A sepultura dos Estados democráticos

A Moby Dick no século XXI é a facilidade como os oportunistas e o populismo galgam e penetram na mente das comunidades.

Se virmos com atenção as audiências televisivas, vemos que mais pessoas se escapam dos canais generalistas para ofertas múltiplas no cabo. Porque estamos numa época em que cada um é o programador do seu lazer, logo, as generalidades são trocadas por segmentos, por nichos, por conteúdos à medida das suas necessidades e gostos.

Curiosamente, na política, assistimos ao mesmo fenómeno. O que era o centro moderado e que tentava chegar a todas as franjas vai emagrecendo, os canais generalistas eram uma espécie de «catch-all party» que com as suas grelhas praticamente iguais tentavam agradar ao maior espectro possível de consumidores, tal como os maiores partidos aos seus eleitores. O crescimento dessa multi-oferta de cariz partidário é uma espécie de canal por cabo que vai aumentando do residual para um movimento que se tornar «trend-topic» pode crescer e ganhar relevância rumo a poder.

Em todo o mundo os partidos que eram as reservas morais dos respectivos regimes vão minguando e muitos deles já desapareceram, por exemplo, em Itália, Democracia Cristã e Partido Comunista foram levados por um vírus que dizimou os alicerces do Estado como era conhecido no século XX e onde agora rivalizam grupos originários de uma matriz populista. Escrevia o Ricardo Costa no Expresso que «o afastamento dos eleitores dos partidos é um sinal que devia preocupar muito PS ou PSD». Concordo com ele. Não sendo epifenómeno luso, é deveras assustador como uma série de irresponsáveis que dizem que falam «com a voz do povo e dizem as verdades» vão ocupando o espaço público e a arena mediática sem que haja um freio moderador e racional que articule uma narrativa que combata as agendas baseadas na podridão do sistema e dos poderes instalados.

A comunicação social teria a obrigação de impor a sensatez do seu «gate-keeper» que hoje não existe e está morto. E as redes sociais, pela cupidez da imposição e rapidez dos temas, impuseram-se e infiltraram-se nos produtos jornalísticos e conteúdos noticiosos. Donald Trump é o verdadeiro novo paradigma que revelou o ocaso do mundo em que vivíamos, onde o ruído e a berraria são os totens dos novos profetas. O presidente americano era milionário, mas acima de tudo uma celebridade com facilidade no verbo e no soundbyte. É um “entertainer”, não tem densidade para ser levado a sério. Mas televisão é entretenimento e nela move-se à vontade. A política não ganha nada com ele, mas ganha o espectáculo.

O problema é que o seu modelo migrou para diversas paragens e assim se vai cavando a sepultura dos Estados democráticos. Os grandes partidos são tubarões que nadam num lago que lhes vai dando cada vez menos alimento e ao mesmo tempo há uma série de vorazes arpoadores que pretendem o seu extermínio para impor uma nova ordem e um novo sistema. A Moby Dick que povoa os pensamentos permanentes de Ahab no século XXI é a facilidade como os oportunistas e o populismo galgam e penetram na mente das comunidades narcotizadas pela falência da classe política e da Justiça. E não há antídoto conhecido para esta epidemia feroz de terríveis criaturas.

Uma carta aos nossos leitores

Vivemos tempos indescritíveis, sem paralelo, e isso é, em si mesmo, uma expressão do que se exige hoje aos jornalistas que têm um papel essencial a informar os leitores. Se os médicos são a primeira frente de batalha, os que recebem aqueles que são contaminados por este vírus, os jornalistas, o jornalismo é o outro lado, o que tem de contribuir para que menos pessoas precisem desses médicos. É esse um dos papéis que nos é exigido, sem quarentenas, mas à distância, com o mesmo rigor de sempre.

Aqui, no ECO, estamos a trabalhar 24 horas vezes 24 horas para garantir que os nossos leitores têm acesso a informação credível, rigorosa, tempestiva, útil à decisão. Para garantir que os milhares de novos leitores que, nas duas últimas semanas, visitaram o ECO escolham por cá ficar. Estamos em regime de teletrabalho, claro, mas com muita comunicação, talvez mais do que nunca nestes pouco mais de três anos de história.

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No entanto, o jornalismo não é imune à crise económica em que, na verdade, o setor já estava. A comunicação social já vive há anos afetada por várias crises – pela mudança de hábitos de consumo, pela transformação digital, também por erros próprios que importa não esconder. Agora, somar-se-ão outros fatores de pressão que põem em causa a capacidade do jornalismo de fazer o seu papel. Os leitores parecem ter redescoberto que as notícias existem nos jornais, as redes sociais são outra coisa, têm outra função, não (nos) substituem. Mas os meios vão conseguir estar à altura dessa redescoberta?

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António Costa

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