A negação de Marcelo

Marcelo, o dos mergulhos do Tejo, afinal era uma fraude, e a sua coragem só lhe serviu para se afastar da comunidade que precisava dele.

O mundo e a nossa maneira de interagir com ele vai mudar, é a maior consequência deste drama do COVID-19. E uma das faces dessa mudança será o viajar menos, consciencializem-se disso. Assim, será mais difícil ver, “in loco”, em Nova Iorque, no Metropolitan Museum onde está exposto, a tela de Caravaggio; «A Negação de Pedro». Marcelo Revelo de Sousa, católico assumido, conhece muito bem o episódio dos Evangelhos em que é contado que Jesus Cristo, durante a Última Ceia, revelou a Pedro que este o iria negar conhecê-lo antes que o galo cantasse três vezes no dia seguinte. E assim aconteceu.

O coronavírus mostrou a negação de Marcelo. O inquilino de Belém, mas com morada real no seu bunker de Cascais, negou os portugueses duas vezes. Primeiro, quando se escondeu em casa por auto-decreto de quarentena no clímax da sua evidência de hipocondríaco como aqui escrevi no ECO na semana passada. Aí, o Presidente da República, que durante quase um mandato vendeu abraços e afectos gratuitamente, perdeu autoridade e prestígio. Marcelo, o dos mergulhos do Tejo, afinal era uma fraude, e a sua coragem só lhe serviu para se afastar da comunidade que precisava dele. Logicamente que não defendo que ele andasse por aí, mas tinha de dizer algo e não mergulhar para a cave da sua residência sem uma palavra de alento.

Depois, choveram as críticas e Marcelo que treme por cada vírgula de popularidade perdida sentiu que tinha de fazer algo para reconquistar o País, pois na sua mente está a cada segundo presente a sua reeleição presidencial. Logo, viu que a saída com mais retorno era decretar um estado de emergência pedido nas redes sociais por gente que não sabe o que isto sequer quer dizer, para obter uns “likes” e umas simpatias de ocasião que, contudo, nunca esquecerão a sua bizarra e cobarde actuação nos primeiros quinze dias da crise.

A cara de António Costa no Parlamento não era de cansaço. Era a de quem conhece Marcelo há muitos anos, desde os tempos em trabalhou com Jorge Sampaio na Câmara de Lisboa, e sabia que ele escolheria não a via de interesse nacional, que podia ser seguida por outro patamar menos duro de segurança, mas a do seu interesse próprio e, com isso, ao despoletar a sua bóia de salvação, Marcelo negou pela segunda vez os portugueses. Como ele disse duas vezes também no seu discurso, somos um País de 900 anos de história, da qual ele fará parte num modesto e recôndito rodapé

PS: Os portugueses estão a bater “records” de audiência de televisão, os sites de jornais aumentam o número de utilizadores com maior consumo informativo e o que acontece? Empresas cancelam campanhas de publicidade com a justificação de que como se está em casa não vale a pena investir pois não se compram produtos. Isto é de uma tacanhez e falta de visão inaudita. Recordo a estes decisores que a responsabilidade social é uma forma de se reforçarem as marcas e permanecerem no “top-of-mind” dos consumidores. Era bom que todos ajudassem, sobretudo grandes empresas, instituições que têm capacidade para manter o investimento (exemplo da Santa Casa da Misericórdia), bancos a quem tanto já demos. É tempo de não se desinvestir nos media, pelo contrário, precisamos deles saudáveis para serem nossas muletas para ultrapassar estes dias complicados. E irão ver que não esqueceremos que, tal como na política, saberemos reconhecer quem esteve e quem desertou. E quem ficou vai ganhar com isso.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

O ECO recusou os subsídios do Estado. Contribua e apoie o jornalismo económico independente

O ECO decidiu rejeitar o apoio público do Estado aos media, porque discorda do modelo de subsidiação seguido, mesmo tendo em conta que servirá para pagar antecipadamente publicidade do Estado. Pelo modelo, e não pelo valor em causa, cerca de 19 mil euros. O ECO propôs outros caminhos, nunca aceitou o modelo proposto e rejeitou-o formalmente no dia seguinte à publicação do diploma que formalizou o apoio em Diário da República. Quando um Governo financia um jornal, é a independência jornalística que fica ameaçada.

Admitimos o apoio do Estado aos media em situações excecionais como a que vivemos, mas com modelos de incentivo que transfiram para o mercado, para os leitores e para os investidores comerciais ou de capital a decisão sobre que meios devem ser apoiados. A escolha seria deles, em função das suas preferências.

A nossa decisão é de princípio. Estamos apenas a ser coerentes com o nosso Manifesto Editorial, e com os nossos leitores. Somos jornalistas e continuaremos a fazer o nosso trabalho, de forma independente, a escrutinar o governo, este ou outro qualquer, e os poderes políticos e económicos. A questionar todos os dias, e nestes dias mais do que nunca, a ação governativa e a ação da oposição, as decisões de empresas e de sindicatos, o plano de recuperação da economia ou os atrasos nos pagamentos do lay-off ou das linhas de crédito, porque as perguntas nunca foram tão importantes como são agora. Porque vamos viver uma recessão sem precedentes, com consequências económicas e sociais profundas, porque os períodos de emergência são terreno fértil para abusos de quem tem o poder.

Queremos, por isso, depender apenas de si, caro leitor. E é por isso que o desafio a contribuir. Já sabe que o ECO não aceita subsídios públicos, mas não estamos imunes a uma situação de crise que se reflete na nossa receita. Por isso, o seu contributo é mais relevante neste momento.

De que forma pode contribuir para a sustentabilidade do ECO? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

A negação de Marcelo

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião