A não-política externa norte-americana

  • Filipe Vasconcelos Romão
  • 11 Agosto 2017

Com Donald Trump, a prudência desapareceu e os Estados Unidos passaram a ser geridos (mais do que liderados) ao sabor de impulsos e de frases escritas nas redes sociais sem qualquer fundamentação.

Os Estados Unidos da América são essenciais ao sistema político internacional. Por muito críticos que sejamos dos desequilíbrios gerados pela enorme concentração de poder num só actor, não poderemos deixar de constatar que, existindo uma única superpotência, o sistema só beneficia com um comportamento estável e previsível da sua liderança. Esta estabilidade e previsibilidade terminaram há pouco mais de seis meses com a chegada de Donald Trump ao poder, fruto da sua impreparação para exercer a função presidencial.

A incompetência de Trump é, desde o primeiro instante, visível aos níveis interno e externo. Na primeira dimensão, a forte solidez institucional do sistema político norte-americano encarregou-se de limitar os devaneios presidenciais, como ficou patente com a suspensão judicial de parte das ordens executivas que visavam limitar a entrada de estrangeiros ou com as dificuldades para suspender o Obamacare no Senado. Porém, no caso da política externa, a situação é bem mais complexa, dada a enorme margem de manobra conferida pelos poderes presidenciais nesta área.

Com o fim da Guerra Fria e com o desmantelamento da ordem bipolar, os norte-americanos assumiram um papel que lhes conferiu um protagonismo sem precedentes. Os quatro presidentes que lideraram os Estados Unidos neste período exerceram o poder de forma muito diferente: George Bush conduziu a transição e procurou lançar as bases para uma ordem institucional; Bill Clinton assumiu a função de “polícia do mundo”, actuando várias vezes nos limites da Carta das Nações Unidas e em função dos seus problemas políticos internos; George W. Bush fez letra morta da mesma Carta das Nações Unidas e procurou ser o “cowboy do mundo”, com uma desastrosa tentativa de reordenar o Médio Oriente; e Barack Obama hesitou muito, fruto da sua eleição como “anti-Bush” e da necessidade de controlar os fogos ateados durante a administração precedente.

Apesar de vários fracassos e das graves consequências de muitas decisões tomadas, é possível detectar uma racionalidade mínima e uma perspectiva de continuidade na política externa norte-americana até Janeiro de 2017. No entanto, com Donald Trump, a prudência desapareceu e os Estados Unidos passaram a ser geridos (mais do que liderados) ao sabor de impulsos e de frases escritas nas redes sociais sem qualquer fundamentação e sem um trabalho político ou técnico de suporte. A palavra do presidente dos Estados Unidos da América foi vulgarizada e deixou de ter o peso político e institucional que tinha, desgastada pela agressividade que Trump imprime a mensagens ditadas pela conjuntura de cada instante.

Os últimos dias foram, assim, ilustrativos da alienação de dois activos: a utilização parcimoniosa da palavra e a prudência no exercício do poder. Recorrendo a uma retórica rude e agressiva, Donald Trump ameaçou a Coreia do Norte com um ataque nuclear e, do ponto de vista discursivo, posicionou os Estados Unidos ao nível do Estado totalitário e isolado da península coreana. Washington utilizou a mesma estratégia de Pyongyang e atolou-se num lamaçal retórico. Ora, a contenção do expansionismo de Kim Jong-un só será eficaz com uma firmeza credível e não com um leilão infantil marcado por licitações sobre quem consegue matar mais gente.

Esta etapa de não-política externa também foi, de resto, visível na crise venezuelana. Se Barack Obama pode ser criticado pela hesitação em relação ao Médio Oriente, o mesmo não poderá ser dito no que respeita à América Latina, onde conseguiu o feito histórico de voltar a dialogar com Cuba. Qualquer sucessor responsável teria aproveitado essa via aberta com um dos poucos aliados que resta ao chavismo para tentar ter um papel activo e eficaz numa eventual resolução do caos que se vive na Venezuela. Em vez disso, Trump prefere vociferar frases em sentido sobre uma realidade que desconhece.

Se em meio ano a política externa norte-americana já perdeu o rumo, o que restará depois de quatro anos de mandato?

Nota: Por decisão pessoal, o autor não escreve de acordo com o novo acordo ortográfico

  • Filipe Vasconcelos Romão
  • Presidente da Câmara de Comércio Portugal – Atlântico Sul e professor universitário

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