Acordo sobre o desacordo em forma de ultimato

Sendo Theresa May um híbrido político entre o vampiro e o zombie, a aprovação do Acordo de Saída poderá depender da sua demissão. Aliás, Bruxelas percebe que ela está politicamente em ventilação.

A humilhação esperada chega inesperada e em grande estilo. A Grã-Bretanha apresenta-se em Bruxelas sem um plano, intenção ou simulacro de ideia. Encostada ao fundo de uma parede sem fundo, Theresa May é uma figura trágica desprovida de sentido trágico. Fechada numa política baseada no pensamento mágico, superficial, seca e sem imaginação política, a primeira-ministra não é capaz de articular uma posição política para além do vácuo das platitudes esgotadas. Impressionante como a Grã-Bretanha se abandona às mãos de uma geração de governantes sem a mínima qualificação política para as exigências históricas do momento.

Em pleno Conselho Europeu, e face à completa ausência de estratégia política, a União Europeia resolve assumir a responsabilidade e definir um road map a ser seguido pela Grã-Bretanha. É como se um professor corrigisse um aluno contaminado pelo desenvolvimento maligno de uma memória privada em forma de Brexit. A nação que quer resgatar o controlo político dos seus destinos das mãos da burocracia de Bruxelas, primeiro deixa o Governo perder o controlo do processo, depois deixa o Parlamento perder-se numa confusão de votos e emendas, e acaba por entregar o leme político da situação à entidade fonte de todos os problemas políticos, ou seja Bruxelas. É o fechar de um círculo em que brilha a inépcia política e um diletantismo baseado na presunção adolescente e no histórico de uma reputação política de excelência.

Em todo este percurso esteve ausente o factor C – o factor Churchill. Em vez de um exemplo de visão, perspectiva e liderança, o Brexit acaba por ser conduzido e delineado politicamente como uma forma de apaziguar as divergências no interior do Partido Conservador. Neste contexto predominou um outro factor C – o factor Chamberlain. Agradar a todos, adiar sempre, ignorar as consequências futuras, sobretudo nunca em circunstância alguma tomar uma decisão e manter a responsabilidade. Eis o resultado em forma de ultimato: aprovar o Acordo de Saída e sair a 22 de Maio; não aprovar o Acordo de Saída, pensar uma alternativa política rapidamente ou sair a 12 de Abril. Simples, rápido, claro, eficaz. Bon voyage.

Sendo Theresa May um híbrido político entre o vampiro e o zombie, a aprovação do Acordo de Saída poderá estar dependente da sua demissão. Aliás, Bruxelas percebe bem que a primeira-ministra está politicamente em ventilação assistida. Macron acredita que a probabilidade de o Acordo ser aprovado na Câmara dos Comuns rondará os 5%. Seja qual for o resultado da próxima votação do Acordo, a Grã-Bretanha sai dividida, diminuída e menorizada do processo Brexit.

Revogar o Artigo 50, convocar novo Referendo, marcar Eleições Gerais, todas as opções estão ainda em aberto, mas todas as opções cobram juros políticos no curto e no médio prazo. E em todos os cenários a posição internacional da Grã-Bretanha sai profundamente afectada, a nação que quer sair da União Europeia para reassumir o seu lugar histórico no Mundo Global. Desde o apex dos anos 70, a Grã-Bretanha é hoje e de novo um país no limiar de uma governação no limite do governável. O Brexit não consegue encontrar uma forma política concreta de deixar de ser uma abstracção e transforma-se numa visão nostálgica de uma Idade de Ouro, corroendo o espírito da nação e a respectiva unidade política.

A União Europeia utiliza a lógica política da guilhotina para evitar o crash súbito da saída sem Acordo. Concedendo um breve espaço de respiração, o ónus da responsabilidade sobre o abismo passa para o lado britânico. Deste modo, a União tenta salvaguardar as interferências políticas do Brexit nas Eleições Europeias e na celebração do VE em pleno Maio. Mas um ponto decisivo fica bem evidente neste Conselho Europeu – a supremacia da França face ao enfraquecimento da Alemanha.

A principal voz contra a extensão do Artigo 50 é exactamente o registo curto e cortante de Macron, em flagrante contraste com uma posição mais compreensiva e permissiva de Merkel. O Presidente que não consegue impor as suas ideias para a França, o Presidente que enfrenta a insurreição dos gilets jaunes, o Presidente que é o centro de toda a agitação política no seu país, assume em Bruxelas a posição do grande líder europeu em pleno controlo dos destinos da União. A debilidade política interna transforma-se numa projecção de De Gaulle nos ares de Bruxelas, fazendo lembrar os dois vetos do velho estadista à entrada da Grã-Bretanha na então CEE. Há um reflexo de hubris na personalidade política de Macron que é um perigo para a Europa.

Em Londres, o Parlamento terá de contornar um procedimento estabelecido em 1604 para poder efectuar a necessária terceira votação do Acordo de Saída. A Grã-Bretanha já não consegue comportar-se como o cavaleiro dos Monty Python que, depois de lhe terem cortado os braços e as pernas, insistia na tese dos cortes superficiais e que o embate devia acabar num empate. A derrota está por todo o lado e em toda a linha. Talvez a invocação do espírito de Dunkirk sirva para atenuar a sensação metálica do desaire. Entretanto, uma petição no site do Parlamento apelando para a revogação do Artigo 50 atinge os três milhões de subscritores. E as ruas de Londres esperam por um mar de gente numa manifestação apelando ao Stop the Brexit. Será possível matar o tempo sem ferir a eternidade?

Nota: O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico

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