A mulher de César não aceita viagens pagas

O problema de toda esta triste questão é um dos maiores da democracia portuguesa: a falta de transparência. Tudo é opaco, tudo decorre sob um manto protector de silêncios que interessa a todos.

Tem sido um fartote de notícias sobre viagens pagas a altos quados políticos e da administração pública, um nervosismo latente em muitos que também usufruíram do mesmo tratamento e ainda mais uma série de fontes que andam a espalhar uma série de nomes que ainda não vieram à tona.

O problema de toda esta triste questão é um dos maiores da democracia portuguesa: a falta de transparência. Tudo é opaco, tudo decorre sob um manto protector de silêncios que interessa a todos e as sombras sobrepõem-se ao caminho da ética e legalidade. Talvez por isso, apesar de algumas tentativas positivas, o lobby ainda não esteja legalizado em Portugal.

E sabem porquê? Porque os maiores “lobistas” são os políticos e não lhes interessa que essa actividade seja autenticada e transparente. Eu defendo há muito o seu reconhecimento profissional, porque evita nebulosas e clarifica quem trabalha nesta área sem tabus nem constrangimentos.

Em 2014, com a credibilidade da sua marca, o Financial Times publicava um ranking de quais as empresas que mais davam dinheiro para campanhas políticas nos Estados Unidos – ali, apesar de muitos tumultos, as coisas são transparentes neste capítulo – e o Google já gastava mais em lobby e em donativos, uma actividade normal em sociedades avançadas e democráticas, que o banco mais influente do mundo: o Goldman-Sachs.

Vamos ser claros, e no que toca às viagens pagas pela Galp, Oracle, NOS e Huawei, não estão em causa campanhas políticas: as empresas têm todo o direito de convidar quem bem entenderem para mostrar as suas mais-valias, os seus novos produtos, a sua capacidade técnica, a sua inovação. Depois, cabe ao bom senso de cada um, e consoante o cargo que ocupam, dizer sim ou não aos convites que recebem.

A imprensa está a fazer o seu trabalho e a dar as notícias que devem ser do conhecimento público. Mas vamos também pensar nela: quantos jornalistas já viajaram a convite das empresas sobre as quais vão escrever (e hoje já há jornais que dão, e bem, essa informação aos leitores), quantos já receberam bilhetes para concertos e jogos de futebol das mesmas, e quantos andam pelas tendas VIP de festivais? Tenho a certeza que nenhum jornalista se deixa influenciar sobre o que escreve com os brindes, vales, convites e viagens que recebe e por isso não deve haver qualquer mancha a descredibilizar o seu trabalho.

Dou mais três exemplos: jornalistas que escrevem sobre literatura e cinema recebem livros e assistem a ante-estreias dos filmes. Tenho a certeza, e isso é bem evidente nas suas peças, que têm a liberdade para criticarem e elogiarem segundo o seu padrão de gosto e conhecimento. E a indústria automóvel que convida quem escreve sobre ela para os salões-automóvel, para as fábricas onde mostram as suas novidades e protótipos? Também convida e paga viagens.

A grande questão que ensombra os casos que têm vindo a público é saber se as empresas lucraram ilegalmente com o seu “investimento” e se os decisores foram influenciados ilicitamente pelas mesmas e ainda ganharam pela porta do cavalo mais alcavalas pela decisão que tomaram, se a tomaram em prol de quem lhes pagou essas oferendas. E aí reside o problema da sociedade portuguesa que já mencionei: a opacidade de procedimentos na tomada de decisões. Nunca se esqueçam da mulher de César, ela nunca poderia aceitar viagens pagas, a ela não basta ser séria, tem de parecer séria. Haja transparência, todos temos a ganhar com isso.

Nota: Por decisão pessoal, o autor não escreve de acordo com o novo acordo ortográfico.

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António Costa

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