A força do desacordo

Os deputados britânicos não querem este acordo do Brexit, mas também não sabem exactamente o que querem.

1 A primeira certeza que fica da derrota contundente de Theresa May é que a Europa perdeu 46 mil milhões de euros. Era esse o valor da indemnização estipulado pela saída do Reino Unido. E que agora está cativo! Uma coisa ninguém quer: o caos e a desordem económica por via de um divórcio abrupto. E essa é a segunda certeza: embora perdendo ambos, as consequências são mais dramáticas para britânicos do que para europeus. Ora, aqui chegamos ao terceiro elemento de uma equação cujas derivadas já ninguém se lembra como surgiram: os deputados britânicos não querem este acordo, mas também não sabem exactamente o que querem. Um adiamento da saída teria o efeito obtuso de enfrentarmos umas eleições europeias em que a Grã-Bretanha elegeria os seus representantes para uma união política de onde está de abalada. Alguém imagina campanha mais hilariante?

2 – A Europa já deixou claro que nada mais há para negociar, mesmo se Theresa May tem agora alguns dias para reunir trunfos que convençam quem lhe infligiu uma derrota humilhante. Quando a primeira-ministra britânica foi ameaçando os seus pares de bancada que, sem a aprovação do seu acordo, só restava uma saída desordenada ou a reversão do próprio Brexit, talvez ela própria não tenha tido a noção de quão perto estaria de encontrar uma solução. Ficar, sem perder a face, pode ser o próximo grande desígnio para flanquear a maior trapalhada política do século.

3 – Curioso como duas tendências tão disruptivas, quase centrífugas, conseguem gerar um efeito de alinhamento e agregação. A política externa de Trump procura isolar a Europa e erodir um vínculo atlântico histórico. Ao fazê-lo, convocam a Europa para uma maior união, ciente de que na nova ordem internacional só uma postura blindada lhe garante expressão e sobrevivência. Uma metamorfose aprofundada com o Brexit e a saída do Reino Unido da União Europeia. Provavelmente, nunca como hoje a Europa esteve tão alinhavada quanto a objectivos essenciais. Uma União Europeia acossada relança-se numa vitalidade inesperada. Mesmo se a liderança futura gera dúvidas, a par do crescimento dos populismos e a incapacidade de aprofundamento durante o melhor período da retoma económica. Vejam-se os parcos resultados da união bancária.

4 – I´ve never worked for Russia!, clamou, duas vezes, Donald Trump. Ronald Reagan chamou-lhe o Império do Mal, e morreu convencido que a América tinha derrotado a União Soviética para sempre. Hoje, provavelmente, estará a dar voltas ao túmulo: ver um presidente americano ter que justificar publicamente que nunca trabalhou para a Rússia, num estilo desafiante – como John Wayne em El Dorado, de mão no coldre- , ilustra como os tempos mudaram e a que ponto chegou esta administração americana. De líderes da globalização para um protecionismo fora de tempo. De multilateralistas empenhados para uma completa repulsa de tudo o que são acordos internacionais. Uma América errática, que perdeu o seu cariz universal e que nem os resultados económicos de curto prazo vão evitar uma asfixiante guerrilha institucional até Novembro do próximo ano.

5 – Há uma inquietude que se insinua, como uma brisa que se quer tornar vendaval e anunciar um fim de festa. A Science4You falhou a entrada em bolsa, no seguimento do que já tinha acontecido com a Sonae MC, no final do ano passado. As tecnológicas, da Apple à Samsung, têm espalhado angústias nos mercados bolsistas, muito por culpa dos receios da guerra comercial entre China e EUA. A historiografia económica ensina-nos que o mercado de capitais antecipa a realidade mais tangível das economias. As bolsas, da mesma maneira que deram sinais de vida antes do fim da crise ter sido propalado, entraram em letargia e modo de segurança. Fica o sinal de aviso. Mais um.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

  • Jornalista. Subdiretor de Informação da TVI

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