A incerteza económica do coronavírus

Esperemos que este surto de vírus seja algo passageiro. E que sendo passageiros os seus efeitos sejam limitados e acomodáveis na atual situação económica.

Por estes dias a preocupação é o coronavírus e os seus impactos, quer em termos de saúde, quer do ponto de vista económico. Parece-me claro que, no dia de hoje, com a informação que dispomos, o impacto económico será, no mínimo, um abrandamento do crescimento em 2020. Digo “no mínimo”, porque o que sabemos neste momento é que a epidemia está já a ter quatro efeitos económicos:

  • Primeiro, está a levar ao cancelamento de viagens, férias e eventos, não apenas os que decorrem durante o mês de março, mas também para os próximos meses. O verão vai ser bastante afetado em termos de turismo (nas suas diferentes vertentes, e afetando toda a indústria, quer a montante, na parte do transporte, sobretudo aéreo, quer a jusante, na parte de serviços, restauração, vendas, etc.). As decisões ligadas ao turismo têm uma forte componente de “delay”, isto é, as vendas ocorrem alguns meses antes do consumo. As pessoas e as empresas não tomam decisões, na maioria dos casos, para a semana seguinte nesta matéria. A primavera e o verão são planeados alguns meses antes.

Ou seja, podemos contar, na melhor das hipóteses, com uma desaceleração do crescimento já este 1º trimestre, mas sobretudo no 2º e 3º trimestre.

  • Segundo, está a afetar as exportações, no sentido em que uma desaceleração da economia internacional e Europeia terá sempre um impacto nas exportações nacionais. Adicionalmente, como já analisou o meu amigo Ricardo Santos aqui no ECO, a China tem hoje um impacto muito maior na economia mundial que há 15 anos atrás na epidemia do SARS em 2002/2003. Se para a China um crescimento previsto de 6% já era uma má noticia, uma possível redução desse crescimento para valores abaixo dos 5% será bastante negativa. Entre 2014 e 2018 a China cresceu a 7% ao ano.

Nesse sentido a OCDE já reviu o crescimento mundial de 2.9% para 2.4%. Na crise de 2008, com os países desenvolvidos em recessão, a economia mundial ainda assim cresceu 3%. Os mercados perceberam e já incorporaram esse efeito nos preços nas últimas 2 semanas, com uma quebra em torno dos 10%.

  • Terceiro, está a afetar a cadeia de produção. A paragem económica na China está já a condicionar o fornecimento de componentes e bens intermédios, sobretudo em setores como os têxteis e o vestuário.
  • Quarto, o investimento privado em Portugal está fortemente concentrado num número reduzido de empresas. A quebra de atividade e a incerteza associada a quanto tempo irá manter-se a propagação do vírus está já a levar a alguma retração e adiamento de decisões de investimento.

O cenário central de propagação do vírus é que, na Europa, haja um pico de infeções em março-abril e que depois se entre na fase de declínio da incidência da doença. Espera-se também que no início do verão o surto esteja praticamente terminado. Este é o cenário central que os especialistas têm defendido. Se se confirmar, podemos esperar uma desaceleração da economia Portuguesa, sobretudo no 2º e 3º trimestre. Ao invés de crescer em torno dos 2%, que é a previsão atual, a economia Portuguesa poderá crescer em torno ou abaixo de 1.5%.

As previsões para a zona Euro são agora de um crescimento de 0.8% para 2020 (no OE2020 o Governo previa que a zona Euro crescesse 1.2% este ano).

Em matéria de Finanças Públicas haverá naturalmente um impacto nas contas de 2020. Com 2019 fechado (e um bom 4º trimestre), é provável que haja já um superavit de 0.1% ou 0.2% em 2019 (em linha com as previsões do CFP, do IPP e as minhas próprias). Mas o abrandamento da economia terá impacto na receita fiscal. Não tanto pelo lado das exportações, mas pelo lado do turismo e da procura interna.

Adicionalmente, haverá alguma pressão de aumento da despesa, sobretudo na saúde. Nesse sentido, será interessante ver em abril o programa de estabilidade. Que previsão de crescimento o governo irá apresentar e que estimativa de impacto orçamental prevê.

Naturalmente, se o cenário central dos especialistas em virologia e saúde preveem não se confirmar e tivermos um período longo de epidemia, isto é, o vírus passar de epidemia para pandemia, então os impactos económicos serão severos e podemos estar perante um “cisne negro” que leve a economia mundial à recessão. E nesse caso, a política monetária tem pouca margem de atuação, sobretudo na zona Euro. Afinal os juros estão negativos e houve nos últimos anos uma injeção massiva de liquidez no sistema financeiro, que produziu efeitos que ficaram muito aquém do esperado.

Também a política orçamental tem pouca margem de atuação, dado por um lado o elevado nível de dívida pública que a maioria dos países tem, quer por outro pela pressão que a demografia coloca nas contas públicas no médio e longo prazo e que limita fortemente a atuação dos governos em geral.

Como tenho aqui escrito, Portugal não está preparado para enfrentar uma recessão económica mundial ou europeia.

A economia Portuguesa é pouco competitiva, o que significa que uma quebra no PIB nos principais clientes das exportações levará a uma quebra destas. Adicionalmente, na crise de 2008-2013, a economia Portuguesa mostrou pouca resiliência na manutenção de empregos. O desemprego subiu de cerca de 7% em 2007 para valores em torno dos 16% em 2012-2013. Passou muito a barreira que existia de 10% (nas recessões anteriores isso tinha sido o pico do desemprego). O desemprego no período da crise cresceu muito mais que o previsto pela quebra do PIB. De forma similar, o desemprego desceu de 16% para 6% entre 2014 e 2019. O desemprego desceu muito mais que o crescimento que houve faria prever.

Por outro lado, é uma ilusão achar que existe margem orçamental para acomodar o efeito orçamental (dos estabilizadores automáticos) de uma crise. No papel, pode parecer que sim, dado que um saldo orçamental de zero permitiria passar para o limite de défice de 3% fixado nos Tratados Europeus. Uma crise económica custa entre 2 pontos percentuais (p.p.) a 3 p.p. do PIB no défice. Assim, de facto, em teoria, uma crise levaria o défice de zero para um valor próximo dos 3%, não violando as regras Europeias.

Só que na prática essa margem não existe. E não existe porque a dívida pública em torno dos 120% não o permite. Uma recessão em que no 1º ano (ano t) o crescimento real fosse zero e, depois, tivesse 2 anos (t+1 e t+2) com crescimento real negativo de 2% e depois voltasse a recuperar no 4º ano (t+3) para um crescimento real próximo de zero, com défices de 2% a 3% nesses 4 anos, levaria a dívida pública de 120% no ano t para mais de 130% logo em t+2 (assumindo ainda assim um deflator do PIB otimista de 1%). Isso muito dificilmente seria sustentável do ponto de vista do acesso da República ao mercado da dívida pública.

Esperemos que este surto de vírus seja algo passageiro. E que sendo passageiros os seus efeitos sejam limitados e acomodáveis na atual situação económica. As medidas de contenção proativas, no início do surto, são fundamentais. A maioria das curvas epidemiológicas apresentadas pelos especialistas internacionais apontam para uma duplicação de casos cada 6 dias. Ora, estamos perante uma progressão geométrica.

Uma coisa é mapear os contactos e possíveis infeções quando temos 4 ou 5 casos (quem é que essas pessoas infetadas contactaram e rastrear se esses contactos foram também infetados). Mas duplicando a cada 6 dias, torna-se impossível esse mapeamento e rastreio se tivermos 200 ou 300 casos. E a partir dai a situação fica fora de controlo. Como se está a assistir em Itália. Ontem, domingo, o governo Italiano decidiu “fechar” a Lombardia e mais 14 províncias, num total de cerca de 16 milhões de pessoas.

Nesse sentido, apenas posso esperar que haja uma resposta adequada do Estado. Como dizia o The Economist, “em matéria de saúde pública a honestidade vale mais que a esperança”.

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