A prosperidade bolivariana era metafísica

Ao contrário do que diz a intelligentsia bolivariana cá do burgo, não é a propriedade que é roubo; a propriedade pública, sim, é que parece ser roubo. Seria um bom tema para o acampamento do BE.

A Venezuela está a ferro e fogo, caminhando pateticamente para a falência, e o governo de Nicolas Maduro parece decidido a seguir à letra o ensinamento de Lenine: “Para se destruir a sociedade burguesa, é preciso devastar o seu sistema monetário”. De facto, a devastação cambial seria uma forma interessante de destruir o próprio regime de Maduro, que hoje representa a verdadeira elite venezuelana, não fosse o inconveniente de o processo representar a ruína de dezenas de milhões de venezuelanos anónimos. Sem surpresa, já muitos milhões fugiram do país e da miséria que a política chavista tem produzido.

O desastre venezuelano é um aviso a alguns ‘maduros’ que também temos por cá e que, como ainda há dias ouvíamos a propósito da eventual introdução por lei de limites salariais nas empresas, continuam a dar apoio a ideias malucas e desprovidas de qualquer racionalidade económica. O controlo de preços, de que a redenominação cambial do bolívar ou os limites salariais são exemplos mais ou menos exóticos, nunca funcionou em parte alguma do mundo e também não será agora que funcionará, nem na Venezuela nem em Portugal. O regime cairá, como, de resto, este tipo de regimes sempre caiu. Que os evitemos em Lisboa.

Segundo dados citados pelo Financial Times, o PIB venezuelano encolheu quase metade nos últimos cinco anos. Não há investimento privado, não há iniciativa empresarial, não há produção. O défice público está próximo de 20% do PIB e a inflação, de acordo com o FMI, poderá atingir um milhão de por cento em 2018. Deixem-me repetir, através de algarismos, para que não restem dúvidas: 1.000.000,00 % ao ano.

Ao mesmo tempo, a produção petrolífera da Venezuela está reduzida a 1,4 milhões de barris por dia, representando um decréscimo de 25% só este ano. A produção petrolífera venezuelana, num país que tem das maiores reservas de petróleo do mundo, está hoje ao nível da produção de 1947. De pouco valerá indexar o novo bolívar, pomposamente chamado de bolívar soberano, a uma moeda igualmente controlada pelo Governo de Maduro, o petro, por sua vez suportado nas reservas de petróleo do país, se essas mesmas reservas permanecerem inexploradas.

A forte subsidiação local dos preços dos produtos petrolíferos levou ao contrabando de parte da sua produção para países vizinhos e, pelo caminho, contribuiu também para arruinar a empresa estatal de exploração petrolífera. É nisto que dá a socialização dos meios de produção. Quanto ao novo sistema cambial, como (bem) dizia um cidadão local, entrevistado esta terça-feira numa reportagem televisiva, resume-se a maquilhagem monetária. A encenação tétrica do presidente na televisão, “explicando” à população o novo sistema cambial, é igualmente plástica.

De facto, na farsa, Maduro dá um bigode a todos. Regressando a Portugal, a derrocada venezuelana é um aviso para aqueles que entre nós, ao longo dos últimos anos, tanto foram aplaudindo a política chavista. Muito convenientemente, agora faz-se silêncio. A prosperidade bolivariana, está visto, era só metafísica.

Nos últimos dias, devo confessar, ganhei algum apreço pelo euro. Porque, sem prejuízo do meu eurocepticismo, não posso deixar de reconhecer que o euro representa no nosso país um forte escudo contra os desvarios da má governação política. O euro, representando uma política conservadora, tem contribuído para evitar na política aquilo a que na estatística se designa por erro de tipo II: o erro de se não rejeitar a hipótese quando esta é falsa. Menos mal. De igual modo, reforcei o meu apreço pela independência dos bancos centrais. E, sobretudo, reforcei a minha convicção sobre o quão fundamental é a existência de um sistema de preços, associado à moeda ou a qualquer outro bem, que traduza relações de valor.

Relativamente à moeda, como defende a escola económica do ordoliberalismo alemão, trata-se [de] “atribuir à política monetária uma categoria especial no âmbito da política económica (…) um sentido de política de ordem. Agir de acordo com este princípio não significa – para usar uma designação mais tosca – sacrificar a economia à moeda. Antes o contrário é válido: Uma certa estabilização do valor da moeda torna possível introduzir um instrumento de direcção útil no processo económico” (Walter Eucken, “Princípios da Política Económica”, edição Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 460-464).

Os alemães aprenderam a lição sobre hiperinflação e amadureceram. Infelizmente, não é o caso da América Latina, onde estas crises têm sido recorrentes desde o pós-Guerra. Argentina de Perón, Chile de Allende, Brasil do final dos anos 80 (juntamente com o Perú, a Nicarágua e a Bolívia), a Argentina outra e mais outra vez e, agora, a Venezuela. Épocas de hiperinflação têm sido frequentes na América Latina e têm andado quase sempre associadas ao intervencionismo do Estado.

De facto, ao contrário do que diz a intelligentsia bolivariana cá do burgo, não é a propriedade que é roubo; a propriedade pública, sim, é que parece ser roubo. Seria, de resto, um belíssimo tema de discussão para o próximo (16º) acampamento de liberdade do Bloco de Esquerda, a realizar em 2019. É provável que nessa altura Maduro já esteja disponível para dar cá um salto.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico

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