A falta de escala das empresaspremium

Em Portugal, as empresas de maior dimensão representam pouco mais de 30% do valor acrescentado total, ao passo que na UE o seu contributo é superior a 40%.

A economia portuguesa é caracterizada pela sua atomização empresarial, sendo que o peso das microempresas na empregabilidade do país encontra-se bem acima da média europeia. Em Portugal, as microempresas representam cerca de 40% da empregabilidade total, ou seja, dez pontos percentuais a mais do que em média sucede na União Europeia (UE). E ao mesmo tempo, observa-se que também o contributo das empresas de maior dimensão para o valor acrescentado da economia portuguesa está bastante abaixo da UE. Em Portugal, as empresas de maior dimensão representam pouco mais de 30% do valor acrescentado total, ao passo que na UE o seu contributo é superior a 40%. Será isto um problema? E se sim, como resolvê-lo?

Na minha opinião a falta de escala é mesmo um problema, independentemente de hoje se estimular muito a cultura “start-up” que numa primeira fase leva sempre à criação de mais microempresas. O problema é que a esmagadora maioria de microempresas em Portugal não possui a mentalidade “start-up”. São pequenos negócios de conveniência ou de proximidade. E sem prejuízo da dignidade com que são criados, e do muito emprego que ainda representam no país, a maioria não tem nem a ambição nem a “escalabilidade” (como se costuma dizer no mundo “start-up”) que lhes permitam outros patamares de dimensão ou de valor acrescentado. Devem ser penalizados por isso? Nem pensar, como é evidente. Mas então, de que forma poderão estes negócios de menor dimensão contribuir para o melhor desenvolvimento do país?

Em Portugal, há indiscutivelmente um desafio de inovação. O European Innovation Scoreboard (EIS) de 2021 é claro quanto a isso: Portugal é uma economia moderadamente inovadora. Na linguagem politicamente correcta de quem constrói estes índices, isso quer dizer que estamos abaixo da média europeia. Acima dos moderadamente inovadores há dois níveis (os países líderes de inovação e os que são fortemente inovadores), mas abaixo só há um (para o qual se encontrou o delicioso título de “emerging innovators”!). No caso em apreço, entre 38 países analisados no EIS, estamos em 24º lugar. E entre os domínios que desfavorecem a posição portuguesa encontram-se o investimento em inovação (nas empresas e no Estado) e a falta de colaboração (entre empresas, e entre empresas e instituições de ensino e investigação).

As dificuldades de investimento e de colaboração são em larga medida influenciadas pela reduzida dimensão das empresas. E no caso dos indicadores relativos à colaboração empresarial, a situação é ainda mais notória porque estas dimensões estão especificamente orientadas para a avaliação das pequenas e médias empresas (PME). Naturalmente, a falta de escala não será o único factor a influir nesta avaliação. Haverá outros factores tais como as qualificações, os modos de financiamento ou as condições de contexto, que globalmente limitam as empresas nos seus esforços de inovação. Porém, a dimensão das empresas não deixa de ser determinante na capacidade de inovação da economia, não obstante a maioria do investimento em investigação e desenvolvimento em Portugal ser hoje feito pelo sector empresarial.

As fusões de empresas, sobretudo entre empresas de menor dimensão, são problemáticas. Em geral, estas empresas tendem a ser o reflexo das circunstâncias pessoais dos empresários que as detêm, encontrando-se fortemente condicionadas pela liderança e envolvimento financeiro que esses mesmos empresários emprestaram pessoalmente ao negócio (designadamente todo o elo de avales pessoais prestados à banca para financiar as empresas, e que nas fusões e aquisições podem dar lugar a um cálculo pessoal nem sempre construtivo). Há ainda o problema da detenção familiar dos negócios, que em momentos de sucessão tende a conduzir a um viés no sentido de uma solução interna (à família) por oposição a uma solução externa (como uma fusão ou aquisição). E, por fim, há ainda o eterno problema da economia informal que nos pequenos negócios se sente de forma mais intensa do que nas empresas de maior dimensão.

Os incentivos criados pelos governos para fomentar a consolidação empresarial passam habitualmente por medidas de tipo fiscal. Mas está por demonstrar a eficácia destes incentivos, em particular no segmento das microempresas. Ao mesmo tempo, também não passa pela cabeça de ninguém obrigar quem quer que seja a fundir-se com outro alguém. A consolidação será assim uma consequência da pressão competitiva que, espontaneamente, acabará por levar micro ou pequenos empresários a juntarem esforços como alternativa ao encerramento da actividade. Será uma opção mais apelativa para uns do que para outros, mas em geral as escolhas disponíveis acabarão por ser estas duas. E com a transição digital e carbónica que hoje caracteriza a evolução do mundo empresarial, as escolhas difíceis vão surgir muito em breve.

A pressão competitiva está a intensificar-se e surge de vários quadrantes. A regulação é um desses quadrantes. No que diz respeito à descarbonização, as empresas que não seguirem este caminho vão ter maiores dificuldades em aceder a crédito num futuro não muito distante. É que a regulação bancária também vai passar a considerar o risco ambiental.

Mas há uma outra fonte de pressão competitiva, de mercado e não tanto de natureza administrativa, que há que salientar. Refiro-me ao teletrabalho massivo, tornado possível pela economia digital, e ao potencial que aquele terá em abrir possibilidades de emprego a muitos portugueses que hoje (ainda) estão empregados em PME. Isto não se fará sentir apenas nas profissões relacionadas com as tecnologias de informação. Acabará por se fazer sentir noutras carreiras também. Assim, o teletrabalho será óptimo para os trabalhadores, ainda que um desafio considerável para muitas pequenas empresas. Mas ainda bem. Os trabalhadores beneficiarão disso e muitas empresas serão “obrigadas” a evoluírem não só na cadeia de valor, como também na escala.

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