A imprensa e a epidemia

Agora que é já claro que a visão catastrofista da epidemia que está em curso não se vai concretizar, é útil olhar para o papel que a imprensa desempenhou.

Não porque a imprensa seja, como de facto é, uma das vítimas colaterais da epidemia, mas porque a imprensa, durante semanas cruciais, esqueceu o seu papel de contra-poder, assumindo o papel da propagandista do medo do inimigo externo a que habitualmente o poder instituído a tenta confinar em tempo de guerra.

Quando Jorge Torgal, com anos de experiência e trabalho em epidemiologia disse o que hoje é claro -– que a epidemia da covid 19, nas suas consequências de mortalidade, tinha a dimensão de um surto de gripe –- caiu-lhe a toda a gente em cima, a imprensa cavalgou o sentimento da opinião pública e os comentadores que nunca tinham alguma vez pensado no que era uma epidemia, destrataram-no.

A imprensa não se interrogou, verdadeiramente, que razões tinha Jorge Torgal para o que estava a dizer e mesmo hoje, em que os dados existentes corroboram inteiramente essa ideia inicial, a imprensa preocupa-se mais em saber se se acha desautorizado ou não, que em verificar os factos.

É fácil dizer que fez umas declarações infelizes, é fácil dizer que clinicamente a covid 19 não é uma gripe, é fácil entrevistar intensivistas nas salas de cuidados intensivos, fazer peças plenas de emoção sobre o drama dos profissionais de saúde que estão na linha da frente, mas difícil, muito mais difícil, será a imprensa reconhecer que foi um erro dar ouvidos a Jorge Buescu, que nunca na vida tinha visto curvas epidémicas, em vez de procurar compreender Jorge Torgal.

Sem a menor sombra de teoria de conspiração, há uma sucessão infeliz de factos que nos trouxe até aqui, a um beco político e um poço económico.

  • Um surto de uma nova doença declara-se na China, segue o seu desenvolvimento natural, o regime tenta limitar os danos, como faz qualquer governo que tenha de lidar com um surto.
  • No fim do surto, e mesmo durante, a ditadura chinesa faz o que é da sua natureza: chama a si os louros do fim de um surto epidémico.

Como explica Knut Wittkowski neste vídeo, todas as doenças respiratórias seguem o mesmo padrão: aparecem em duas semanas, atingem um pico, vão-se em duas semanas e é tudo.

Infelizmente, a Organização Mundial de Saúde, ou mais precisamente, o seu Secretário-Geral, em vez de tratar a bravata chinesa como aquilo que é, uma bravata, resolveu insuflar o medo e, mais grave, deixar passar a ideia de que a OMS reconhecia que tinham sido as medidas absurdas tomadas pelo governo chinês que tinham parado o surto.

As opiniões públicas ocidentais, em especial uma boa parte das elites que tem a obrigação de manter alguma racionalidade, com a imprensa e a academia em lugar de destaque, ficaram fascinadas com a ideia de um combate heroico contra o vírus e passaram a exigir aos seus governos que adoptassem, o mais cedo possível, medidas draconianas, como os chineses, convencidos de que, de outra forma, o vírus progredia exponencialmente sem limite, até que todo o universo fosse uma massa de vírus.

A imprensa abandonou todo o espírito crítico, acoitou charlatães variados – os mais perigosos de todos, os que não sabem que não sabem – montou operações de contagens de mortos, esquecendo toda a cautela em lhes atribuir um contexto, falou com dezenas de pessoas que nunca tinham pensado sobre o que é uma epidemia e criou-se uma unanimidade social em torno do pensamento mágico de que, sem a colaboração de todos, o apocalipse chegava amanhã, às cavalitas de um vírus.

A imprensa não se interrogou se o pandemónio nos cuidados intensivos era por causa da especificidade clínica da doença ou por se ter decidido administrativamente concentrar os doentes em hospitais de referência ou por se ter criado o medo do contágio que levou famílias, lares, e todos os outros a não querem ficar à beira da cama de quem tinha direito a uma morte digna e humana, e não à morte fria e solitária numa cama de hospital.

Espero que agora se vire a página, e se a imprensa quer emoção, que vá falar com os desempregados, com os vendedores sem clientes, com os biscateiros sem biscates, com os operários sem prémios de produtividade, com os lojistas sem lojas.

Está na hora de acabar com esta loucura absurda do mais estranho suicídio económico que alguma vez poderia ter imaginado e espero que a imprensa seja capaz de se olhar ao espelho e avaliar bem o risco de perder o seu único verdadeiro activo: a capacidade de pensar pela sua cabeça e a coragem de quebrar o unanimismo.

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