A luta de trincheiras e os títulos académicos

Se para ser professor universitário convidado não se requer qualquer habilitação superior, já para ser político isso parece ser condição necessária.

Quando a contratação de Pedro Passos Coelho pelo ISCSP se transformou em polémica, houve um aspecto que me animou. Nas redes sociais, li muita gente contestar, quer a contratação em si, quer a atribuição da categoria de catedrático, com base no facto de Passos Coelho não ter doutoramento nem mestrado. O argumento é obviamente descabido, já que a docência convidada tem precisamente como um dos propósitos trazer para a Academia o saber feito de experiência. Ter sido primeiro-ministro é coisa que provavelmente não tem grande valia no curso de Arquitectura; num de Administração Pública não vejo como possa não ser relevante.

Mas não é esse o meu ponto. O meu entusiasmo veio de ver reconhecida a importância da aprendizagem formal. Eu estou mais habituada a um empirismo primário, que desvaloriza totalmente o papel da teoria, dos modelos, da abstracção. Que diz que os estudos académicos são uma treta, feita por gente que sabe muito de Excel, mas nada da vida. Frequentemente, ouço gente que não precisa dos Censos para determinar o que está a acontecer à população das freguesias, porque vai à sua janela e observa; que descarta a necessidade de trabalhos sobre a floresta, porque viram que na sua aldeia arderam os eucaliptos e as macieiras escaparam; que nota que os romanos construíam pontes sem serem engenheiros. São pessoas que acham que a experiência é a única fonte de conhecimento (e até basta a sua própria experiência, que o seu mundo é “extrapolável”).

Por isso, por momentos, fiquei satisfeita. Mas rapidamente percebi que não se tratava de uma adesão ao racionalismo. Na verdade, foi apenas mais um episódio da luta de trincheiras em que a política nacional está transformada. É costume pedir que a sorte do mensageiro não seja ditada pelo conteúdo da mensagem. Em política, vivemos dias em que o teor da mensagem é ajuizado em função de quem a traz. Parece incoerente, mas não; é apenas um outro critério de coerência, que estávamos mais acostumados a ver no futebol.

Se para ser professor universitário convidado não se requer qualquer habilitação superior, já para ser político isso parece ser condição necessária (recordemos, por exemplo, que José Sócrates, a propósito da celeuma da sua licenciatura, disse que nunca pretendera exercer a profissão de engenheiro). Seria positivo se correspondesse a uma exigência dos eleitores de sinalização de certas competências. Em Economia, aprendemos que essa é uma das formas de resolver problemas de selecção adversa no mercado de trabalho. Infelizmente, é apenas o sintoma de uma sociedade (ainda) muito hierarquizada, que, perante um olfacto humano não tão apurado quanto o faro canino, encontra nos títulos honoríficos um critério de distinção entre alfas e ómegas.

E é assim que surgem os currículos efabulados, de títulos académicos que não se têm ou de posições universitárias que nunca se ocuparam, em instituições que nunca se visitaram. Assim, ou por acção de uma qualquer cabala, que há muito disso no nosso país, certamente uma herança sefardita. Até porque já se sabe que, por cá, na história do rei que ia nu, o mau da fita é a criança que constatou o óbvio: não o tivesse ela feito e tudo correria lindamente. E o provérbio que diz que “à mulher de César não basta sê-lo, há também que parecê-lo” é ligeiramente alterado para valorizar somente a parte da aparência. Kant faz-nos muita falta!

Nota: A autora escreve segundo a ortografia anterior ao acordo de 1990.

Disclaimer: As opiniões expressas neste artigo são pessoais e vinculam apenas e somente a sua autora.

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