vocês, espanhóis, não percebem nada de materialismo dialético nem de socialismo científico. Também não admira, só percebem de porcarias como Deus e a Virgem Maria”. E Carrillo terá retorquido, muito calmamente, a fumar: “Camarada Secretário-geral, de Deus pode dizer o que quiser, mas da Virgem Maria, na minha presença, não lhe tolero”.

É isto que falta a Espanha e em quase todo o lado: políticos de caráter, que independentemente das suas convicções ideológicas, percebem o que é o interesse nacional e comum. Políticos que têm uma visão do que defendem e o fazem de forma convicta. Mas que colocam os interesses nacionais acima dos seus interesses, dos interesses dos seus partidos ou das ideologias.
Sim, Iglesias e Sanchez não são Carrillo nem Gonzalez. Pelo poder não terão pejo em colocar em risco a unidade de Espanha e o bem-estar dos Espanhóis.

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