A tirania do politicamente correcto executou um primeiro-ministro

  • José Tomaz Castello Branco
  • 20 Setembro 2019

Uma democracia-liberal vive permanentemente num equilíbrio precário entre Democracia e Liberdade. Cabe-nos a nós preservar este equilíbrio e compreender que, em Democracia, o tirano podemos ser nós.

Acabámos todos de assistir a um lamentável lamento público de um primeiro-ministro do Canadá por uma banalidade passada há quase vinte anos. Ao que parece, numa festa de fantasia em que o tema eram as “Mil e uma noites”, Trudeau, então com 29 anos, ter-se-á mascarado de Aladino e, pasme-se, maquilhou-se escurecendo o tom da sua pele.

Lamentável, de facto.

É lamentável que hoje já ninguém tenha a liberdade de se mascarar, nem fantasiar, nem brincar com nada porque alguém se pode ofender com o que quer que seja.

E é lamentável que sejamos governados por políticos, como Trudeau, que vivem dominados por estas parvoíces, não se apercebendo sequer do que aqui está em causa e é verdadeiramente importante: a ameaça à liberdade individual e ao nosso modo de vida.

Vamos por partes:

1. O episódio de 2001 não tem qualquer intenção política.

Ao que parece, o contexto é o de uma festa de fantasia em que o tema são as “Mil e uma noites” e Trudeau (então com 29 anos) ter-se-á mascarado de Aladino, vestindo-se e maquilhando-se a preceito. Mas é isto, note-se, que o politicamente correcto considera indesculpável.

2. O episódio passou-se há quase 20 anos.

É bom ter noção do ridículo: mesmo que se tratasse de um crime tenhamos presente que entre nós, por exemplo, o prazo mais longo para a prescrição de um procedimento criminal é de 15 anos! (Cód. Penal, art.º 118º)

3. As nossas sociedades, a nossa cultura política, o nosso modo de vida, assentam em alguns valores que tomamos como fundamentais e que partilhamos. O valor da liberdade individual não será o único mas é, seguramente, um dos que tomamos como mais elementares. E, no cerne da liberdade individual está a liberdade de pensamento e a liberdade de expressão.

E é precisamente por isto que devemos levar este caso a sério: porque é a liberdade que está em causa.

Há cerca de século e meio John Stuart Mill anteviu que viriam aí tempos difíceis para a liberdade individual e, por isso, apressou-se a escrever o “On Liberty” quando percebeu que o principal perigo viria não do Estado, mas da própria sociedade como um todo: “quando o tirano é a própria sociedade (…) os meios através dos quais a tirania é exercida não se limitam aos actos que ela possa levar a cabo pela mão dos seus funcionários públicos.” E esta é a tirania mais perigosa porque “permite menos meios de fuga, penetrando muito mais profundamente na vida quotidiana e escravizando a própria alma.”

Hoje, perante episódios como este, protagonizado por Trudeau, apercebemo-nos de como Mill estava certo. E de como as nossas democracias-liberais estão dominadas por esta tirania do politicamente correcto, que ele à época já denominava como os “modernos reformadores”. E o mais irónico e sintomático é que, neste caso, a vítima é o próprio chefe do Governo. Esta é a mais perigosa das tiranias precisamente porque não é visível, não é exercida pelo aparelho político do Estado.

Uma democracia-liberal vive permanentemente num equilíbrio precário entre a Democracia e a Liberdade. Cabe-nos a nós preservar este equilíbrio e compreender que, em Democracia, o tirano podemos ser nós.

Nota: O autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

  • José Tomaz Castello Branco

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