A economia mundial está em queda livre, mas pode ser pior

Por muito negativos que estes cenários pareçam, podem ainda ser demasiado optimistas, devido aos efeitos económicos do “grande confinamento” e da epidemia.

As estimativas reveladas pelo FMI são aterradoras e mostram que a economia mundial está em verdadeira queda livre. Pela primeira vez desde a grande depressão, o PIB mundial irá contrair 3%, algo mais parecido a uma depressão do que uma recessão global já que é mais ou menos aceite que basta ter um crescimento abaixo dos 3% para se considerar uma recessão global. No entanto, por muito negativas que possam parecer, estas estimativas até podem ser demasiado otimistas, já que o FMI espera uma recuperação robusta assim que as medidas de confinamento forem levantadas, apontando para um crescimento de perto de 6% em 2021.

Comentar estas estimativas tão negativas e ainda esperar algo pior parece a história do otimista e do pessimista em que diz o pessimista: “Isto não pode ser pior.” E responde o otimista: “Ai pode, pode.” E o problema é que de facto pode ser pior, não este ano, mas principalmente no próximo e nos anos seguintes.

Depois da China, o vírus, não conhecendo fronteiras, continuou, e o mundo parou. Assim, ao contrário do verificado na crise financeira, esta contração é transversal às economias desenvolvidas, emergentes e em desenvolvimento. No caso destes dois últimos grupos, mais do que as medidas de confinamento, é a paragem do comércio mundial e o repatriamento massivo de capital de volta para os países mais ricos. Mas depois de uma grande queda do PIB mundial, pior do que a esperada por outras instituições, o FMI espera uma forte recuperação para o próximo ano, principalmente graças à recuperação das economias emergentes. Ou seja, depois do “grande confinamento”, a economia mundial acaba 2021, acima do nível de 2019, numa espécie de recuperação em V.

PIB no cenário central do FMI (2019=100)

Fonte: FMI e cálculos do autor

O FMI apresenta ainda assim três cenários bastante mais negros que dependem da evolução da epidemia:

  1. Um cenário em que as medidas de confinamento se estendem para lá do verão, onde o PIB contrai 6% este ano e apenas recupera 3.8% no próximo.
  2. Outro em que se repete um novo surto em 2021, ainda sem vacina ou tratamento disponível. Neste caso, a queda deste ano mantém-se nos 3% e em 2021, o PIB mundial mantém-se estagnado.
  3. Uma combinação dos dois anteriores, com um alargamento do confinamento e um novo surto em 2021. Neste caso, o PIB contrai 6% este ano e novamente 1% no próximo.

PIB no cenário mais negativo (2019=100)

Fonte: FMI e cálculos do autor

No entanto, por muito negativos que estes cenários pareçam, podem ainda ser demasiado optimistas, não devido à evolução da epidemia (algo que para já nem o FMI nem ninguém consegue prever), mas sim devido aos efeitos económicos do “grande confinamento” e da epidemia:

  1. Não é liquido que depois do fim do confinamento, as famílias e empresas voltem ao “normal”. Em primeiro lugar porque o fim do mesmo confinamento será gradual, mas principalmente porque o dia a dia será bem diferente do que era há alguns meses atrás. Alguns sectores como o turismo, entretenimento ao ar livre (concertos, eventos desportivos, etc) e transportes coletivos serão bastante mais afetados, com um impacto que se estenderá também aos restantes sectores.
  2. O comportamento das economias não é linear. O impacto de grandes quedas do PIB deixa marcas mais profundas e duradouras, devido à destruição de emprego e capacidade produtiva que implicam. Por outras palavras, uma queda de 8% do PIB como no caso Português não é o mesmo que duas quedas de 4%. Os governos anunciaram até agora uma série de medidas, destinadas a assegurar liquidez para as empresas, mas como também refere o FMI no Global Financial Stability Report, esta é também uma crise de solvência. No final deste ano teremos menos empresas ativas e menos emprego, logo menos capacidade de recuperar o tempo perdido.
  3. Nenhuma economia é uma ilha. As interligações são cada vez mais complexas, daí que quando várias economias sofrem quedas abruptas, pode haver os chamados “efeitos de segunda volta”. Ou seja, depois do primeiro impacto da crise, que leva a uma queda imediata do consumo e investimento, seguir-se-á uma queda das exportações, que levará a um segundo choque no emprego e rendimento e assim sucessivamente. Este risco é particularmente evidente para as economias emergentes e em desenvolvimento, que estão já a ser particularmente afetadas, mas para as quais o FMI antevê uma recuperação assinalável já em 2021. Caso esta recuperação não se verifique, levará inevitavelmente a um impacto negativo nas economias desenvolvidas.
  4. Esta crise pode destruir ou interromper algumas cadeias de valor da economia mundial. Desde a entrada da China na Organização Mundial do Comércio que as cadeias de valor se foram tornando cada vez mais complexas e são uma verdadeira “black box” para os economistas e instituições internacionais. Depois do fim da crise, algumas falências poderão por em causa as cadeias de valor de sectores inteiros e assim limitar a produção, e consequentemente a recuperação da atividade.

Estes riscos são referidos pelo FMI e serão, na sua opinião, compensados pelas medidas bastante agressivas de política orçamental e monetária tomadas até agora. De facto, os governos e bancos centrais foram mais proactivos do que nunca (mesmo na Europa) e tem havido uma maior coordenação internacional do que na crise de 2008/2009. Mas não é liquido que consigam ser eficazes. O impacto económico pode ser mais permanente do que parece e grande parte das medidas foram centradas em manter o rendimento dos trabalhadores e garantir liquidez às empresas. Caso hajam muitas falências, vai ser preciso ir mais longe e pensar a longo prazo.

Mas nem todos os países têm a mesma capacidade de politica económica, principalmente ao nível orçamental. Mesmo que a economia recupere rapidamente, muitos países sairão da crise com níveis bastante altos de desemprego e alguns com níveis insustentáveis de dívida publica. Esta diferença é particularmente gritante na área do euro: a Itália terá em 2020 um stock de divida publica de 155% do PIB, e uma taxa de desemprego de 12,7%, o que compara com a Alemanha onde o rácio da dívida publica será menos de metade (68% do PIB) e o desemprego menos de um terço (3.9%).

Dívida pública (em % do PIB) na Alemanha e Itália…

… e desemprego (em % da força de trabalho)

Fonte: FMI

Combater estes dois problemas em todos os países exigirá uma intervenção verdadeiramente coordenada a nível global para impedir que depois deste “grande confinamento”, alguns países caiam numa grande depressão – algo muito difícil para já.

Infelizmente, neste caso é possível ser mais “otimista”: infelizmente, as coisas ainda podem ser bem piores…

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