Agente guardião, pop-star espião

Julian Assange é o figurino completo de um ativista politicamente posicionado, portador de uma mensagem moralista cuja visão do mundo encerra a ideia de uma grande conspiração do ocidente capitalista.

É uma figura patética aquela que é arrastada pelas escadas da Embaixada do Equador em Londres. Um híbrido entre o eremita e o santo, Julian Assange tem no grito abafado o slogan cansado “UK must resist” e na mão aquilo que parece ser o livro de Gore Vidal intitulado “History of the National Security State”. Depois de 2487 dias de exílio político, o ativista platinado é detido por suspeitas de violação, conspiração e hacking. O romance político com Lenín Moreno terminou de forma abrupta e pouco diplomática.

Bem de acordo com a natureza egocêntrica da personalidade fundadora do Wikileaks, as milícias morais mobilizam a opinião pública para aquilo que consideram ser uma questão de ataque à liberdade de expressão, à imprensa livre e ao jornalismo de investigação. A matéria não parece ser assim tão óbvia e cristalina. Julian Assange é o figurino completo de um ativista politicamente posicionado, portador de uma mensagem moralista cuja visão do mundo encerra a ideia de uma grande conspiração do ocidente capitalista. A sua ação é impulsionada pelo ódio às democracias liberais sempre observadas como estruturas de dominação e exploração ao serviço de interesses inconfessáveis. Ao caracterizar o inimigo político como uma expressão do erro e do mal, a missão de Assange transforma-se numa cruzada moral contra tudo o que representa a injustiça social e a devastação económica que o sistema de dominação ocidental espalha pelo mundo. A fome, a guerra, a corrupção, a exploração, tudo são sintomas de um inimigo absoluto que deve ser combatido e derrotado definitivamente.

A visão conspirativa do mundo coloca Assange na categoria dos profetas da justiça social, na classe dos fundadores de uma nova ordem mundial, um propósito político que justifica todos os meios possíveis e imaginários. A informação que o Wikileaks disponibiliza é obtida por meios pouco transparentes a roçar a diligência ilegal, mas sempre justificada pelo interesse público supremo, soberano e sublime. Nesta lógica política absoluta existe uma obsessão totalitária sem limite.

O projeto de Assange não é uma Utopia Democrática, mas uma Utopia Totalitária. Quando denuncia os abusos da Europa e da América, e apenas os abusos da Europa e da América, Assange ignora e silencia os abusos da Rússia e da China. Ou talvez o ativista platinado pretenda convencer a opinião pública de que os regimes da Rússia e da China são emanações da virtude e não representam qualquer fonte de dominação e de corrupção.

Sem recorrer ao jogo das equivalências morais, a credibilidade do projeto político Wikileaks só sairia reforçada com a divulgação dos Ficheiros de Moscovo e dos Despachos de Pequim. Enquanto se utilizar a liberdade ocidental para combater a liberdade ocidental, Assange é o símbolo de uma visão cínica e apressada da História onde a importância dos Direitos Humanos e da Justiça Social foram capturados por uma apropriação moral e sectária do bem e da virtude e que se alimenta do ressentimento, do ódio e da agressão.

A compilação e a difusão da informação via Wikileaks mostram ainda uma apurada sensibilidade económica. O cerne está na distinção entre cash-flow e capital. Se apenas existir cash-flow, entrada e saída de informação, a interrupção do fluxo de informação representa a completa erosão do poder do projecto.

No entanto, se uma parcela do input de informação for mantida em regime de acumulação, este gera um capital que possibilita duas opções: primeiro, a formação de uma reserva estratégica que acautela incertezas futuras; segundo, a projeção da informação com o propósito de exponenciar o poder, garantido a segurança ao mesmo tempo que aumenta o controlo e a influência sobre a opinião pública. Esta foi exatamente a estratégia económica de poder adoptada pelo Wikileaks, apresentando como garantia colateral ou seguro de risco a divulgação de um pacote contendo milhões de ficheiros inéditos em caso de ameaça à vida, à liberdade e à impunidade de Assange. O seguro está neste momento em fase de execução. A linha vermelha entre a gestão da informação como poder e a chantagem política pura é objetivamente invisível.

Assange confunde-se com uma personagem do romance de Zamyatin que dá pelo título de “We”. Assange, é o “Benfeitor” que impõe o controlo total sobre cada um dos aspetos da existência física e mental. A vigilância e a punição estão nas mãos de uma polícia política que se designa por “Guardiões”.

Neste pastiche satírico, os súbditos do Benfeitor moram em casas de vidro, expostos a inspeção e a gravação permanentes. Há senhas de racionamento que lhes dão direito a correr as cortinas e a desfrutar da “hora de sexo”. Neste universo, há recurso à tortura com ar comprimido dentro de uma campânula de vidro e tratamentos de raios X para se curar um tumor chamado “imaginação”.

Assange é o inimigo da imaginação autónoma, aquele que em nome da Verdade entende a memória privada como um desenvolvimento maligno. A elevação da Verdade acima das pequenas verdades humanas está na base de todos os projectos políticos totalitários. Assange é um anjo caído.

Nota: Por opção próprio, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico

Uma carta aos nossos leitores

Vivemos tempos indescritíveis, sem paralelo, e isso é, em si mesmo, uma expressão do que se exige hoje aos jornalistas que têm um papel essencial a informar os leitores. Se os médicos são a primeira frente de batalha, os que recebem aqueles que são contaminados por este vírus, os jornalistas, o jornalismo é o outro lado, o que tem de contribuir para que menos pessoas precisem desses médicos. É esse um dos papéis que nos é exigido, sem quarentenas, mas à distância, com o mesmo rigor de sempre.

Aqui, no ECO, estamos a trabalhar 24 horas vezes 24 horas para garantir que os nossos leitores têm acesso a informação credível, rigorosa, tempestiva, útil à decisão. Para garantir que os milhares de novos leitores que, nas duas últimas semanas, visitaram o ECO escolham por cá ficar. Estamos em regime de teletrabalho, claro, mas com muita comunicação, talvez mais do que nunca nestes pouco mais de três anos de história.

  • Acompanhamos a cobertura da atualidade, porque tudo é economia.
  • Escrevemos Reportagens e Especiais sobre os planos económicos e as consequências desta crise para empresas e trabalhadores.
  • Abrimos um consultório de perguntas e respostas sobre as mudanças na lei, em parceria com escritórios de advogados. Contamos histórias sobre as empresas que estão a mudar de negócio para ajudar o país
  • Escrutinamos o que o Governo está a fazer, exigimos respostas, saímos da cadeira (onde quer que ele esteja) ou usamos os ecrãs das plataformas que nos permitem questionar à distância.

O que queremos fazer? O que dissemos que faríamos no nosso manifesto editorial

  • O ECO é um jornal económico online para os empresários e gestores, para investidores, para os trabalhadores que defendem as empresas como centros de criação de riqueza, para os estudantes que estão a chegar ao mercado de trabalho, para os novos líderes.

No momento em que uma pandemia se transforma numa crise económica sem precedentes, provavelmente desde a segunda guerra mundial, a função do ECO e dos seus jornalistas é ainda mais crítica. E num mundo de redes sociais e de cadeias de mensagens falsas – não são fake news, porque não são news --, a responsabilidade dos jornalistas é imensa. Não a recusaremos.

No entanto, o jornalismo não é imune à crise económica em que, na verdade, o setor já estava. A comunicação social já vive há anos afetada por várias crises – pela mudança de hábitos de consumo, pela transformação digital, também por erros próprios que importa não esconder. Agora, somar-se-ão outros fatores de pressão que põem em causa a capacidade do jornalismo de fazer o seu papel. Os leitores parecem ter redescoberto que as notícias existem nos jornais, as redes sociais são outra coisa, têm outra função, não (nos) substituem. Mas os meios vão conseguir estar à altura dessa redescoberta?

É por isso que precisamos de si, caro leitor. Que nos visite. Que partilhe as nossas notícias, que comente, que sugira, que critique quando for caso disso. O ECO tem (ainda) um modelo de acesso livre, não gratuito porque o jornalismo custa dinheiro, investimento, e alguém o paga. No nosso caso, são desde logo os acionistas que, desde o primeiro dia, acreditaram no projeto que lhes foi apresentado. E acreditaram e acreditam na função do jornalismo independente. E os parceiros anunciantes que também acreditam no ECO, na sua credibilidade. As equipas do ECO, a editorial, a comercial, os novos negócios, a de desenvolvimento digital e multimédia estão a fazer a sua parte. Mas vamos precisar também de si, caro leitor, para garantir que o ECO é económica e financeiramente sustentável e independente, condições para continuar a fazer jornalismo de qualidade.

Em breve, passaremos ao modelo ‘freemium’, isto é, com notícias de acesso livre e outras exclusivas para assinantes. Comprometemo-nos a partilhar, logo que possível, os termos e as condições desta evolução, da carta de compromisso que lhe vamos apresentar. Esta é uma carta de apresentação, o convite para ser assinante do ECO vai seguir nas próximas semanas. Precisamos de si.

António Costa

Publisher do ECO

Comentários ({{ total }})

Agente guardião, pop-star espião

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião