A morte do campeão nacional

Se o campeão nacional morreu, é preciso erguer um outro: um campeão europeu. Foi essa a vontade de franceses e italianos, que assim a venderam a Macron, mas a proposta caiu em pleno altar.

  1. O mito do campeão nacional consolidou-se na década de 60, por entre a prosperidade e a afirmação política. Cada Estado tinha as suas marcas e tudo fazia para as engrandecer. Carro italiano era sinal de estilo. Carro francês de sofisticação. Um vermelho, outro amarelo. Assim como a Mercedes era prata e os carros ingleses verdes. Mas esse conceito de orgulho nacional, expresso numa marca que se projetava além fronteiras, morreu. O capital tornou-se global e os campeões deixaram de ser exclusivos de um país ou nação, diluídos entre o dinheiro árabe, indiano e chinês. As participações cruzadas cresceram e a identidade perdeu-se. O advento do elétrico e das novas tecnologias aprofundou o panorama: nunca os custos de transformação foram tão elevados, nunca fez tanto sentido partilhar riscos e estratégias.
  2. Marchione, o antigo CEO da Fiat, tinha a convicção profunda de que só uma consolidação salvaria um dos últimos redutos da indústria europeia: o automóvel. Porque há imensos investimentos a serem feitos que um só construtor não consegue suportar; porque só com escala vai ser possível rentabilizá-los; porque só uma aposta abrangente garante viabilidade e evita erros que conduzam à falência. Foi nesse sentido que surgiu a proposta do grupo Fiat Chrysler de se fundir com a Renault: passar a terceiro maior construtor do Mundo, atrás da Toyota e da Volkswagen. Engrandecer em vez de esvaziar, até porque a anterior recusa japonesa de juntar a Renault e a Nissan – que já detêm participações mútuas – aguçou o apetite italiano.
  3. Por detrás deste racional, que mata uma identidade de décadas, estão desafios imensos que estão a mudar o mapa e o horizonte do mundo automóvel. Primeiro, os elétricos, onde os construtores europeus enfrentam uma dura concorrência da China. Pequim ocupou nos últimos anos uma posição estratégica nas maiores minas de lítio do mundo – a matéria-prima fundamental para a produção das baterias – e prepara-se para inundar o mercado com modelos de qualidade e a metade do preço. É a oriente que emerge a transição energética, não no velho continente
  4. A condução autónoma vai igualmente espalhar milhões de carros em busca de clientes. Ter carro vai ser uma coisa do passado, uma tendência ultrapassada pela mobilidade partilhada, pela subscrição e pela ideia de usar um serviço que nos leve de A para B. Transporte em vez de propriedade. Partilha em detrimento de posse. A face da indústria automóvel está a mudar de uma forma inexorável e tão profundamente como quando Henry Ford inventou o modelo T e dizia que todos os clientes podiam escolher a cor do carro, desde que fosse preto.
  5. Se o campeão nacional morreu é preciso erguer um outro: um campeão europeu. Foi essa a vontade de franceses e italianos, que assim a venderam a Macron. Mas a questão arrastou-se. Com 15 por cento de participação estatal, era preciso convencer sindicatos e toda a burocracia francesa de que as sinergias previstas de muitos biliões de euros não arrastavam para o desemprego milhares de trabalhadores. E que as decisões estratégicas não migravam de Paris para Turim. E que a personalidade de uma marca genuinamente francesa não iria diluir-se na ambição Italiana. Demasiados receios para um casamento duradouro e a proposta caiu em pleno altar. Mas o problema subsiste e as ameaças também. Sem escala, vai ser difícil sobreviver aos tempos que estão a chegar.
  • Jornalista. Subdiretor de Informação da TVI

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