A falta que João Vasconcelos nos faz

Conhecia as dores e as angústias dos empreendedores e falava a linguagem deles. Porquê? Porque era um, o que fez toda a diferença. Foi um empreendedor-político ou contrário e o país deve-lhe gratidão.

Ninguém espera que a vida seja sempre justa mas também não havia necessidade de ser tão cínica. João Vasconcelos deixou-nos esta semana. Para sempre. Já antes o tínhamos perdido, pelo menos transitoriamente, do exercício de um cargo político para o qual era particularmente habilitado.

E a sua chocante morte prematura fez-nos recordar isso mesmo, o motivo pelo qual abandonou as funções de Secretário de Estado da Indústria, há quase dois anos: porque foi a Paris ver um jogo de futebol a convite de um dos patrocinadores da seleção, a Galp.

Ora, quem diria que o mesmo sistema político que colocou lá tão em cima a fasquia da transparência e do afastamento do mais leve potencial conflito de interesse é o mesmo que esta semana maquinou, em pleno Parlamento, que afinal os deputados podem continuar a fazer uma “perninha” em sociedades de advogados e entidades financeiras sem que daí venha mal ao mundo?

E o cinismo vem daí. Parecem dois mundos diferentes, mas não são. O país é o mesmo, a lei é a mesma, até os encenadores são os mesmos. E estes encenam a peça à medida da conveniência do momento, do número de espetadores que está na sala e, claro, dos interesses presentes e futuros porque é preciso tratar da vidinha e nunca se sabe o dia de amanhã ou para que lado é que isto vai cair.

Nestas coisas, a vergonha fica quase sempre com os mesmos: PS e PSD. E é uma vergonha acompanhada de uma enorme cobardia, porque são decisões tomadas pela calada, à 25ª hora de trabalhos de comissões ditas de transparência, ao arrepio do que estava em cima da mesa até então e nas costas da opinião pública.

É totalmente legítimo debater se os deputados devem ou não sê-lo em exclusividade e, se sim, quanto devemos pagar-lhes para isso. É um debate eternamente adiado, porque nunca é assumido pelos principais partidos políticos. Eles não têm coragem para o fazer abertamente.

Mas a ausência de reflexão não impede a decisão, como se vê, e tomada da forma traiçoeira como as bancadas do PS e do PSD acabam, novamente, de fazer. Ainda dizem que o Bloco Central não existe. Para estas coisas existe sempre. E também para daqui a semanas se queixarem das ameaças dos populismos porque, dizem, a classe política é muito maltratada e muito criticada. Pudera, com representantes que tomam atitudes deste calibre…

Já me desviei mais do que pretendia, até porque João Vasconcelos não merece estas misturas. Mas não deixa de ser chocante como tantas vezes maltratamos os melhores de nós a propósito de assuntos de “lana-caprina” enquanto, ao mesmo tempo, pactuamos com os verdadeiros problemas e centros de promiscuidade.

E João Vasconcelos era, sem dúvida, um dos melhores. Gostava muito mais de fazer do que de aparecer. Não queria os louros para si. Mas pensou, desenhou e executou muitas coisas – sempre com equipas dinâmicas que partilhavam o mesmo espírito – que permitiram a muitos o brilho: na política, nas startups, em empresas e outras instituições.

Percebeu antes de toda a gente que uma parte importante do desenvolvimento do país nos obrigava a correr na criação de condições para passar à prática muitas ideias que muita gente tem. Criou, na Câmara de Lisboa, a Startup Lisboa, onde nasceram tantos projetos que depois ganharam asas, cresceram, criaram centenas de empregos e até se tornaram unicórnios. Outros, muitos, ficaram pelo caminho porque quando se assume o risco é mesmo assim.

Estava na administração pública mas tinha toda a atitude das mais dinâmicas empresas privadas. E não se trata aqui de eleger um contra o outro, mas os ritmos, burocracia, tempo de decisão e sentido de urgência das estruturas públicas são, por regra, muito diferentes das privadas. Mas João Vasconcelos tinha sempre pressa em fazer, em realizar, em terminar, em colocar no mercado, em abrir as portas a mais um e outro projeto. E isso, muitas vezes, não é compatível com os tempos próprios de estruturas mais pesadas e burocráticas. E ele sempre encontrou forma de marcar o seu ritmo e de não ser travado pelo ritmo de outros.

Aliás, se pensarmos bem, como é que organismos públicos – como a Startup Lisboa, a Startup Portugal ou o Hub Criativo do Beato – conseguiram colocar-se e permanecer na linha da frente de parceria com empreendedores, mentores, financiadores incubadoras e aceleradoras de negócios? Como é que estas duas culturas tão diferentes, muitas vezes opostas, acertaram o passo num trabalho virtuoso para todos? Não tenho dúvidas: porque João Vasconcelos as fez desta maneira, porque sabia que ou alinhavam pelo ritmo dos promotores dos projetos ou seriam de uma enorme inutilidade, tornando-se mesmo num obstáculo. Nesta área virou o Estado para as legítimas necessidades dos utentes, não colocou estes a adaptarem-se às estruturas e regras públicas, algumas vezes estúpidas.

Foi à conta disso que era frequente ouvir da boca de empreendedores e promotores de empresas e negócios, em vários eventos e fóruns, comentários como “isto nem parece do Estado” ou “ele não tem nada a ver com os políticos”.

João Vasconcelos conhecia bem as dores e as angústias dos empreendedores e falava a linguagem deles. Porquê? Porque também era um. E isso fez toda a diferença. Foi um empreendedor-político ou político-empreendedor e o país deve estar-lhe grato por isso.

Foi, como já li por estes dias (e peço desculpa por não ter registado o autor), o irmão mais velho de muitos empreendedores, sempre com o conselho certo, o contacto útil, a dica essencial. Ensinava a pescar mas recusava-se a dar o peixe.

A ele devemos a colocação destes assuntos e destas dinâmicas no mapa e nas prioridades de políticas públicas. Nem que seja para desprezar, num certo estilo português, porque isto é uma “moda” inconsequente.

Não foi ele que negociou a vinda da Web Summit para Portugal – não estava ainda no governo – mas foi devido à sua acção nessa altura que Lisboa passou a ser uma hipótese a considerar. E, claro, mais tarde foi decisivo para manter e prolongar no país a maior montra de empreendedorismo e ideias do mundo, mesmo num governo que tem como parceiros parlamentares dois partidos que gostam tanto de iniciativa privada, negócios, empreendedorismo e independência do Estado como todos gostamos de um ataque de sarna.

E também foi ele, no governo, que foi fazendo a evangelização de muitas empresas industriais para a necessidade de alinharem na digitalização dos processos e negócios. Também aqui, em fóruns muito diferentes das incubadoras tecnológicas, sabia bem do que falava, falava a linguagem dos empresários e era, por isso, ouvido e respeitado.

Há cerca de dois anos, estava ele secretário de Estado, entrevistei-o sobre estes temas. Fui agora revisitar as notas dessa conversa, era sempre um prazer ouvi-lo pensar:

  • “A Indústria 4.0 é a primeira Revolução em que Portugal, se quiser, pode ter peso. Com o digital não interessa saber onde estamos. Não temos razão nenhuma para perder o comboio.”
  • “Somos os únicos que vamos para a África sub-sariana ou interior do Brasil montar indústria. Somos os únicos que podemos ter um cliente em Macau, em Angola e no Rio de Janeiro. Nenhum país consegue esta diversidade. Esse é o nosso maior contributo para o mundo.”
  • “A nova geração é a primeira geração com tantas ou mais qualificações do que os colaboradores. Nunca tinha acontecido.”
  • “Em termos de qualificações, na OCDE, continuamos com um abandono escolar comparável com a Turquia, México. Não é aceitável. A quantidade de jovens licenciados continua a ser muito baixa. Em termos de médio prazo, as qualificações são o maior desafio para a indústria portuguesa.”
  • “Haverá um antes e depois da WebSummit. Os três anos da WebSummit vão-nos permitir mostrar ao mundo o Portugal da nova geração.”
  • “Tem de haver urgentemente um consenso nacional sobre como é que o país se quer apresentar ao mundo. As coisas variam de membro de Governo para membro de Governo – dentro do mesmo Governo – variam de Governo para Governo. Não pode ser. Temos de afinar um pitch. Isso passa pelos políticos e pela sociedade. Não podemos ser bons em tudo.”
  • “Portugal sempre que se abre ao mundo engrandece. É esse o nosso papel. Somos a comunidade, o país na Europa que sabe lidar melhor com tantas culturas. Não há muitas capitais europeias onde exista uma sinagoga, uma mesquita e uma igreja católica no mesmo bairro. É de longe o maior contributo que Portugal tem para dar à Europa e ao mundo.”

Ele dizia isto mas fazia muito mais. O João Vasconcelos faz falta.

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