A transição digital faz-se sobretudo de pessoas (que tanto descuramos)

  • Instituto +Liberdade
  • 31 Julho 2021

É urgente refletir sobre o estado atual das competências digitais da nossa sociedade e propor reformas e medidas estruturais que sejam a verdadeira base de sustentabilidade.

Portugal parte na cauda do pelotão quando é dado o tiro de partida para a década da transição digital. Os sucessos económicos e sociais futuros de cada país dependerão, em boa parte, da velocidade e eficácia na adaptação a um novo contexto digital, que transformará (já começou!) as sociedades de forma profunda. Deixaremos de ter organizações e agentes económicos digitais e outros não digitais. A digitalização será (aliás, já é!) transversal. Apesar do desenvolvimento das infraestruturas digitais em Portugal e a sua cobertura estarem, em grande medida, a acompanhar as tendências europeias, a principal lacuna reside na falta de qualificações e literacia digital da população, começando pelos seus decisores e gestores. As pessoas serão, como sempre, o fator chave de sucesso (ou de fracasso) nesta transição.

Os resultados do relatório do Índice de Digitalidade da Economia e Sociedade (DESI, em inglês) de 2020, que avalia o desempenho digital dos estados-membros da União Europeia e a evolução da sua competitividade digital, são bastante sintomáticos dos investimentos, e da sua carência, que têm sido realizados nos últimos anos em Portugal.

Fonte: DESI 2020, Análise do grupo de trabalho +Liberdade para a Transformação Digital | *Inclui R. Unido | Produzido a 26/07/2021

 

Portugal é um bom aluno em algumas matérias, ocupando o 2º lugar entre os 27 países da União Europeia com mais habitações com subscrição de banda larga rápida (mais de 100 mbps), deixando também boas indicações noutros parâmetros relativos à qualidade das infraestruturas tecnológicas. É também reconhecido o esforço e o investimento que os vários operadores de comunicações têm feito no desenvolvimento das comunicações móveis e na instalação de cobertura nacional em redes de fibra ótica. Nem todas as carências estão ultrapassadas e resolvidas (de destacar os atrasos recentes para o licenciamento do espectro do 5G), mas os alicerces fundamentais estão bem encaminhados.

Nota: União Europeia a 28 países (inclui Reino Unido)
Fontes: DESI 2020, Análise do grupo de trabalho +Liberdade para a Transformação Digital | Produzido a 4 de junho de 2021

 

Temos, assim, as infraestruturas de suporte à economia digital, mas não temos pessoas suficientemente capacitadas para as usar e potenciá-las em prol do desenvolvimento económico e social. Segundo o Eurostat, Portugal é o terceiro país da União Europeia onde mais pessoas nunca usaram Internet, cerca de um quinto da população. Para além deste indicador, posicionamo-nos no penúltimo lugar ao nível das competências digitais avançadas e de desenvolvimento, que são essenciais para impulsionar a transição digital. Portugal tem apenas 2,4% de especialistas em tecnologias de informação e comunicação (TIC) do total de trabalhadores, abaixo de 3,9% de média na União Europeia, e tem apenas 1,9% de licenciados nestas áreas de conhecimento, face a 3,6% na UE.

Fonte: Eurostat (2020) Análise do grupo de trabalho +Liberdade para a Transformação Digital

 

Apesar de estarmos perante uma geração de nativos digitais – a geração Z, que vai entrando aos poucos em idade ativa – estes jovens carecem – em quantidade suficiente para as necessidades do mercado – de conhecimentos mais avançados de base tecnológica, pois a imersão no meio tecnológico digital, apenas na perspetiva de utilizadores, não é suficiente para os considerar aptos e com competências para poderem liderar esta onda de transformação.

Adicionalmente, Portugal está também entre os últimos lugares (22.º em 28 países europeus, segundo o Digital Transformation Scorecard 2018 da União Europeia) em termos de competências de liderança digital, que avalia a forma como as empresas fomentam a aquisição e desenvolvimento de conhecimentos nestas áreas pelos seus colaboradores, bem como a disponibilização de equipamentos que potenciem uma maior inclusão digital e modernização das empresas, demonstrando que as carências vão desde a base até ao topo da pirâmide de decisão.

Nota: União Europeia a 28 países (inclui Reino Unido) | * não disponível| Fontes: DESI 2020 (que será contemplado no relatório de 2021), Digital transformation scoreboard 2018, Análise do grupo de trabalho +Liberdade para a Transição Digital Produzido a 20 de junho de 2021

 

Estes indicadores revelam que, apesar de Portugal demonstrar relativa solidez ao nível das infraestruturas, as qualificações não vêm sendo endereçadas de uma forma estruturada, o que nos coloca numa posição bastante frágil para encarar esta década digital 2030 que agora se inicia. A competitividade de um país e do setor empresarial, em particular, centra-se sobretudo na capacidade em garantir uma transformação digital rápida e eficaz. Esta transição implica assegurar o progresso em três vertentes: Pessoas, Processos e Tecnologias.

As políticas, cujos resultados estão espelhados no relatório da Comissão Europeia (DESI), denotam que o foco dos investimentos tem sido maioritariamente numa das vertentes: a Tecnologia. Esta opção, em detrimento das Pessoas e dos Processos, resulta na escassez de talento capaz para liderar a transformação de processos, que será o suporte para uma transição para a economia digital. A transição digital traz consigo a oportunidade de repensar processos de negócio e de criação de valor, o que obviamente é muito mais pertinente do que apenas a implementação de novas tecnologias, e só assim se garante a competitividade e sustentabilidade das organizações e da nossa economia.

Assim, é fundamental realizar esta transformação digital e tornar competitivo um país através do seu principal pilar, as pessoas, tornando-as parte do processo e assumindo-as como fator-chave de mudança. Caso contrário, as pessoas não serão parte da solução mas sim parte do problema.

Apostar nas pessoas significa apostar na Educação, desde a sua base. Apostar em criar, potenciar e requalificar:

  • CRIAR competências no Ensino Básico de integração tecnológica, através de novas metodologias de ensino, potenciando as tecnologias como componente interativa e pedagógica para lecionar as aulas, e garantindo-se a necessária adequação da estrutura escolar, bem como a transformação dos seus processos e qualificação dos professores. O processo deverá ser natural para as crianças, onde estas serão mais estimuladas e a aposta na introdução da criatividade tecnológica será crescente.
  • POTENCIAR a estruturação digital e conceitos operacionais no Ensino Secundário e Superior, promovendo uma adaptação dos currículos, em particular dos cursos não tecnológicos, de forma a contemplarem componentes de interação tecnológica e de competências digitais, no sentido de dotar os futuros profissionais de níveis superiores de interação e destreza tecnológica. Em termos práticos, garantir que qualquer novo profissional tenha a consciência e a literacia digital suficientes para criar valor acrescentado numa organização, minimizando ciclos de aprendizagem tecnológica dentro de empresas. Este esforço deverá complementar uma maior aposta na formação superior especializada nestas áreas para garantir que o país consegue formar o número de profissionais suficientes para dar resposta aos desafios da era digital e às necessidades futuras do mercado de trabalho.
  • Por fim, REQUALIFICAR os profissionais do mercado, e não só os operacionais, mas sobretudo os decisores. Tem havido algum investimento em programas de requalificação para colaboradores de empresas, mas fundamentalmente numa ótica de utilizador, o que é essencial, mas insuficiente. Cabe às empresas também o papel de serem os motores transformacionais da sociedade através da requalificação dos seus profissionais. Uma requalificação que não se faz numa etapa, é contínua, pois os novos modelos de negócio digitais e as novas tecnologias disruptivas trazem consigo novas metodologias que importa embeber no tecido empresarial português.

Transformar digitalmente um país ou uma empresa implica que as Pessoas tenham de estar preparadas e munidas de ferramentas e, desta forma, serem os grandes impulsionadores desta transformação, permitindo repensar os processos e utilizar as mais-valias da tecnologia para concretizar estas ideias. É por isso, urgente refletir sobre o estado atual das competências digitais da nossa sociedade e propor reformas e medidas estruturais que sejam a verdadeira base de sustentabilidade, que acompanhem o trabalho que vem sendo realizado ao nível das infraestruturas tecnológicas. Um desafio que envolve todos: governo, entidades públicas, entidades privadas, profissionais e famílias.

Autores:
André Pinção Lucas
Duarte Filipe
José Themudo
Rui Ribeiro

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