Amor e um Cavani

Se há algo que Portugal precisa é de atrair pessoas que ganhem bem e tenham acumulado riqueza, mesmo que isso faça aumentar a desigualdade estatística.

O governo ama o SNS. O PS ama o SNS. É verdade que temos pessoas a morrer à espera de uma cirurgia. É verdade que a pandemia colocou ainda mais pessoas à espera e que, por preconceito ideológico, parece haver pouco interesse em utilizar a capacidade instalada no sector privado para colmatar essas falhas. É verdade que quando a Ordem dos Enfermeiros se queixou das condições em que os enfermeiros trabalhavam, o Governo iniciou uma perseguição que culminou numa sindicância. É verdade que quando a Ordem dos Médicos decidiu investigar o que se tinha passado em Reguengos de Monsaraz, o Governo iniciou uma guerra contra os médicos, tendo o primeiro-ministro como ponta de lança. O Governo ama o SNS e tudo o que está relacionado com o SNS, excepto essa pequena parte do SNS que são os utentes, os médicos e os enfermeiros.

Há poucas indústrias que os portugueses acompanhem tão bem como o futebol. Também há poucas dos quais os portugueses se orgulhem tanto. E com bons motivos para isso. O futebol deve ser das poucas indústrias em que Portugal compete taco a taco com os países da Europa Central.

Também é uma indústria em que, ao contrário do que acontece com o resto da economia, os países do Leste ainda estão muito longe de nos apanhar. Isto só é possível porque o futebol é, por natureza, uma indústria competitiva o que faz com que muitos dos factores que atrasam o resto da economia não se possam aplicar ao futebol (ainda que outros, infelizmente, nem a natureza do futebol os consiga afastar).

Ao contrário das outras indústrias, no futebol jogado não há espaço para trocar lugares por favores. Um partido até pode ajudar muito um clube, mas esse clube nunca colocará o sobrinho gordo do primeiro-ministro a defesa-esquerdo. No campo estão sempre aqueles que o treinador considera serem os melhores entre os jogadores que o clube consegue pagar. Mesmo quando essa competição é manchada por favorecimentos de arbitragem (algo que, para todos os efeitos legais, não estou a insinuar que exista ou alguma vez tenha existido em Portugal), nenhum clube se pode dar ao luxo de não colocar bons jogadores em campo.

Um qualquer miúdo de um bairro degradado que saiba efectivamente jogar futebol terá sempre mais hipóteses de entrar no 11 inicial do que o líder do núcleo de Arcozelo do PS. Por isso, o futebol é também uma indústria onde a meritocracia é mais visível. Qualquer menino, nascido em qualquer meio social, de qualquer raça pode aspirar a tornar-se um milionário no futebol, mesmo que não o possa aspirar em mais lado nenhum (e as meninas também não podem, ainda, ter essa aspiração no futebol).

Infelizmente, apesar de gostarem e acompanharem muito futebol, os portugueses raramente retiram lições do futebol para o resto da economia. A importância de um ambiente competitivo para o crescimento, mobilidade social e eliminação de preconceitos é uma dessas lições. Mas há mais lições que se podem tirar e a recente novela com a contratação do Cavani é uma excelente oportunidade para aprender alguma coisa.

A primeira lição tem a ver com fiscalidade. O Cavani, assim como o Casillas e o Schmeichel antes dele, iria trazer um grande valor acrescentado tanto ao clube que o contrata como ao futebol português. É complicado estimar quanto, porque muito dependeria do seu desempenho, mas é certo que a sua vinda traria mais atenção ao campeonato português e a todos os que cá jogam. Muitos iriam ficar a ganhar. Desde o defesa esquerdo do Gil Vicente que graças à atenção acrescida ao futebol português poderia ter a sorte de ter um olheiro a ver um jogo que lhe desse um contrato milionário na segunda liga chinesa, até à empresa têxtil que produz as t-shirts da loja do Benfica.

Ao que consta, clube e jogador já tinham acordado o salário líquido, mas o negócio caiu porque toda a carga fiscal necessária para pagar aquele salário líquido era incomportável para o clube. No final, perdeu o clube e os seus adeptos, perdeu o defesa esquerdo do Gil Vicente, perdeu a empresa têxtil, perderam todos, excepto o próprio Cavani que facilmente encontrará outro clube a oferecer um valor semelhante. Quem também perdeu foi o estado português que não receberá absolutamente nada do salário do Cavani. Em economia chama-se a isto o peso morto dos impostos, ou seja, todas os custos que a carga fiscal traz para a economia decorrentes daquilo que nunca chega a acontecer (contratações, investimentos) devido ao peso dessa carga fiscal. Chama-se peso morto porque os potenciais envolvidos perdem tudo, mas o estado também não obtém nenhuma receita fiscal.

O caso do Cavani é um caso extremo e é muito fácil apelar a sentimentos de justiça social para um tipo que recebe 10 milhões por ano. Mas podemos pensar numa empresa que precisa de reter um engenheiro chave e que para lhe pagar 4 mil euros líquidos por mês (um salário baixo para um bom engenheiro em qualquer parte da Europa) precisa de gastar 10 mil euros por mês entre salário, IRS e Segurança Social. Podemos pensar em todas as empresas que não conseguem reter este talento e todos os profissionais talentosos que depois acabam no estrangeiro a acrescentar valor e a criar novos empregos noutros países. Ou, pior ainda, os que ficam desmotivados e improdutivos porque sentem que o seu talento não é devidamente compensado. Podemos pensar no impacto para a nossa produtividade que é castigar assim as empresas que criam empregos bem pagos.

Mas há outra lição. Uma lição sobre desigualdade. Assim que chegasse, Cavani iria imediatamente aumentar todas as estatísticas de desigualdade, tanto de rendimento como de riqueza. Ele iria ganhar tanto num ano como um operário fabril em vários séculos. A desigualdade no país aumentaria, mas isto não significaria que os pobres ficariam pior.

Há motores de desigualdade que efectivamente deixam os pobres numa situação pior. Quando o estado português garante melhores condições de ensino a crianças de zonas ricas do que a crianças em zonas pobres, está a gerar desigualdade injustificada. Quando o governo cobra impostos para financiar empresas de amigos está a criar uma desigualdade injustificada. Quando um ladrão rouba uma pessoa no meio da rua, está a criar uma desigualdade injustificada. A desigualdade é um problema quando resulta de um processo em que se subtrai a uns de forma coerciva para dar a outros (dei um bom exemplo disso aqui no Eco há duas semanas). Quando a desigualdade aparece porque alguém que cria valor fica com uma parte desse valor criado, não existe qualquer dano para os mais pobres. Pelo contrário, quando o rendimento ou a riqueza são adquiridos em processos voluntários, a acumulação de uns apenas pode ser feita beneficiando outros. Se amanhã algum cientista inventar uma vacina para um certo vírus e ficar milionário com isso, a desigualdade aumenta, mas dificilmente se poderá dizer que os pobres ficam a perder.

Se há algo que Portugal precisa é de atrair pessoas que ganhem bem e tenham acumulado riqueza, mesmo que isso faça aumentar a desigualdade estatística. Porque só assim teremos capacidade para melhorar a vida de todos, especialmente dos mais pobres. Como qualquer pessoa que compare o salário e nível de vida de um empregado de limpeza em Portugal e no Luxemburgo perceberá, não há ninguém que beneficie tanto com a atração de capital como os mais pobres. Não há preconceito ideológico capaz de inverter esta realidade.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

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