Ainda bem que o ministério público investiga o hidrogénio

Ainda bem que a controvérsia surgiu agora e não numa fase mais adiantada da estratégia do hidrogénio. O pior que poderia acontecer era adiar a controvérsia para daqui a 10 anos.

Ainda bem que houve uma denúncia anónima, que o ministério público investiga, que os media valorizam, que os governantes se explicam.

Ainda bem que houve uma denúncia anónima sobre o projeto do hidrogénio. Significa que alguém sentiu razões para se queixar e queixou-se em vez de ficar calado. Significa também que utilizou um mecanismo de reclamação que está disponível para todos os cidadãos e organizações, que exige a uma investigação e uma deliberação. Isto também é muito bom.

Ainda bem que o reclamante não é obrigado a identificar-se, porque o legislador decidiu que o mecanismo de reclamação não deve expor a fonte, dado que se pretende estimular a participação de factos e desinibir receios pessoais sobre eventuais represálias. Isso também é excelente.

Ainda bem que Portugal está disposto a pagar o preço de investigar denúncias que se provem infundadas. Pode ser um custo elevado. Mas certamente todos compreendem que se trata de pagar o preço da democracia. Uma democracia de qualidade é, forçosamente, cara.

Ainda bem que a revista Sábado divulgou a informação sobre a investigação em curso. Pôs a boca no trombone numa matéria de evidente interesse público. Ainda bem que os media em geral tiveram a mesma opinião que a revista Sábado e trabalharam no sentido de aprofundar a informação. Significa que a missão que a democracia atribui à comunicação social está a ser cumprida. Significa que o tema é provadamente do interesse público.

Ainda bem que os governantes valorizaram positivamente a opinião dos media. Vieram ao terreno, posicionaram-se e, sobretudo, acrescentaram numerosas informações. Nomeadamente, a divulgação das reuniões e a identificação das entidades incluídas e não incluídas no projeto, é uma iniciativa de extraordinário valor. Ao fazê-lo, os governantes adicionaram transparência.

Ainda bem que a controvérsia surgiu agora e não numa fase mais adiantada da estratégia do hidrogénio. O pior que poderia acontecer era adiar a controvérsia para daqui a 10 anos e transformar a política, a estratégia e o debate sobre o futuro de Portugal e sobre a neutralidade carbónica, num caso judicial que retrospetivamente faria justiça, à luz das circunstâncias desse tempo posterior e não à luz das circunstâncias originais.

Ainda bem que a estratégia do hidrogénio é merecedora da maior atenção pública. Significa que todos já compreenderam que o hidrogénio verde é um elemento chave do nosso futuro, de desenvolvimento económico baseado no respeito e valorização da natureza e orientado para o bem-estar social.

Ainda bem que a controvérsia está isenta de rancor. Todas as partes interessadas em qualquer tema devem aceitar o confronto com as suas decisões, por mais injustas ou suspeitosas que possam ser as questões.

Ainda bem que o tema da reclamação anónima, o tema da transparência e o tema da neutralidade carbónica surgiram no debate público, ligados entre si. Porque estes são três temas chave da agenda da sustentabilidade.

Nota do autor

O autor exerce a sua atividade profissional na EDP na direção corporativa de sustentabilidade. Importa evidenciar esta circunstância para que o leitor esteja permanentemente ciente dela quando interpreta a opinião manifestada. No entanto, os artigos do autor não podem ser interpretados como representativos da opinião da EDP e, muito menos, como sendo a opinião da EDP.

Na elaboração dos seus artigos, o autor:

1 – Visa contribuir para o debate e a reflexão sobre os temas da Sustentabilidade, nas suas três dimensões (governação, ambiental e social), dando prioridade à perspetiva global e à abordagem estratégica.

2 – Inibe-se de manifestar opinião sobre temas energéticos e organizacionais que sejam específicos da EDP, isto é, que não sejam notoriamente comuns às empresas do setor energético. Incluindo qualquer matéria reservada a que, pela natureza das suas funções profissionais, tenha acesso.”

  • Gestor. Diretor-adjunto de Sustentabilidade na EDP

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