A dívida, novamentepremium

O caso Evergrande é sinal de uma realidade que ninguém parece querer assumir: nunca o mundo esteve tão endividado como hoje e nunca a facilidade de endividamento produziu efeitos tão perversos.

Nos últimos dias, os mercados internacionais foram assaltados no seu sossego por causa de uma empresa chamada Evergrande. Trata-se da maior promotora imobiliária da China e também a empresa mais endividada do mundo dentro do ramo, com um endividamento que aproxima os 300 mil milhões de dólares.

Há vários meses que circulavam notícias negativas sobre a Evergrande e, no entanto, isso não impediu que alguns dos maiores fundos internacionais tivessem mantido e até reforçado as suas posições nos títulos de dívida da empresa. Mas como sempre sucede nestes momentos, a festa prolonga-se até que a música seja interrompida. Foi o que aconteceu há dias. A música parou e os mercados prestaram atenção ao silêncio, o que nas bolsas de valores geralmente se concretiza em vender primeiro e questionar depois.

A situação na Evergrande tem levado muitos investidores a questionar: será que a China vai ter um momento Lehman Brothers, como sucedeu nos EUA em 2008, e arrastar consigo o mundo financeiro? É difícil responder. Por um lado, o desmoronamento financeiro da Evergrande mostra que, mesmo num ambiente altamente controlado como o chinês, a acumulação excessiva de endividamento acaba sempre mal. Por outro lado, também é verdade que as regras normais de mercado tendem a ser inaplicáveis na China, pelo que, ainda que não sem estragos, os danos colaterais poderão acabar por ser administrativamente contidos. Independentemente do desfecho, há ilações que podemos desde já retirar. Primeiro, o contágio chinês mostra a ascensão financeira do país. Segundo, o controlo estatal, mesmo na China, é ilusório.

Os relatos que vamos lendo na imprensa sobre a Evergrande revelam contornos que se assemelham a um esquema piramidal. Aparentemente, haveria empresas do grupo a financiarem outras empresas do próprio grupo, através da venda de títulos e promessas de juros elevados a pequenos aforradores, até que as promessas de rentabilidade se esfumaram e os reembolsos começaram a ser suspensos. Alguns fornecedores do grupo também terão sido convencidos a receber os seus créditos por serviços prestados em títulos, em vez de dinheiro à vista. Fosse a empresa um banco e teria havido uma corrida aos depósitos. Nada de novo. Já vimos isto no Ocidente. Chama-se pagar com o pelo do cão. Ainda assim, surpreende que tenha acontecido exactamente o mesmo na ditadura “high-tech” chinesa.

A débacle chinesa é sinal de uma realidade que ninguém hoje parece querer assumir: nunca o mundo esteve tão endividado como hoje e nunca a facilidade de endividamento produziu efeitos tão perversos (de que os juros negativos são talvez o sintoma maior). O rácio entre a dívida total e o PIB mundial situa-se hoje em cerca de 350% do PIB mundial; em 2008 o rácio era de “apenas” 280%. O mundo parece não ter aprendido com a lição Lehman.

Na verdade, o que se fez foi carregar no acelerador, cortesia dos novos senhores do universo – os banqueiros centrais –, com o mero acrescento de suspensões de maior qualidade nos veículos, isto é, de rácios de capital mais elevados na banca. Mas nada quanto aos travões. A política orçamental e a política monetária vão, entretanto, manter a velocidade alta porque travar não é opção.

Nos bastidores do poder só existe o curto prazo e há muitas carreiras em jogo. Cada vez mais, o mercado só existe no papel, até mesmo no mundo ocidental. Ao invés, a rede estatal está em todo o lado. Mas, ao mesmo tempo, há uma certa sensação de que toda esta prosperidade, induzida pelos défices orçamentais e expansões monetárias, é artificial. A responsabilidade não é, assim, só dos políticos. É sobretudo do eleitorado, que vê falhas de mercado, mas não de governo, mesmo quando são as falhas de governo que dão lugar às de mercado. Desenganem-se, portanto, aqueles que pensam que o endividamento é obra exclusiva dos governos, que não é. Na verdade, ele é obra daqueles que concederam aos governos o mandato que estimulou e incentivou o caminho que nos trouxe até aqui: uma dívida global de 350% do PIB mundial.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

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