Alcochete e a lota de Matosinhos

O essencial da crise no Sporting é que não é uma crise do Sporting (que me desculpem agora os sportinguistas, por lhes tirar também isto). Nem sequer é uma crise do futebol.

No meu artigo da semana passada, a propósito da questão da habitação, defendi que é necessário desconcentrar a Administração Pública central. A título de exemplo, referi que talvez o Instituto Português do Desporto e Juventude pudesse mudar-se para Braga. Quero aqui, desde já, pedir desculpa aos bracarenses por ter sugerido enviar-lhes uma entidade aparentemente ineficaz. Assim de repente, é isso que se pode concluir da intenção do Primeiro-Ministro em criar uma autoridade nacional contra a violência no desporto.

Claro que, pensando um pouco melhor, lembramo-nos que em Portugal esta é a forma típica de “resolver” problemas: arranja-se um novo organismo (naturalmente, em Lisboa) para dividir responsabilidades. Como diz o Nuno Garoupa, “o princípio estruturante do reformismo português [é] mexer no acessório para que o essencial possa prosseguir sem grande sobressalto”.

Ora, o essencial da crise no Sporting é que não é uma crise do Sporting (que me desculpem agora os sportinguistas, por lhes tirar também isto). Nem sequer é uma crise do futebol. Desenganem-se aqueles que acham que o desporto é um mundo à parte. O que nele acontece simplesmente espelha a sociedade que temos (tal como as redes sociais). Eventualmente, com maior veemência; certamente, com mais tempo de antena. Na substância, os acontecimentos desta semana em Alcochete não diferem dos da lota de Matosinhos em 2004.

Uns e outros são fruto de um país que, volvidos mais de 40 anos, ainda não aprendeu a ser democrático na acepção mais genuína da palavra. Ou seja, lida mal com o pluralismo, confunde crítica com ataque pessoal e é incapaz de ter um debate centrado nas ideias e no esgrimir de argumentos. Infelizmente, as claques e a sua violência não estão confinadas aos complexos desportivos.

Segundo Maquiavel, “aquele que abandone o que se faz por aquilo que se deveria fazer aprenderá antes o caminho de sua ruína do que o de sua preservação”. Um pouco nesta senda, Bruno de Carvalho disse que tínhamos de nos habituar a que o crime faz parte do dia-a-dia. Não, não temos. Não podemos, aliás. Mas agradeço a afirmação, que explana tão bem aquele que é o pensamento de muita gente, o de que a nossa atitude perante as injustiças do mundo deve ser a de aprender a viver com elas. Há até um ditado popular que nos recomenda que nos juntemos a quem não conseguimos vencer. E isso é capaz de explicar umas quantas coisas. Que tenhamos aguentado uma ditadura durante meio século, por exemplo.

Agora que muitos renegam o Presidente do Sporting (fazendo lembrar outros repúdios), talvez possamos enjeitar igualmente o seu apelo ao conformismo e não nos ficarmos apenas pela recusa de tareias a jogadores. Não nos habituemos à corrupção, à inimputabilidade, à pobreza, à discriminação, aos ataques à liberdade de expressão e, de um modo geral, a tudo quanto acharmos que não deveria suceder. Deixemos de ser maquiavélicos.

Nota: A autora escreve segundo a ortografia anterior ao acordo de 1990.

Disclaimer: As opiniões expressas neste artigo são pessoais e vinculam apenas e somente a sua autora.

Quanto vale uma notícia? Contribua para o jornalismo económico independente

Quanto vale uma notícia para si? E várias? O ECO foi citado em meios internacionais como o New York Times e a Reuters por causa da notícia da suspensão de António Mexia e João Manso Neto na EDP, mas também foi o ECO a revelar a demissão de Mário Centeno e o acordo entre o Governo e os privados na TAP. E foi no ECO que leu, em primeira mão, a proposta de plano de recuperação económica de António Costa Silva.

O jornalismo faz-se, em primeiro lugar, de notícias. Isso exige investimento de capital dos acionistas, investimento comercial dos anunciantes, mas também de si, caro leitor. A sua contribuição individual é relevante.

De que forma pode contribuir para a sustentabilidade do ECO? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

Alcochete e a lota de Matosinhos

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião