A economia está só a abrandar ou vai mesmo entrar em recessão?

Ao longo dos últimos meses, há sinais de que o crescimento global terá pelo menos invertido a tendência e estará no mínimo a abrandar. Vem aí uma recessão global?

Os economistas costumam dizer que as expansões económicas não morrem de velhice. Ou seja, a economia não deixa de crescer apenas porque uma expansão dura há demasiado tempo. No entanto, ao longo dos últimos meses, temos tido sinais de que o crescimento global terá pelo menos invertido a tendência e estará no mínimo a abrandar. Mas será que vem aí uma nova recessão global?

Estimativas para o PIB Mundial em 2019 e 2020 (%)

2018 terminou mal e 2019 não começou melhor…

As ultimas leituras dos indicadores económicos apontam para que depois de uma segunda metade de 2018 bastante desapontante na área do euro, o inicio de 2019 tenha sido ainda pior. Não só os inquéritos de confiança dos empresários apontam para uma forte desaceleração, como também os dados preliminares do crescimento económico para a área do euro e para algumas das principais economias apontam para que se esteja a entrar numa fase de uma forte desaceleração ou até perto de uma recessão.

Crescimento do PIB (em %)

De acordo com os dados revelados pelo Eurostat na passada quinta-feira, o PIB da área do euro cresceu 1,8% em 2018, abaixo dos 2,4% de 2017. E numa nota ainda mais negativa, no segundo semestre, o PIB da área do euro cresceu apenas 1,4% em termos homólogos, bem abaixo dos 2,3% da primeira metade do ano, piorando assim as perspetivas para 2019. Para além disso, há já vários indicadores de confiança de empresas e de consumidores que apontam para que o início de 2019 tenha sido ainda pior, deixando no ar a hipótese de que a área do euro possa efetivamente estar perto de uma recessão.

Não há muitos dados nos EUA devido ao ‘shutdown’ do governo federal, mas a julgar pelo mercado de trabalho, e pelo indicador de confiança dos industriais (ISM), não há sinais de qualquer abrandamento do lado de lá do Atlântico. No entanto, ainda esta semana a FED mudou a sua atitude quanto à politica monetária eliminando a referência quanto a futuras subidas de taxas devido a…. menos crescimento.

Tal como em 2016, a culpa é da China e dos mercados emergentes?

À primeira vista, tal como já tinha acontecido em 2016, o principal motivo vem do oriente, já que o notório abrandamento da economia chinesa, principalmente do setor industrial vai-se propagando a outras regiões mais integradas nas cadeias de valor. Convém notar que tal como em 2016, o preço das matérias-primas industriais e do petróleo caíram substancialmente ainda antes dos primeiros sinais de fraqueza dos indicadores económicos nas economias desenvolvidas.

PMI Compósito (indústria e serviços) da área do euro

Para além disso, os primeiros países a registarem um abrandamento, com os seus inquéritos industriais PMI a caírem para perto ou para baixo de 50 (sinal de expansão) foram precisamente os que detêm maiores ligações com a China – Coreia do Sul, Vietname e Japão – antes mesmo de os indicadores chineses começarem a deteriorar-se. Depois, alguns mercados emergentes como a Turquia foram sentindo na pele não só esta desaceleração da China, mas também o impacto da subida de taxas de juro da FED.

Na Europa, seguiu-se a Alemanha, que ainda que tenha as famílias com as melhores em mais de 30 anos, devido a criação de emprego e a melhoria dos salários, continua bastante dependente das exportações. E só depois as restantes economias como a França e Itália registaram também uma forte desaceleração e até uma queda no caso da Itália (que registou já dois trimestres de decréscimo do PIB).

Como tem sido regra, a menor abertura e dependência face a economias emergentes por parte dos EUA tem colocado a economia americana numa posição mais resguardada. Portanto, tal como em 2016, será que teremos apenas alguns trimestres de crescimento mais fraco a que se seguira novamente uma recuperação? Dificilmente será o caso, já que desta vez a situação é distinta principalmente por dois motivos:

  1. A política monetária está já numa fase mais adiantada do que em 2016

    Na altura, a FED estava ainda no início do seu ciclo de subida de taxas (começou em dezembro de 2015), pelo que as condições monetárias não só nos EUA, mas também globais, eram bastante mais expansionistas do que agora. Para além disso, no final de 2018, a famosa curva de rendimentos dos EUA (yield curve) inverteu, ou seja, as taxas de juro de curto prazo (2 anos ou 1 ano) subiram acima das de longo prazo (10 anos), algo que normalmente é associado a médio prazo recessões e que implica que a politica monetária se irá tornar ainda mais restritiva e só melhorara com descidas de taxas do banco central, algo que tipicamente ocorre em recessões.
    O programa de compra de ativos do BCE era relativamente recente e o seu impacto ainda não se tinha feito sentir totalmente principalmente nos custos e acesso a financiamento por parte de empresas na área do euro. Neste momento, nos EUA, depois das várias subidas de taxas da FED, os EUA voltaram a ter taxas de juro reais positivas, algo que não se verificava desde 2008 e que restringe substancialmente as condições monetárias a nível global (basta ver o que aconteceu em alguns mercados emergentes como a Turquia no final do ano passado. E na área do Euro, não só BCE já anunciou que iria deixar de expandir o seu balanço como deixava antever subidas de taxas de juro para 2020.
  2. O ambiente geopolítico é cada vez mais incerto e menos favorável a políticas económicas concertadas

    Não só a atitude dos EUA face ao comércio mundial mudou substancialmente, como também outros países estão a seguir as mesmas pisadas. Guerras comerciais, nacionalismos e autoritarismos deixaram de ser conceitos dos livros de história como estão novamente em voga quase 100 anos depois. E a Europa não é uma exceção, muito pelo contrário.
    Ainda que a crise da área do Euro esteja para trás (ou pelo menos a sua fase mais crítica), a União Europeia debate-se pela primeira vez com a saída de um dos seus membros (e logo um dos mais importantes e num processo de saída que parece que será tudo menos ordenado….). Para além disso, os partidos eurocéticos tem ganho cada vez mais peso nos parlamentos europeus e as eleições europeias deste ano podem levá-los em (maior) força para o Parlamento Europeu. Longe vão os tempos de 2008/09 em que as principais economias mundiais (quer desenvolvidas quer emergentes) uniram esforços para evitar uma nova depressão… Hoje em dia, o ambiente geopolítico nem é simplesmente neutro, é mesmo negativo e prejudica as perspetivas de investimento e de consumo a médio prazo.

E será que a economia mundial melhora na segunda metade de 2019?

O consenso dos economistas (que costuma estar errado, principalmente em fases de de inversão de ciclo…) aponta para que, depois de uma primeira metade do ano mais fraca devido ao impacto de menor crescimento da China, a economia mundial recupere no final de 2019.

A maioria dos economistas e decisores económicos parece assim contar que os mais recentes estímulos do banco central da China levem a que, tal como em 2016, o investimento e consumo chineses recuperem e, com eles, toda a cadeia de produção global. Para além disso, a FED já parece ter posto de parte novas subidas de taxas de juro e o BCE alterou também o seu discurso e deixou mais em aberto a hipótese de uma nova expansão do programa de compra de ativos ou até de um adiamento da subida de taxas de juro.

Será suficiente? Infelizmente não tenho uma resposta infalível, mas arrisco dizer que desta vez, ao contrário de 2016, nem mais estímulos monetários na China nem “pequenos” ajustamentos de politica monetária nos EUA e área do euro serão suficientes. Mais de dez anos depois da crise financeira, o impacto marginal de mais estímulos monetários é cada vez menor (beber um copo de água com sede é bem melhor do que beber o décimo copo…). E, principalmente, ainda que as expansões económicas não morram de velhice, costumam ser alimentadas pelas expectativas dos agentes económicos. E com toda a incerteza e protecionismos atuais, dificilmente as famílias e empresas poderão continuar indefinidamente otimistas…

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